segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Eu já disse que preciso de você?


“Eu já disse que preciso de você?”
(Did i say that i need you?)

“No fundo, todo escritor é um suicida. Os que se suicidaram foram aqueles que chegaram ao final da sua obra.”
(Parafraseando Luis Fernando Veríssimo, em “O Suicida e o Computador”).

Refez o movimento automaticamente pela décima vez seguida. Tirou um cigarro do maço, levou até a boca, acendeu e tragou longamente a fumaça. Sentiu a pulsação acelerar, a fumaça invadindo os pulmões pesadamente. O cinzeiro em forma de concha transbordava pequenas bitucas enegrecidas, fazendo o cheiro de alcatrão dominar o ambiente.
Debruçou sobre a mesa, as mangas do paletó de tweed gastas na altura dos cotovelos pelas longas horas dispensadas nessa posição. Passou a mão pelos espessos cabelos escuros, sentindo o suor que brotava em seu couro cabeludo lhe molhar a palma da mão.
A saleta pouco iluminada revelava uma decoração simples, porem sutil. Um pôster de Elvis em uma das paredes, discos de vinil espalhados pela estante, um cartaz de pub inglês, diversos livros de capa desbotada. Ao centro a mesa repleta de papéis, frascos de tinta e canecas vazias. Toda a genialidade encontrada em sua mente contrastava com sua organização. Era mais fácil encontrar um espaço para escrever no chão do que ali. A máquina de escrever alemã Adler Tippa era a única peça reconhecível.

-Dizem que a metralhadora foi inventada primeiro. –ouviu uma voz conhecida falando ao seu ouvido.
-E por quê você não compra uma? - Pitty não tirou os olhos da brasa do cigarro para responder.  –Sabe que não caio nessa sua conversa pobre.
Tragou novamente a fumaça até uma pequena chama se formar na parte escura do filtro.
-De todas as coisas que eu não preciso hoje, a maior delas é você Ted. Seja educado e suma!
O riso de Ted foi sentido na pele. Usava uma boina de maquinista, uma camisa branca com listras azuis. A barba por fazer lhe dava uma aparência embriagada. Tinha olhos cor de âmbar e lábios finos. –Mas você sabe que não pode me mandar embora.
Pitty apagou o restante do cigarro no cinzeiro, derramando ainda mais sujeira sobre a mesa. Puxou a gaveta, retirando de lá uma folha de papel em branco e inseriu na máquina com estrema destreza. Ajustou as margens e começou a bater nas teclas furiosamente. Os sons dos botões fizeram o Cocker erguer as orelhas.
Da porta, Ted observava com uma caneca fumegante de chá nas mãos. Olhou a volta com uma expressão de censura nos olhos.
-E você diz que não precisa de mim?
Pitty arrancou a folha da máquina amassando e a arremessando na lata de lixo. Novamente retirou um cigarro do maço e o acendeu. Ficou observando a fumaça subir em pequenas espirais.
Sons de estática começavam a sair do rádio e invadir o aposento, dando a impressão de uma pequena sala de controle aéreo. Ted tentava sintonizar alguma estação, com os ouvidos colados, enquanto só se ouviam ruídos.
-Desligue essa droga. Há anos isso não funciona.
Como que ensaiado, os acordes de blues começavam a brotar das pequenas caixas. Ted lançou um sorriso sarcástico. –Voilá! Essa droga funciona!
Acompanhando a musica com os dedos, Ted se aproximou da mesa sentando em sua extremidade. Ficou por alguns minutos observando a fumaça do chá subir ao lado das espirais de fumaça do cigarro de Pitty. A cena lembrava o encontro de pequenos furacões. Pegou algumas folhas amassadas de sobre a mesa e começou a ler.
-O que temos aqui?
Pitty tomou os papéis das mãos, com uma expressão carrancuda. –Nada que seja pra você.
-Poxa vida! Se suas histórias forem tão simpáticas como você, nós vamos ficar ricos.
-Não existe “Nós”. Pitty jogou os papéis no cesto de lixo. –Você não existe, esqueceu? Não existe!
Ted fingiu uma expressão sentida.
-Assim você me magoa. Só por quê eu sou fruto da sua imaginação eu não posso existir? Você fala isso para seus outros personagens também? A expressão sentida foi substituída pela zombateira.
Pitty não sabia o que gostava menos. Ter um amigo imaginário, ou ter um amigo imaginário que fosse mais inteligente do que ele.
-Por que você não some? Limitou-se a dizer.
-Porque você precisa de mim. Ted respondeu, tomando o resto do chá. –Você precisa de mim.
Pitty pegou o cinzeiro e foi esvaziar na cozinha. Quando retornou, a sala estava vazia. Sentiu-se ligeiramente solitário, mas limitou-se a fechar a janela por onde entrava um vento gelado que esparramava os papéis da sua mesa. Deitou-se no sofá e tentou dormir.
***
Acordou com o som de Eagles, tocando Hotel Califórnia. Não se lembrava de quando tinha pegado no sono, e nem sabia o quanto havia dormido, mas tinha quase certeza de ter desligado o rádio. Soergueu-se e vislumbrou Ted sentando na cadeira da sua mesa, afagando a cabeça do Cocker. Uma nova caneca de chá fumegava em suas mãos. Vestia uma camiseta com uma grande borboleta estampada em uma moldura que aparentava ser de vidro. Lembrou-se de uma tirinha de quadrinhos de Bill Watterson, onde o tigre imaginário Haroldo diz a Calvin que se os humanos pudessem, eles prenderiam o arco-íris. Algumas folhas estavam organizadas sobre a mesa, destoando do restante da desordem. Levantou-se e caminhou até lá. Sem se importar com a presença de Ted, começou a ler.
-São bons. –Pitty disse.
-Eu disse que você precisava de mim. –Ted respondeu sem levantar os olhos do Cocker.
Pitty o olhou de soslaio e continuou a ler. Eram realmente bons.
Sentou-se e começou a datilografar rapidamente. O clac clac da máquina sobrepôs o som do rádio, transformando o ambiente em uma linha de guerra.
-Eu disse que você deveria comprar uma metralhadora! É muito mais eficaz! –Ted falava alto, tampando os ouvidos como se o som fosse ensurdecedor.
Pitty não respondeu. Continuou a castigar as teclas enquanto as palavras surgiam em letras borradas contra o papel branco. Ao final do dia, dúzias de paginas se acumulavam sobre a mesa. Ted observava tudo sentado no sofá, com uma velha Gibson nos braços. Dedilhava acordes de Beatles e B.B King. Pitty acendeu um novo cigarro e observou a fumaça subir.
-Jeny gostaria de estar aqui.
-Jeny está morta Pitty. Há vários anos.
Ted começou a dedilhar Goodbye Cruel Word.
-Mas ela gostaria de estar aqui. Sua voz era quase inaudível.
-Todos gostariam Pitty. –Ted passou os dedos pelas cordas produzindo um som grave. Apontou com o braço da guitarra para o peito de Pitty. –E você, onde gostaria de estar?
Pitty não respondeu. Tirou a Gibson das mãos de Ted e testou as cordas. Os dedos estavam doloridos de tanto bater a máquina. Percorreu o braço da guitarra suavemente, o olhar perdido através da janela. Aos poucos os sons começaram a brotar, um leve solo triste, envolvente.
-Você sabe onde eu quero estar.
-E por que você não vai?
-Porque eu sei que você vai estar lá comigo! Parou de tocar e jogou a guitarra no sofá.
-E se eu não fosse? Você ficaria bem? Ficaria bem sem mim?
Pitty não respondeu. Começou a juntar xícaras vazias, papéis manchados, embalagens de comida congelada. Encontrou um molho de chaves que estava perdido e o colocou no bolso. O tilintar das chaves com algumas moedas fez com que ele parasse. Olhou ao redor observando como se o ambiente pálido fosse estranho. –Eu não tenho um relógio na parede. –constatou sem grande entusiasmo. Caminhou até a janela observando a cidade crepuscular surgir a sua frente. –Não preciso de relógio. Agora é noite. Depois amanhece. É assim. É sempre assim! Ficou pensando em nada por alguns momentos. Viu as janelas se iluminarem, as luzes dos carros se movendo como um organismo vivo. Olhou para o alto e observou as estrelas. Lembrou-se de um velho verso: “Vocês são estrelas. O que vocês olham? Quem vocês procuram? Para onde vocês vão?” Virou-se e caminhou até a lata de lixo, arrastando-a até a beirada da mesa. O som do metal riscando o mármore do piso fez o Cocker levantar a cabeça do tapete puído. Começou a despejar todo o conteúdo dentro da lata. Papéis, tinta e canetas caiam em cascata. O som se assemelhava a um grande caminhão de lixo, recolhendo os latões nas ruas desertas de madrugada, e pela quantidade de lixo presente, a visão também era semelhante. Ao final, apenas a máquina de escrever restava sobre a mesa.
Ted tocava uma gaita empoeirada sentado no beiral da janela. Trajava uma camiseta em gola v, aberta até o meio do peito, com alguma estampa psicodélica.
Pitty sentou-se e testou a máquina sem papel. Primeiro lentamente, depois rápido.
Ted caminhou e colocou as mãos sobre seus ombros, falando próximo a seu ouvido. –Acho que Jeny gostaria de estar aqui agora.
Pitty anuiu suavemente. –Mas ela está morta. –Sua voz era frágil como de um garotinho tímido.
-Não se você não quiser. –Ted segurava a gaita entre os dedos e tentava dar brilho a ela esfregando suas partes cromadas contra a camiseta.
-Eu não posso. –Pitty passou as mãos pelos contornos da máquina como se acariciasse as curvas de uma mulher.
-Mas eu posso! Ted abriu uma gaveta retirando de lá um pesado envelope pardo com uma fita branca o lacrando. Na etiqueta podia-se ler em grandes letras pretas “JENY”.
Pitty não o tocou.
-É lá que você quer estar. –Ted disse tocando o envelope.
-É. –Pitty respondeu com a voz cansada.
-Então vai porra!
-Não se você estiver lá. –Seu tom de voz era triste e desafiador.
-É isso que quer? Então faça!
Ted saiu pelo corredor batendo a porta. A estática no rádio voltar a preencher o ambiente.
Pitty ficou sozinho sentado a mesa. Lentamente abriu o envelope e começou a retirar páginas amarelecidas do seu interior. Sentiu a textura do papel, os cheiros de tinta, de suor, de trabalho e de dor.
Como se tocasse em algo que fosse se dissolver, colocou a ultima folha do envelope na máquina e ajustou as margens.
Sem precisar ler seu conteúdo, continuou uma linha com uma frase interrompida.

“...Ted tocou em seu ombro nu, fazendo-a virar e olhar em seus olhos. O perfume de jasmim fazia com que a tarde ficasse mais clara. Jeny lançou um olhar divertido e começou a se afastar correndo.
-Por que você não some? –Ela disse sorrindo.
-Porque você precisa de mim! –Respondeu no momento em que a enlaçava em seus braços...”

Lá fora as luzes se apagavam.
No sofá, Ted balançava os pés sobre o encosto, com a guitarra nos braços, enquanto Jeny afagava seus cabelos loiros.
Dá velha Gibson surgiam novos acordes: “Nothing you would take. Everything you gave. Hold me til I die. Meet you on the other side...”
Pitty se levantou e acendeu um ultimo cigarro.
-Por que vocês não somem? –Perguntou sorrindo enquanto apagava a luz com um “clic”.