“Os dias
tem sido estranhos.
Estranhos por que você está aqui,
mas eu não estou.
Então é
como se você não estivesse.”
22:22. Eu olho no relógio e essa hora
sempre está lá, a minha espera, fazendo com que cada segundo passe penosamente
para que eu possa contempla-la. 22:22. Desde pequena eu ouço um mantra quase
sagrado em relação há essa hora. Costumavam me dizer que era a hora da
coincidência. O encontro dos números repetidos, a beleza da imagem. Nessa mesma
época eu passei minhas férias no litoral e um dia, ou melhor, uma noite eu
olhei no relógio e me deparei com os números. 22:22. As pessoas a minha volta
trocaram olhares cumplices. Eu perguntei “-Vocês também?” Eles me responderam
quase sussurrando. “-Acontecem coisas estranhas nesse horário”... Não sei se
era pra me assustar, ou se era real. Mas o fato é que essa hora me acompanhou
durante todos os dias posteriores. Mas isso foi antes, e é melhor eu
contar a minha história por inteiro. Ou pelo menos, contar as partes
indispensáveis.
Antes de tudo, peço desculpas, mas vou
contar em terceira pessoa. Fica mais fácil pra mim assim, como se eu estivesse
falando de outra pessoa, contando outra historia que não seja a minha,
confidenciando segredos que não são meus. E também, por que no fundo, tem dias
que a gente realmente gostaria de ser outra pessoa.

