terça-feira, 20 de dezembro de 2016

30 e poucos anos

Se tu vens as 4, desde as 3 eu sou feliz.

É eu sei. É um plágio. Mas plagiei tanta coisa, tantos textos e tantas frases esse ano. Hoje não poderia ser diferente.

Sendo assim, aqui estamos nós. Cada vez mais velhos. E gordos. E por mais que você disfarce, nós dois sabemos que você ganhou alguns quilos desde a última vez. Os cabelos insistem em cair e eu rezo pra que você mantenha a sanidade (no fim isso é quase tudo que importa).

Outro ano passou e mais uma vez levou pessoas da nossa vida. E eu sei o quanto você sente vontade de ligar pra elas e de abraça-las e falar baixinho que está tudo bem, que você está ali e que vai passar. Essa maldita mania de preferir as coisas frágeis. Mas sei que você não vai. Elas precisam aprender a caminhar sem você garoto, e vc... Bem, você também precisa. Sei que vai entender isso.

Mas um ano passou e de verdade o que mudou?

Nesse ano andamos ainda mais rápido (295 km/h pra ser mais exato), escrevemos um monte de texto (33 com esse), arrancamos um bocado de sorrisos (eu não sou capaz de fazer essa conta) assim como nos anos anteriores.

Pegamos aquele monte de ideias que alguns insistem em chamar de sonhos e transformamos em planos. Concretizamos vários e outros tantos continuam guardados para serem concluídos amanhã, ou quem sabe depois de amanhã, ou quem sabe depois.

Não viajamos tanto quanto gostaríamos, mas fizemos as viagens que deveriam ser feitas. Mas calma garoto. Ainda existem tantas estradas pra você.

Por mais de uma vez você me deixou orgulhoso. Por umas tantas outras vezes você me deixou louco da vida. Por quantas e quantas vezes nós pensamos em desistir.

Mas acontece que você é duro, assim como Drummond dizia. Você é duro, mas é doce. É tempestade, mas também é calmaria. E eu continuarei aqui te dando colo e continuarei gritando com você, e continuarei te observando de perto, de longe, e de todas as formas possíveis.

Eu simplesmente vou estar.

Você vai se tornar um adulto maravilhoso.


Parabéns meu velho.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Do outro lado

A casa estava em silêncio. Vez ou outra era possível ouvir algum som que não era capaz de perturbar a calma, como se o silêncio fosse precioso demais para ser interrompido.

Os dias vinham passando assim. Muitas vezes sem que nada se movesse, e algumas vezes como nada fosse capaz de parar o movimento.

- Há anos eu vejo as pessoas indo embora. Há anos eu vejo e isso não faz com que eu seja mais fria, ou sinta menos dor. Eu queria entender o por quê. Eu só queria entender isso.

De seu lugar junto à janela ele ficou a contemplar as árvores por mais um momento. O vento batia em suas folhas fazendo com que elas vibrassem. Ele se permitiu um pequeno sorriso enquanto absorvia aquela sensação. (And I'm shaking like a leaf)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Enquanto eu respirar

Estive pensando em nós dois - ela escreveu no caderno com a letra apressada, como se o vento soprasse com força as palavras.    
                  
Estive pensando na falta que me faz e em como é duro não poder te abraçar de novo e em como eu sofro com sua ausência, mesmo que ela me enlace a cada noite em que perco o sono.  
                    
E enquanto isso - ela continua - eu sei que você continua desse lado, de uma maneira que talvez seja ainda mais intensa do que antes.       
               
As lágrimas começam a escorrer, mas ela não as limpa. Faz bem senti-las pelo seu rosto, como se fosse um afago, uma mão invisível de um toque tão conhecido. 
                     
Penso em quanto eu tive de você aqui e em como nunca vou ser capaz, (mesmo que em um mundo absurdo eu quisesse) de te esquecer. Ouço pelo fone de ouvido alguém dizer "só enquanto eu respirar vou me lembrar de você" mas eu discordo. 
                     
Talvez você não possa respirar, mas eu não tenho dúvidas de que você se lembra. Então, eu também me lembrarei.   
                   
Enquanto te espero voltar (da maneira que você queira voltar) vou estar aqui. Com tua ausência fazendo companhia.          
            

Te vejo do outro lado garoto.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Sem Reservas

Perguntaram-me o que era preciso fazer para viajar sozinho.

Eu respondi: Pegue o carro, pegue o ônibus, um avião, a moto, vá a pé, mas vá.

Vá sem planos, sem reservas, sem garantias, sem a segurança de ter um lugar pra ficar. Vá ver o desconhecido, o outro lado da sua zona de conforto. Vá e crie sua história, faça descobertas, veja lugares novos, faça amizades raras, inusitadas.

Se tudo der errado, o que pode acontecer? Voltar pra casa? Gastar uma passagem a mais? Dormir sob a luz das estrelas? Você acredita mesmo que isso signifique que não deu certo?

Vá e veja o mundo, tire fotos, fique sem fôlego. Ou não tire foto nenhuma. Volte com todas as lembranças possíveis, e conte a sua versão da história. Inspire outros a buscarem o novo, o belo, o desconhecido. Descreva os lugares por onde passou as paisagens que viu.

Mandei uma foto para uma amiga e disse que o local era lindo. Ela me respondeu que lindo era pouco para descrever. Então eu descrevi o que eu via. Disse que o céu lembrava a casa dos meus avós. Que lembrava a minha infância, onde as estrelas pareciam que poderiam me tocar, de tão brilhantes e o pôr do sol coloria o céu de tantas cores que eu sempre ficava sem fôlego ao olhar.

Talvez ela nunca veja o céu da casa dos meus avós, mas ela entendeu o que fotografia nenhuma poderia revelar. O significado daquele momento para mim.

A vida passa em uma velocidade tão subjetiva. Não se perca em planos que nunca saem do papel.

A vida é muito curta para não viajar sem reservas

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

My Sunshine

Talvez toda diferença que os outros enxergam se resuma a isso. Apenas a diferença que os outros enxergam.
Ninguém te enxerga como eu. Não sentem o que eu sinto, mesmo que de uma hora pra outra nós consigamos fazer o mundo desabar.
Por causa de carinho, por causa de atenção, ou por colo.
Você vai sempre ser meu raio de sol. Vai ser meu único raio de sol.
E você se perguntará: Mas de onde vem essas palavras? E eu talvez encabulada, e olhando para o chão te direi: Do coração. Não das minhas mãos, mas de mim.
E você dirá: É possível? - E eu sorrindo direi: Sim.
Talvez raros sejam os momentos em que ambas se vejam e se permitam ver vulneráveis, frágeis, delicadas... Mas eu me permito ser tudo que o posso ser por você.
Feliz Aniversário
"You are my sunshine, my only sunshine
You make me happy when skies are grey
You'll never know, dear, how much I love you
Please, don't take my sunshine away... (Johnny Cash)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Namore um cara que escreve.

Namore um cara que escreve.
Namore, por que você merece textos só seus, e só depois de ler algo feito especialmente para você é que você vai entender isso.
Namore um cara que escreve, pois é impossível alguém escrever sem gostar de ler.
Namore esse cara e você terá duas pessoas em uma. Aquele apaixonado pelos livros, pelos cheiros das páginas velhas e amareladas e aquele apaixonado pelas palavras que ele coloca nos papeis amarelados, nas mãos apressadas ou em uma mensagem rápida no celular.
Namore alguém que escreva e você vai aprender que o azul não é apenas azul. Ele vai te descrever cada tom e entretom que existe no arco-iris. Namore alguém que leia coisas pra você e no final do texto fique mudo, olhando para o chão por medo e orgulho do que escreveu.
Você será acordada durante a noite, eventualmente de madrugada com um "oi, você está aí?" somente para lhe dizer que escreveu um trecho novo daquela história, e - desculpa, mas eu precisava te mostrar.
Namore com alguém que cite ideias de grandes autores, mas que vez por outra, te diga que realmente não concorda com Hemingway, ou Nietzsche, ou Orwell, e que se fosse eles, teria feito totalmente diferente.
Esteja ao lado dele quando as ideias fugirem e permaneça ao seu lado quando as ideias surgirem. Vai ser incrível ver seu rosto se iluminar enquanto ele preenche de azul um pedaço de papel amassado.
Aproveite esses momentos. Deixe que lhe escreva poemas, poesias, contos românticos, eróticos, tristes e felizes. Deixe que ele escreva o "Felizes para Sempre" de vocês dois.
Deixe que ele sonhe. E deixe que ele te leve junto. Namore esse cara e vocês sempre terão sobre o que conversar.
Não tente entender um cara que escreve.  Ele não funciona como outras pessoas, pois sente e vive de uma forma diferente. Enxerga o mundo de uma maneira que apenas ele entende. 
Namore alguém que coloca seu coração no papel, que escreve com a caneta conectada com as batidas do seu peito, e que acima de tudo precisa escrever.
Namore com alguém que escreva, pois eles são raros, e você merece algo muito melhor do que o comum.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Gato de rua

E assim se foi.
Não disse adeus, não me olhou uma ultima vez, nem nada.
Mas o que eu poderia esperar de você gato de rua? Que me trouxesse flores ao invés de um ou outro passarinho morto?
Que miasse de um jeito diferente, ou que naquela manhã não me acordasse com sua pata peluda em meu rosto?
Teria que ser assim né? Simplesmente ir. Assim como eu faria. Assim como eu fiz tantas vezes.
Do mesmo modo como chegou, foi. (Y asi fue, simplemente termino)
Sem ponto final, sem vírgula.
Se foi mas deixou aqui, além dos incontáveis pelos no sofá, e as penas no chão, aquele calor de quando me abraçava. De quando voltava da rua e entrava pela janela já com o dia amanhecendo.
Foi meu herói peludo por tantas noites.
Foi tudo o que eu tive.
Just one day...

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Você vai continuar comigo?

- Ela me perguntou quantos anos ele faria hoje e eu me dei conta que nunca parei de contar. Talvez eu conte os anos que não o vejo, o quanto tempo passou, e com isso, eu acabe controlando o tempo, fazendo com que ele não passe de verdade. Mas no fundo, eu não gostaria de ter que contar nada.
- Existem milhares de cores entre o azul claro e o azul escuro, e sei que existem milhares de maneiras de estar perto um do outro. Mas entre tantas cores e tantos meios, eu não me acho, não me encontro. É injusto, não é? Injusto saber que vamos ficar bem, mas de verdade nós não vamos. Você está aqui, mas eu não estou. E se ele estiver? O que eu faço?
Ela suspira. -Você me disse que as pessoas também não ficam na sua vida. Me disse que isso acontece por que você não sabe o que procura, e nunca vai saber quando encontrar. Mas eu sei, eu sei! Por que eu nunca encontro?
As lágrimas insistiam em não cair a vários dias, mas os olhos ficavam marejados com as palavras.
- Eu sei o que eu busco... (ela diz)
- Eu sei. Sei que sabe. E sabe que vamos ficar bem. Mesmo que os anos passem, mesmo que você continue tentando controlar o tempo. Vamos ficar bem. Vamos encontrar ele um dia.
(As lágrimas escorrem do rosto dele)
- Sei que vamos. Vamos encontrar os dois lá juntos. Com as manias de cada um. O jeito de andar de um, a maneira de limpar as lentes dos óculos do outro. Vamos chegar e vão estar sorrindo, o café fraco junto com o pastel de milho. Uma mesa grande com dois lugares só nosso.
(Lágrimas)
- Você vai continuar comigo?
- Claro
Ela fecha os olhos.
- Obrigada...

sábado, 20 de agosto de 2016

Agradecimento

Acho que prefiro as coisas frágeis.

Sei que esse não é o melhor modo de começar a te agradecer, no entanto eu não vejo outra maneira.

Tem sido difícil, você sabe. Algumas vezes tudo se acerta, outras tantas vezes tudo se perde, e eu sinceramente não sei o que fazer sem você. Você é a coisa mais frágil que eu possuo.

Você que me ensinou que o silêncio diz tanto, não me ensinou a conviver para sempre com o seu. Acho que sabe, mas o seu silêncio faz o barulho mais ensurdecedor que eu conheço.

Mas eu prefiro que seja assim; te agradecer em silêncio em cada pedaço do que já foi dito, em tudo que já foi feito. Agradecer pelos cacos que ficaram pelo chão depois de cada temporal, e por todas as vezes que você fechou a janela antes da tempestade começar.

Por cada vez que você me mostrou que estava certo, e por eu poder te mostrar que aprendi. Eu aprendi.

Nada do que eu diga vai ser suficiente, e nós dois sabemos que não é preciso dizer muito.

Você é a razão disso tudo, e eu te abraçaria, mesmo que tu fosse cacto e eu um balão.

Eu amo você.

Obrigado.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Você pode cuidar de mim?

Você quer conhecer o meu mundo?
Conhecer meus pensamentos, e minhas coisas.
Quer ver os meus pesadelos e todos os meus sonhos ruins?
Você acha que pode cuidar de mim?

Acha que pode me abraçar e me esperar até tarde?
Esperar até que eu vença todos os meus medos, todos os monstros escondidos em lugares obscuros e todas as inseguranças e incertezas e todos os meus cachorros negros?
Você acha que pode cuidar de mim?

Quer conhecer um lugar depois de tudo que todo mundo vê?
Descobrir o que existe por trás de toda a confusão que tantas pessoas já recusaram conhecer?
Se embaralhar e se perder entre coisas boas e ruins
Você acha que pode cuidar de mim?

Pois eu posso cuidar de você
Vou conhecer o seu mundo, suas coisas e pensamentos
Vou te abraçar quando tiver pesadelos e esperar por ti até que a noite se transforme em dia

Vou me perder em sua confusão
Te achar entre as coisas boas e ruins
Te oferecer o meu melhor abraço

Para alguns é pouco
E para você?


Você acha que pode cuidar de mim?

terça-feira, 26 de julho de 2016

Le vent nous portera

- Há anos eu vejo as pessoas indo embora, e isso não faz com que eu seja mais fria, ou sinta menos dor. Eu queria entender o porquê. Eu só queria entender isso.

De seu lugar junto à janela ele ficou a contemplar as árvores por mais um momento. O vento batia em suas folhas fazendo com que elas vibrassem. Ele se permitiu um pequeno sorriso enquanto absorvia aquela sensação. (And I'm shaking like a leaf)

- Eu sonhei com ele de novo.

Ele se virou de um modo calmo, sem demostrar surpresa. Estavam acostumados aos sonhos ruins um do outro.

- Eu sonhei com ele e mais uma vez eu o perdi.

Ela começa a abraçar as próprias pernas, trazendo os joelhos pra perto do queixo e se deixando embalar em um movimento ritmado. Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás.

- Eu não gosto dos sonhos. -disse em um ultimo suspiro, como quem entrega os pontos mais uma vez.

- Foi só um sonho ruim.

Era assim que ele sempre tentava acalma-la. As palavras eram poucas, mas eram as palavras que deveriam ser ditas. - Foi só mais um sonho ruim.

- Mas porque até no sonho ele tem que ir? Porque ele não pode ficar? Porque tem que sempre ser assim?

As palavras caiam duras no chão, como sem força para atingir um alvo imaginário. Sem forças para trazer junto às lágrimas tão frequentes.

- Os seus sonhos não podem mudar o que aconteceu.

Disse isso e abandonou a janela, vindo de encontro a ela no sofá. Lá fora, as folhas bailavam com o vento. Pra frente e pra trás, pra frente e pra trás. Ele achou incrível a semelhança dos movimentos, mas não disse nada.

Chegou a sua frente se ajoelhou. Segurou suas mãos frias, e acariciou seu rosto da maneira mais delicada possível. Ela permitiu o carinho e parou de se movimentar, enquanto uma lágrima escorria pelo rosto. Secou a lágrima e disse.

- Não... Nada pode mudar o que aconteceu.

Ele sorri. Sabia que ela entenderia, mesmo que ainda não soubesse disso.

- Então fique calma. Eu também sofro com os meus sonhos. Você sabe tão bem o quanto eu sofro, e como eu acordo gritando com eles, no meio da madrugada, procurando alguém que também nunca está lá. Mas são sonhos. Bons ou ruins são sonhos.

Ela o encarou por alguns segundos. Sabia o quanto os sonhos eram duros pra ele também. Sua vontade era abraça-lo cada vez que ele suspirava a noite, e na maioria das vezes, era isso mesmo que fazia. (Está tudo bem, está tudo bem... era sempre assim que ela o trazia de volta a realidade).

- Eu sei... Mas dói tanto.

Ele deu um sorriso triste. Também sabia muito bem o que era sentir aquele tipo de dor.

- Eu sei. Pode ter certeza que eu sei. (suspirou) - Eu sonho com ela todas as noites. Às vezes é mais intenso, às vezes é menos intenso. Mas é um sonho. E eu não vou permitir que seja mais do que isso. Apenas um sonho.

Ela o encarou. Deixou o rosto repousar em sua mão por mais um tempo enquanto esperava tudo acalmar.

- E como nós vamos fazer? Porque eles nos deixam assim?

Outro sorriso triste. Sabia muito bem a resposta para a segunda pergunta. Oras, porque eles nos deixam assim!

- Vamos aprender a não deixar doer. Eu não falo dela, e essa é a minha forma de me proteger. Estou apagando tudo. Primeiro fisicamente. Depois aqui dentro.

Acariciou seu rosto de uma maneira mais intensa e a beijou na testa. Ela permaneceu de olhos fechados durante todo o tempo, sentindo a barba grossa lhe roçar o rosto.

- Você precisa fixar nas coisas boas, nas coisas que lhe fazem bem. Você me disse isso. Disse para dar um tempo para sofrer. Eu dei. Poxa, dê há você esse tempo!

Sua expressão era de surpresa. Sabia que as palavras sempre seriam fortes, mas ainda assim conseguia ficar sem ar.

- Quando eu penso nos sonhos, eu nunca consigo chegar a nenhuma conclusão. Mas agora, você falando assim, eu vejo que não é nele que eu penso de verdade. Eu penso no porque de ninguém nunca ficar. Eu me questiono tanto, e acontece isso.

- Então para de se questionar. Se eu ficar me questionando, se eu tentar encontrar mais explicações além das tantas que eu já tenho, eu também vou sonhar. Então pare. Simplesmente pare de se questionar tanto.

Ficaram assim parados, próximos ao do outro. Ela sentada no sofá, ainda abraçada aos joelhos. Ele, ajoelhado a sua frente, uma mão acariciando seu rosto. O tempo parece não importar, e nesse momento, o silêncio, e não as palavras é expressivo.

- Nós vamos ficar bem né? - ela diz, rompendo o silêncio.

- Vamos.

- Obrigada. (silêncio) - De tudo que aconteceu, eu só tenho uma certeza, que é você sempre perto de mim.

Ele se levanta, fazendo com que ela estique as pernas. Ele se deita; a cabeça repousada em seu colo, o gesto tão habitual entre os dois.

- Eu sempre vou estar perto de você.

Ela afaga seu cabelo por alguns instantes e lhe dá um suave beijo na testa.

- E eu agradeço muito por isso.

Ficaram assim em silêncio por muito tempo, apenas a respiração de um fazendo companhia a respiração do outro. A intimidade envolvida não é explicada com palavras, o que talvez explique a necessidade de estarem perto, ou o motivo de nenhum dos dois querer ir embora.

Das formas existentes de amor, provavelmente essa seja uma das mais fortes. A delicadeza daqueles que se amam no silêncio dos gestos.

"Je n'ai pas peur de la route
Faudrait voir, faut qu'on y goûte
Des méandres au creux des reins
Et tout ira bien

Le vent nous portera..."

O tempo passa fragmentado enquanto ele, de olhos fechados, recebe o afago nos cabelos negros. Ninguém saberia dizer o quanto ficaram ali assim. As palavras que quebram o silêncio, no entanto, são conhecidas.


- Acho que prefiro as coisas frágeis - ela disse.

terça-feira, 19 de julho de 2016

A mesma história

Bem aventurados aqueles que acreditam na mudança. Aqueles que viajam para longe sozinhos em busca das respostas que parecem nunca chegar.
Bem aventurados aqueles que sentem frio e ainda assim aquecem o coração das pessoas que amam.
Para todos que vagueiam sozinhos sem estarem perdidos. (Obrigado Tolkien, por me ensinar isso)
Para aqueles que preferem as coisas frágeis. (Aahh Gaiman...)
Bem aventurados sejam os que se arriscam. E os que se mantem em silêncio enfrentando seus fantasmas, seus monstros e seus medos.
A mudança não trata de lugar, ou espaço geográfico. A mudança está lá dentro.
Por todos que mudam, por todos que incentivam, por todos que planejam. Por todos que realizam.
Bem aventurados sejam aqueles que se importam, seguram sua mão e te abraçam em silêncio.
Sei que tudo se trata de uma repetição, mas as histórias estão todas escritas.
Então, que sejam abençoados aqueles que sabem ler, reler, reescrever e sorrir e se emocionar com a mesma história contada de uma maneira diferente.

terça-feira, 5 de julho de 2016

O guarda roupas amarelo

"Por que lê tanto?"
25 anos atrás talvez eu não soubesse responder a essa pergunta. Meus irmãos simplesmente me colocavam sobre esse velho guarda roupas amarelo (que na época eu nem ousaria comparar com Nárnia) e me deixavam lá por horas.
Hoje eu entendo o por que de ler e escrever tanto. É uma forma de estar perto de pessoas, de conversar com aqueles que já se foram e de atingir corações.
Desde sempre as palavras estiveram ao meu lado e sou grato aqueles que um dia me colocaram "sobre o guarda roupas amarelo".
É por isso que leio tanto.

A rosa e o balão


"Mas por que as rosas?- ela me perguntou enquanto chupava o sangue da ponta do dedo.
- Por que elas sendo assim tão belas precisam ter espinhos? - ela franzia a testa como que indignada com uma criação divina.

Enquanto eu sorria, apaixonado pela visão dela ali com o dedo na boca, se auto amparando, comecei a pensar em como poderia não amar aquela criança.

- Você acha que as rosas sem espinhos, seriam mais amadas? 

Ela me olhou com um sorriso sincero.

- Eu gosto de você quando sua barba não me pinica. - ela disse me abraçando.

- E você deixa de me amar quando minha barba pinica.

Ela pareceu pensar por um segundo, antes de me abraçar novamente.

- Eu gosto de você quando sua barba pinica também!

Abracei mais forte enquanto pensava nos meus dias de infância, com as plantações de mini rosas no quintal.

Ela me soltou, repousou a mão sobre um cacho de rosas e depois sobre meu rosto.

- É, acho que as coisas foram feitas da maneira correta mesmo. 
Peguei em sua mão e começamos a caminhar para fora do parque.


- Te abraçaria mesmo que tu fosse cacto e eu, balão. - falei.
Ela me olhou sorrindo, e saiu em disparada atrás do carrinho de algodão doce.