“Eu
já disse que preciso de você?”
(Did i say that i need you?)
“No fundo, todo escritor é um
suicida. Os que se suicidaram foram aqueles que chegaram ao final da sua obra.”
(Parafraseando Luis Fernando Veríssimo, em “O Suicida e o Computador”).
Refez o
movimento automaticamente pela décima vez seguida. Tirou um cigarro do maço,
levou até a boca, acendeu e tragou longamente a fumaça. Sentiu a pulsação
acelerar, a fumaça invadindo os pulmões pesadamente. O cinzeiro em forma de
concha transbordava pequenas bitucas enegrecidas, fazendo o cheiro de alcatrão
dominar o ambiente.
Debruçou sobre
a mesa, as mangas do paletó de tweed gastas na altura dos cotovelos pelas
longas horas dispensadas nessa posição. Passou a mão pelos espessos cabelos
escuros, sentindo o suor que brotava em seu couro cabeludo lhe molhar a palma
da mão.
A saleta pouco
iluminada revelava uma decoração simples, porem sutil. Um pôster de Elvis em
uma das paredes, discos de vinil espalhados pela estante, um cartaz de pub
inglês, diversos livros de capa desbotada. Ao centro a mesa repleta de papéis,
frascos de tinta e canecas vazias. Toda a genialidade encontrada em sua mente
contrastava com sua organização. Era mais fácil encontrar um espaço para
escrever no chão do que ali. A máquina de escrever alemã Adler Tippa era a
única peça reconhecível.
-Dizem que a metralhadora foi inventada primeiro. –ouviu uma
voz conhecida falando ao seu ouvido.
-E por quê você não compra uma? - Pitty não tirou os olhos da
brasa do cigarro para responder. –Sabe
que não caio nessa sua conversa pobre.
Tragou
novamente a fumaça até uma pequena chama se formar na parte escura do filtro.
-De todas
as coisas que eu não preciso hoje, a maior delas é você Ted. Seja educado e
suma!
O riso de
Ted foi sentido na pele. Usava uma boina de maquinista, uma camisa branca com
listras azuis. A barba por fazer lhe dava uma aparência embriagada. Tinha olhos
cor de âmbar e lábios finos. –Mas você sabe que não pode me mandar embora.
Pitty
apagou o restante do cigarro no cinzeiro, derramando ainda mais sujeira sobre a
mesa. Puxou a gaveta, retirando de lá uma folha de papel em branco e inseriu na
máquina com estrema destreza. Ajustou as margens e começou a bater nas teclas
furiosamente. Os sons dos botões fizeram o Cocker erguer as orelhas.
Da porta,
Ted observava com uma caneca fumegante de chá nas mãos. Olhou a volta com uma
expressão de censura nos olhos.
-E você
diz que não precisa de mim?
Pitty
arrancou a folha da máquina amassando e a arremessando na lata de lixo.
Novamente retirou um cigarro do maço e o acendeu. Ficou observando a fumaça
subir em pequenas espirais.
Sons de
estática começavam a sair do rádio e invadir o aposento, dando a impressão de
uma pequena sala de controle aéreo. Ted tentava sintonizar alguma estação, com
os ouvidos colados, enquanto só se ouviam ruídos.
-Desligue
essa droga. Há anos isso não funciona.
Como que
ensaiado, os acordes de blues começavam a brotar das pequenas caixas. Ted
lançou um sorriso sarcástico. –Voilá! Essa
droga funciona!
Acompanhando
a musica com os dedos, Ted se aproximou da mesa sentando em sua extremidade.
Ficou por alguns minutos observando a fumaça do chá subir ao lado das espirais
de fumaça do cigarro de Pitty. A cena lembrava o encontro de pequenos furacões.
Pegou algumas folhas amassadas de sobre a mesa e começou a ler.
-O que
temos aqui?
Pitty
tomou os papéis das mãos, com uma expressão carrancuda. –Nada que seja pra
você.
-Poxa
vida! Se suas histórias forem tão simpáticas como você, nós vamos ficar ricos.
-Não existe
“Nós”. Pitty jogou os papéis no cesto de lixo. –Você não existe, esqueceu? Não
existe!
Ted fingiu
uma expressão sentida.
-Assim
você me magoa. Só por quê eu sou fruto da sua imaginação eu não posso existir?
Você fala isso para seus outros personagens também? A expressão sentida foi
substituída pela zombateira.
Pitty não
sabia o que gostava menos. Ter um amigo imaginário, ou ter um amigo imaginário
que fosse mais inteligente do que ele.
-Por que
você não some? Limitou-se a dizer.
-Porque
você precisa de mim. Ted respondeu, tomando o resto do chá. –Você precisa de
mim.
Pitty
pegou o cinzeiro e foi esvaziar na cozinha. Quando retornou, a sala estava
vazia. Sentiu-se ligeiramente solitário, mas limitou-se a fechar a janela por
onde entrava um vento gelado que esparramava os papéis da sua mesa. Deitou-se no sofá e tentou dormir.
***
Acordou
com o som de Eagles, tocando Hotel Califórnia. Não se lembrava de quando tinha
pegado no sono, e nem sabia o quanto havia dormido, mas tinha quase certeza de
ter desligado o rádio. Soergueu-se e vislumbrou Ted sentando na cadeira da sua
mesa, afagando a cabeça do Cocker. Uma nova caneca de chá fumegava em suas mãos.
Vestia uma camiseta com uma grande borboleta estampada em uma moldura que
aparentava ser de vidro. Lembrou-se de uma tirinha de quadrinhos de Bill
Watterson, onde o tigre imaginário Haroldo diz a Calvin que se os humanos
pudessem, eles prenderiam o arco-íris. Algumas folhas estavam organizadas sobre
a mesa, destoando do restante da desordem. Levantou-se e caminhou até lá. Sem
se importar com a presença de Ted, começou a ler.
-São bons.
–Pitty disse.
-Eu disse
que você precisava de mim. –Ted respondeu sem levantar os olhos do Cocker.
Pitty o
olhou de soslaio e continuou a ler. Eram realmente bons.
Sentou-se e
começou a datilografar rapidamente. O clac clac da máquina sobrepôs o som do
rádio, transformando o ambiente em uma linha de guerra.
-Eu disse
que você deveria comprar uma metralhadora! É muito mais eficaz! –Ted falava
alto, tampando os ouvidos como se o som fosse ensurdecedor.
Pitty não
respondeu. Continuou a castigar as teclas enquanto as palavras surgiam em
letras borradas contra o papel branco. Ao final do dia, dúzias de paginas se
acumulavam sobre a mesa. Ted observava tudo sentado no sofá, com uma velha
Gibson nos braços. Dedilhava acordes de Beatles e B.B King. Pitty acendeu um
novo cigarro e observou a fumaça subir.
-Jeny
gostaria de estar aqui.
-Jeny está
morta Pitty. Há vários anos.
Ted
começou a dedilhar Goodbye Cruel Word.
-Mas ela
gostaria de estar aqui. Sua voz era quase inaudível.
-Todos
gostariam Pitty. –Ted passou os dedos pelas cordas produzindo um som grave. Apontou
com o braço da guitarra para o peito de Pitty. –E você, onde gostaria de estar?
Pitty não
respondeu. Tirou a Gibson das mãos de Ted e testou as cordas. Os dedos estavam
doloridos de tanto bater a máquina. Percorreu o braço da guitarra suavemente, o
olhar perdido através da janela. Aos poucos os sons começaram a brotar, um leve
solo triste, envolvente.
-Você sabe
onde eu quero estar.
-E por que
você não vai?
-Porque eu
sei que você vai estar lá comigo! Parou de tocar e jogou a guitarra no sofá.
-E se eu
não fosse? Você ficaria bem? Ficaria bem sem mim?
Pitty não
respondeu. Começou a juntar xícaras vazias, papéis manchados, embalagens de
comida congelada. Encontrou um molho de chaves que estava perdido e o colocou
no bolso. O tilintar das chaves com algumas moedas fez com que ele parasse.
Olhou ao redor observando como se o ambiente pálido fosse estranho. –Eu não
tenho um relógio na parede. –constatou sem grande entusiasmo. Caminhou até a
janela observando a cidade crepuscular surgir a sua frente. –Não preciso de
relógio. Agora é noite. Depois amanhece. É assim. É sempre assim! Ficou
pensando em nada por alguns momentos. Viu as janelas se iluminarem, as luzes
dos carros se movendo como um organismo vivo. Olhou para o alto e observou as
estrelas. Lembrou-se de um velho verso: “Vocês são estrelas. O que vocês olham?
Quem vocês procuram? Para onde vocês vão?” Virou-se e caminhou até a lata de
lixo, arrastando-a até a beirada da mesa. O som do metal riscando o mármore do
piso fez o Cocker levantar a cabeça do tapete puído. Começou a despejar todo o
conteúdo dentro da lata. Papéis, tinta e canetas caiam em cascata. O som se
assemelhava a um grande caminhão de lixo, recolhendo os latões nas ruas
desertas de madrugada, e pela quantidade de lixo presente, a visão também era
semelhante. Ao final, apenas a máquina de escrever restava sobre a mesa.
Ted tocava
uma gaita empoeirada sentado no beiral da janela. Trajava uma camiseta em gola
v, aberta até o meio do peito, com alguma estampa psicodélica.
Pitty
sentou-se e testou a máquina sem papel. Primeiro lentamente, depois rápido.
Ted
caminhou e colocou as mãos sobre seus ombros, falando próximo a seu ouvido.
–Acho que Jeny gostaria de estar aqui agora.
Pitty
anuiu suavemente. –Mas ela está morta. –Sua voz era frágil como de um garotinho
tímido.
-Não se
você não quiser. –Ted segurava a gaita entre os dedos e tentava dar brilho a
ela esfregando suas partes cromadas contra a camiseta.
-Eu não
posso. –Pitty passou as mãos pelos contornos da máquina como se acariciasse as
curvas de uma mulher.
-Mas eu
posso! Ted abriu uma gaveta retirando de lá um pesado envelope pardo com uma
fita branca o lacrando. Na etiqueta podia-se ler em grandes letras pretas
“JENY”.
Pitty não
o tocou.
-É lá que
você quer estar. –Ted disse tocando o envelope.
-É. –Pitty
respondeu com a voz cansada.
-Então vai
porra!
-Não se
você estiver lá. –Seu tom de voz era triste e desafiador.
-É isso
que quer? Então faça!
Ted saiu
pelo corredor batendo a porta. A estática no rádio voltar a preencher o
ambiente.
Pitty
ficou sozinho sentado a mesa. Lentamente abriu o envelope e começou a retirar
páginas amarelecidas do seu interior. Sentiu a textura do papel, os cheiros de
tinta, de suor, de trabalho e de dor.
Como se
tocasse em algo que fosse se dissolver, colocou a ultima folha do envelope na
máquina e ajustou as margens.
Sem
precisar ler seu conteúdo, continuou uma linha com uma frase interrompida.
“...Ted tocou em seu ombro nu, fazendo-a virar
e olhar em seus olhos. O perfume de jasmim fazia com que a tarde ficasse mais
clara. Jeny lançou um olhar divertido e começou a se afastar correndo.
-Por que você não some? –Ela disse sorrindo.
-Porque você precisa de mim! –Respondeu no momento
em que a enlaçava em seus braços...”
Lá fora as
luzes se apagavam.
No sofá,
Ted balançava os pés sobre o encosto, com a guitarra nos braços, enquanto Jeny
afagava seus cabelos loiros.
Dá velha
Gibson surgiam novos acordes: “Nothing you would
take. Everything
you gave. Hold me til I die. Meet you on the other side...”
Pitty se
levantou e acendeu um ultimo cigarro.
-Por que
vocês não somem? –Perguntou sorrindo enquanto apagava a luz com um “clic”.
