- Há anos eu vejo as pessoas indo embora, e isso não faz com que eu seja
mais fria, ou sinta menos dor. Eu queria entender o porquê. Eu só queria
entender isso.
De seu lugar junto à janela ele ficou a contemplar as árvores por mais
um momento. O vento batia em suas folhas fazendo com que elas vibrassem. Ele se
permitiu um pequeno sorriso enquanto absorvia aquela sensação. (And I'm shaking like a leaf)
- Eu sonhei com ele de novo.
Ele se virou de um modo calmo, sem demostrar surpresa. Estavam
acostumados aos sonhos ruins um do outro.
- Eu sonhei com ele e mais uma vez eu o perdi.
Ela começa a abraçar as próprias pernas, trazendo os joelhos pra perto
do queixo e se deixando embalar em um movimento ritmado. Pra frente e pra trás,
pra frente e pra trás.
- Eu não gosto dos sonhos. -disse em um ultimo suspiro, como quem
entrega os pontos mais uma vez.
- Foi só um sonho ruim.
Era assim que ele sempre tentava acalma-la. As palavras eram poucas, mas
eram as palavras que deveriam ser ditas. - Foi só mais um sonho ruim.
- Mas porque até no sonho ele tem que ir? Porque ele não pode ficar?
Porque tem que sempre ser assim?
As palavras caiam duras no chão, como sem força para atingir um alvo
imaginário. Sem forças para trazer junto às lágrimas tão frequentes.
- Os seus sonhos não podem mudar o que aconteceu.
Disse isso e abandonou a janela, vindo de encontro a ela no sofá. Lá
fora, as folhas bailavam com o vento. Pra frente e pra trás, pra frente e pra
trás. Ele achou incrível a semelhança dos movimentos, mas não disse nada.
Chegou a sua frente se ajoelhou. Segurou suas mãos frias, e acariciou
seu rosto da maneira mais delicada possível. Ela permitiu o carinho e parou de
se movimentar, enquanto uma lágrima escorria pelo rosto. Secou a lágrima e
disse.
- Não... Nada pode mudar o que aconteceu.
Ele sorri. Sabia que ela entenderia, mesmo que ainda não soubesse disso.
- Então fique calma. Eu também sofro com os meus sonhos. Você sabe tão
bem o quanto eu sofro, e como eu acordo gritando com eles, no meio da
madrugada, procurando alguém que também nunca está lá. Mas são sonhos. Bons ou
ruins são sonhos.
Ela o encarou por alguns segundos. Sabia o quanto os sonhos eram duros
pra ele também. Sua vontade era abraça-lo cada vez que ele suspirava a noite, e
na maioria das vezes, era isso mesmo que fazia. (Está tudo bem, está tudo
bem... era sempre assim que ela o trazia de volta a realidade).
- Eu sei... Mas dói tanto.
Ele deu um sorriso triste. Também sabia muito bem o que era sentir
aquele tipo de dor.
- Eu sei. Pode ter certeza que eu sei. (suspirou) - Eu sonho com ela
todas as noites. Às vezes é mais intenso, às vezes é menos intenso. Mas é um
sonho. E eu não vou permitir que seja mais do que isso. Apenas um sonho.
Ela o encarou. Deixou o rosto repousar em sua mão por mais um tempo
enquanto esperava tudo acalmar.
- E como nós vamos fazer? Porque eles nos deixam assim?
Outro sorriso triste. Sabia muito bem a resposta para a segunda
pergunta. Oras, porque eles nos deixam assim!
- Vamos aprender a não deixar doer. Eu não falo dela, e essa é a minha
forma de me proteger. Estou apagando tudo. Primeiro fisicamente. Depois aqui
dentro.
Acariciou seu rosto de uma maneira mais intensa e a beijou na testa. Ela
permaneceu de olhos fechados durante todo o tempo, sentindo a barba grossa lhe
roçar o rosto.
- Você precisa fixar nas coisas boas, nas coisas que lhe fazem bem. Você
me disse isso. Disse para dar um tempo para sofrer. Eu dei. Poxa, dê há você esse
tempo!
Sua expressão era de surpresa. Sabia que as palavras sempre seriam
fortes, mas ainda assim conseguia ficar sem ar.
- Quando eu penso nos sonhos, eu nunca consigo chegar a nenhuma
conclusão. Mas agora, você falando assim, eu vejo que não é nele que eu penso
de verdade. Eu penso no porque de ninguém nunca ficar. Eu me questiono tanto, e
acontece isso.
- Então para de se questionar. Se eu ficar me questionando, se eu tentar
encontrar mais explicações além das tantas que eu já tenho, eu também vou
sonhar. Então pare. Simplesmente pare de se questionar tanto.
Ficaram assim parados, próximos ao do outro. Ela sentada no sofá, ainda
abraçada aos joelhos. Ele, ajoelhado a sua frente, uma mão acariciando seu
rosto. O tempo parece não importar, e nesse momento, o silêncio, e não as
palavras é expressivo.
- Nós vamos ficar bem né? - ela diz, rompendo o silêncio.
- Vamos.
- Obrigada. (silêncio) - De tudo que aconteceu, eu só tenho uma certeza,
que é você sempre perto de mim.
Ele se levanta, fazendo com que ela estique as pernas. Ele se deita; a
cabeça repousada em seu colo, o gesto tão habitual entre os dois.
- Eu sempre vou estar perto de você.
Ela afaga seu cabelo por alguns instantes e lhe dá um suave beijo na
testa.
- E eu agradeço muito por isso.
Ficaram assim em silêncio por muito tempo, apenas a respiração de um
fazendo companhia a respiração do outro. A intimidade envolvida não é explicada
com palavras, o que talvez explique a necessidade de estarem perto, ou o motivo
de nenhum dos dois querer ir embora.
Das formas existentes de amor, provavelmente essa seja uma das mais
fortes. A delicadeza daqueles que se amam no silêncio dos gestos.
"Je n'ai pas peur de la route
Faudrait voir, faut qu'on y goûte
Des méandres au creux des reins
Et tout ira bien
Le vent nous portera..."
O tempo passa fragmentado enquanto ele, de olhos fechados, recebe o
afago nos cabelos negros. Ninguém saberia dizer o quanto ficaram ali assim. As
palavras que quebram o silêncio, no entanto, são conhecidas.
- Acho que prefiro as coisas frágeis - ela disse.