Eu acordo e vejo a cama ao meu lado vazia.
Já era dia e você não estava mais lá. Me levanto e faço a
barba a contra gosto. Odeio me barbear logo pela manhã e você sabe disso.
Me corto com a gilete e a espuma branca ganha um tom
avermelhado. Me corto mas não sinto dor.
Termino de me barbear e o corte é apenas uma lembrança.
Encho uma xícara de café e me esqueço do açúcar. O primeiro
gole desce amargo, fazendo com que eu feche ainda mais cara. Minha gata ronrona
me olhando, enquanto se esfrega em minhas pernas, mas no instante seguinte muda
de direção.
Termino meu café sem açúcar, e o amargo também se torna
apenas uma lembrança.
Olho para a cama mais uma vez, na vaga esperança que seu
corpo preencha o espaço vazio, mas tudo que vejo são lençóis emaranhados.
Eu poderia dizer que você também havia se tornado apenas mais
uma, entre tantas outras lembranças, mas não quero me tornar nem previsível,
nem clichê.
Minha vida tem lembranças demais.
