Eu estava parado do outro lado da rua, com meu Zippo entre
os dedos quando ela chegou. Demorou um tempo até me ver parado ali e cruzar a
rua com o passo um pouco apressado, um pouco desatento. Esperei até que ela
parasse a minha frente para guardar o Zippo no bolso e abrir um pouco os braços
para que ela se enlaçasse sem dizer nenhuma palavra. Fechei os braços sobre seu
corpo pequeno e ficamos um tempo assim sem dizer nada. Esperei até que as
lágrimas dela secassem e os soluços parassem, antes de solta-la e acariciar seu
rosto.
A maquiagem havia se perdido e minha camisa apresentava
vários sinais que era uma das culpadas. Quando finalmente se acalmou, pegou
minha mão e olhando para o chão disse o quanto os dias haviam sendo difíceis.
Eu não duvidava que fosse verdade. Os últimos dias tem sido um inferno, era
isso que sempre dizíamos um para o outro. Não seria diferente agora.
Peguei em sua mão e coloquei em minha cintura enquanto
começava a caminhar lentamente pela calçada. A sensação desse corpo conhecido
perto do meu era reconfortante, embora eu soubesse que não duraria muito. Nunca
duraria o suficiente.
Andamos até o final da rua e parei um taxi. Dei a direção
para o motorista e ele seguiu viagem com dois desconhecidos no banco traseiro
do seu carro. No radio a voz do Brasil nos fazia companhia. Uma a uma as ruas e
os postes foram ficando para trás enquanto nossas mãos permaneciam enlaçadas.
Se eu a perdesse novamente – eu pensava – talvez eu
realmente não me encontrasse mais, embora eu já houvesse me perdido tantas
vezes.
Esperei que o taxi parasse, paguei com uma nota sem pedir o
troco e saímos novamente para a rua. A nossa frente as grades deixavam passar
as imagens da parte interna do cemitério. Silencioso, escuro, acolhedor.
- Sempre foi assim com a gente, né? Ela disse.
Eu não precisei responder. Continuei olhando para a frente,
pensando que mais uma vez seria difícil manter as velas acesas com aquele
vento, mas não importava. Elas parariam acesas como das ultimas vezes, como se
alguém quisesse que elas ficassem acesas independente do vento ou do quer que
fosse.
Entramos em silencio e fomos caminhando. Suas mãos quase esmagavam
a minha a medida que chegávamos mais perto, mas eu não soltava. Ninguém antes
havia segurado sua mão e eu não seria o primeiro a soltar. Ela soltaria na hora
certa, mas nunca era a hora certa.
Paramos próximos a lápide e era como se uma terceira pessoa
nos abrace no mesmo instante. Apertei a gola do casaco embora não fizesse frio.
Ela soltou minha mão e eu tentei acender um cigarro com o Zippo fazendo concha
em frente ao rosto, mas a tarefa se mostrou praticamente impossível. Depois da
quinta tentativa, joguei o cigarro intacto no chão e amassei com a sola do
sapato. Comecei a pensar em como seria difícil acender as velas naquele dia.
- Parece que hoje vai ser difícil. Eu disse.
Ela sorriu pela primeira vez.
- Sempre foi assim com a gente, né?
Colocou as três velas e ficou olhando para o nada. Me aproximei
e me ajoelhei ao seu lado com o Zippo nas mãos e comecei a acender uma a uma enquanto
o vento soprava forte.
Como de costume, todas as velas se mantiveram acesas com tremendo
contra o vento. Me levantei contemplando as pequenas chamas que resistiam e me
perguntava o motivo do cigarro não ter permanecido acesso nem um segundo.
Ela se levantou a segurou minha mão.
- No fundo a gente sabe pra onde tem que voltar né? E sabe
quando tem que voltar também.
Suspirou um pouco antes de continuar. – Ele sabia que era
hora de voltar. Sabia que precisava voltar pra ela. Por isso não esperou pra me
dizer adeus. Não deu um ultimo beijo, não correu me abraçar e nem fez bolinhos
uma ultima vez. Era ela que ele queria beijar, abraçar e dar risada nas tardes
de domingo. No fundo, eu o perdoo da maneira que eu gostaria que ele me
perdoasse. Eu o perdoo e ele sabe. Uma vez ele me disse que outro lado seria
lindo quando estivéssemos juntos. Eu espero que o outro lado seja lindo desde
já.
Abracei-a mais uma vez em silencio enquanto começávamos a
caminhar de volta para a saída.
Meu pai me dizia que no final, peões e reis voltavam pra
mesma caixa. Eu esperava que nossa caixa não fosse apenas no final.
Cruzamos a rua e fomos embora, caminhando lado a lado como
se o tempo não tivesse fim. Como se sempre tivesse sido assim.