terça-feira, 18 de junho de 2013

A Hora da Coincidência.

“Os dias tem sido estranhos. 
Estranhos por que você está aqui, 
mas eu não estou. 
Então é como se você não estivesse.”


22:22. Eu olho no relógio e essa hora sempre está lá, a minha espera, fazendo com que cada segundo passe penosamente para que eu possa contempla-la. 22:22. Desde pequena eu ouço um mantra quase sagrado em relação há essa hora. Costumavam me dizer que era a hora da coincidência. O encontro dos números repetidos, a beleza da imagem. Nessa mesma época eu passei minhas férias no litoral e um dia, ou melhor, uma noite eu olhei no relógio e me deparei com os números. 22:22. As pessoas a minha volta trocaram olhares cumplices. Eu perguntei “-Vocês também?” Eles me responderam quase sussurrando. “-Acontecem coisas estranhas nesse horário”... Não sei se era pra me assustar, ou se era real. Mas o fato é que essa hora me acompanhou durante todos os dias posteriores. Mas isso foi antes, e é melhor eu contar a minha história por inteiro. Ou pelo menos, contar as partes indispensáveis.
Antes de tudo, peço desculpas, mas vou contar em terceira pessoa. Fica mais fácil pra mim assim, como se eu estivesse falando de outra pessoa, contando outra historia que não seja a minha, confidenciando segredos que não são meus. E também, por que no fundo, tem dias que a gente realmente gostaria de ser outra pessoa.

domingo, 2 de junho de 2013

O Metrô

“Oh, Jenny está toda molhada, pobrezinha
Jenny raramente seca:
Ela enlameou todas as suas anáguas,
Vindo através do centeio!

Vem através do campo de centeio, pobre corpo,
Vem através do campo de centeio,
Ela enlameou todas as suas anáguas,
Vindo através do centeio!

Se alguém encontra alguém
Vem através do centeio,
Se um alguém beija alguém,
Necessita alguém gritar?

Se alguém encontra alguém
Vem através do vale,
Se alguém beija alguém
Necessita que o mundo saiba?

Se alguém encontra alguém
Vem através do grão,
Se alguém beija alguém,
A coisa é possuir um corpo.”
Coming Through The Rye 
by Robert Burns 

(Campo de trigo com ceifeiro e Sol. Vincent Van Gogh)
As portas se abriram. Noel entrou cabisbaixo, voltando para casa após mais um dia de trabalho. A perspectiva de enfrentar 2 metrôs lotados e mais alguns quarteirões de caminhada até seu apartamento era desanimadora.
Em seu Ipod ouvia os versos pragmáticos de Crioulo dizendo que “Não existe amor em SP”.
Noel respirou fundo e procurou um lugar pra se sentar, -e encontrou- um pequeno alento àquela altura do dia. Ao seu lado, uma senhora com lenço na cabeça lia a Bíblia.
- O mundo pertence aos pobres Noel! Era o que sua mãe costumava repetir. Mas ele não pretendia ter o mundo. Queria apenas uma vida mais tranquila, um trabalho mais perto de sua casa, um quintal, um cachorro e uma cadeira na varanda. Por horas passava a imaginar a cena, um final de tarde sentado em sua cadeira, observando o por do sol, ao sabor de um refresco gelado, um bom livro, uma musica tocando ao fundo. Ficava por horas a contemplar catálogos de decorações, se vendo em cada poltrona felpuda, sentindo os sorrisos a sua volta, ouvindo o som dos pássaros ao seu redor. Não foram poucas as vezes que teve que ser trazido de volta à realidade por um cutucão nada gentil entre as costelas.