Eu me sentei de frente a ela. Não sabia muito bem o
que fazer com as mãos e com a direção do meu olhar. Encarei a parede por um
momento, depois a ponta dos dedos e por fim encarei o seu olhar. Havia um
brilho estranho na sua expressão. Por fim, falei as palavras que vinham
travando em minha garganta há alguns dias.
- Eu amo você.
Senti de longe seus ombros retesarem.
- Eu te amo e isso está explícito em todos os meus
atos, em todos os sinais que meu corpo revela.
Meus braços pedem por seu abraço, minhas mãos
querem percorrer os contornos do corpo teu, meus olhos querem fixar nas suas
órbitas e minha boca clama pelo toque dos seus lábios.
Respirei fundo e continuei.
- Eu te amo, e isso é evidente. Mas eu não gosto mais
de você. Eu gosto mais de mim nesse momento. Agora o seu nome tem um gosto
estranho em minha boca, e a lembrança do seu rosto me traz borboletas no
estômago. O som da sua voz maltrata meus ouvidos, e não é isso que eu quero,
não é isso que eu desejo pra nós dois. Prefiro te amar a distância e amar
apenas a sua lembrança, do que amar você de perto e não gostar de você como
você merece.
Pareceu uma eternidade até que ela respondesse alguma
coisa.
- Mas sempre foi assim!
Ela jogou as palavras sobre mim como se fossem
pedras.
- Sempre foi assim, poxa. Você está louco pra
agir dessa maneira?
Eu tive que sorrir. Um sorriso cansado, de canto
de boca, mas foi a única reação que eu consegui
esboçar antes de responder.
- Você acha que eu estou louco? Loucura é você
fazer a mesma coisa, todo maldito dia, e ainda assim esperar que a porcaria da
nossa vida mude. Isso é loucura. Você fica parada esperando, esperando.
E quando você notar, já terão passados todos os anos que você prometeu que
seriam bons. E os melhores dias e as melhores noites terão ficado pra trás. Você
vai levantar do sofá e não vai se encontrar fora dele. O sol vai queimar seus
olhos, o som do vento será ensurdecedor. É isso que você espera tanto que
aconteça? É isso que você acha normal? Quer continuar assim até quando?
Eu suspirei uma ultima vez antes de
ir embora.
-Você não tem ideia do que seja
loucura. Isso sim é loucura...
Apanhei minhas poucas coisas e sai.
As vezes, por mais que você queira, é impossível continuar. Fechei a porta as
minhas costas e fui sem olhar para trás. Não deveria ser indolor abandonar algo
que realmente nunca foi seu? John Green não disse algo parecido com isso?
Talvez eu esteja me confundindo, mas era assim que eu me sentia. Aquilo nunca
havia sido meu de verdade. Talvez um breve lampejo de felicidade houvesse feito
com que acreditássemos. Mas de verdade, foi apenas mais um lampejo.