terça-feira, 28 de maio de 2013

O Segredo do Silêncio



Noel abriu uma fresta da cortina. As luzes lá fora enviavam um brilho débil pela sala. Acendeu mais um cigarro e ficou a contemplar a variedade de corpos disformes através do vidro embaçado. “O silêncio das coisas tem um propósito”. A frase de Sabino ficava indo e vindo em sua cabeça juntamente com a imagem da moça do metro, que lhe fazia suspirar. Não sabia ao certo se era sua imaginação, ou se os seus olhares realmente haviam se cruzado. Tragou pesadamente a fumaça do cigarro e deixou que ela invadisse seus pulmões. Raramente fumava, era um vicio “sem virtudes” como gostava de afirmar, mas nos momentos de solidão extrema, que se tornavam cada vez mais frequentes, Noel gostava de se deixar levar pela falta de virtudes.

Terminou o cigarro e deixou a fumaça pairar sobre sua cabeça. Através do vidro podia avistar a torre da igreja, o emaranhado de fios elétricos nos postes, as linhas de pipas grudadas como gigantescas teias de aranha, uma armação descarnada revelando o papel de seda vermelho desbotado sobre as finas varetas de bambu, um Minuano soprando fraco, calmo, intenso, fazendo com que as folhas das poucas árvores restantes vibrassem, bailando ao vento, desenterrando sensações adormecidas. As imagens de sua infância se formavam através da sua retina.

A cena era quase hipnótica e os minutos se passaram enquanto Noel se perdia em pensamentos. O silêncio e não as palavras era expressivo.

A noite se derramava lá fora. O céu esfumaçado impedia as estrelas de aparecerem. Noel gostava de caçar estrelas cadentes, ver o céu mudar de cor, adquirir os tons do crepúsculo, os toques de vermelho que permeavam das cidades. Gostava em especial da lua, de suas transformações, sua trajetória, a perfeição da sua dança ao redor da terra, aquele circulo brilhante que se formava a sua volta nas noites secas. “Circulo perto, chuva longe”- era o que sua avó costumava repetir.

A solidão, as noites vazias, as luzes distantes, os barulhos que o apartamento fazia anunciando as mudanças de temperatura, tudo inspirava um clima de melancolia tão clichê que ele chegava a duvidar que fosse real.

Aos poucos ao longe as luzes iam se apagando, estrelas mortas no horizonte, pontos de resistência sendo abatidos pelo silêncio, a escuridão prevalecendo sobre luz, o mal reinando sobre o bem, ou simplesmente a vitória do sono e do cansaço. Resquícios de vida que se esvaiam aos poucos, os últimos suspiros de um enfermo em busca de alivio. 

Na sua mente, as palavras ecoavam, flutuando por entre as câmaras secretas do seu cérebro, buscando saída, buscando o ar.


“I picture you in the sun

wondering what went wrong

And falling down on your knees

asking for sympathy


And being caught in between all you wish for

and all you seen

And trying to find anything you can feel

that you can believe in”


A noite sempre se transcorria da mesma forma. Primeiro as luzes se acendem, iluminando um coração adormecido, faróis de carros riscando as avenidas, fazendo pulsar esse mecanismo incessante e colorido. As janelas se alternando em brilho e cor, as luzes azuis das TVs, dos microcomputadores, as luzes fracas nos quartos dos bebês, as de neon nos quartos dos amantes.


Noel sentia o vazio a sua volta acolhedor, apesar desse mesmo vazio ser o motivo de frequentes momentos de desespero. Sabia que as noites ruins guardavam grandes poemas. Ainda assim, por diversas vezes ele preferia uma semana inteira sem poesia. Sabia também que às vezes era preciso fazer algo pra mudar aquilo tudo, mas realmente não se sentia tentado. A luz vermelha escorria por baixo da fresta da porta da sala de revelação, um toque ainda mais sombrio no apertado apartamento. Sentia que precisava sair um pouco dali, ver lugares, viajar, conhecer pessoas. Mas às vezes não basta viajar. É preciso ir embora.


Voltou a contemplar a noite, a imensidão do céu acinzentado, atirado no sofá de tecido vermelho, gasto pelas inúmeras noites de insônia, onde o único remédio era ficar ali, vislumbrando um céu escuro, ouvindo os sons da noite, os alarmes tocando, os pés deslizando pelos becos. Do seu sofá, Noel ficava a observar as janelas iluminadas. Sabia que nunca estaria sozinho, sempre haveria um adolescente acordado até tarde, vivendo em seu fantasioso mundo virtual, ou um pai de família chegando cansado do trabalho, uma solitária luz do banheiro acesa para dar segurança às crianças...


E é claro, haveria sempre a sua janela. Ele sempre se esquecia de apagar todas as luzes. O habito de dormir no sofá o acompanhava desde a separação, uma maneira um tanto irracional de evitar as lembranças do tempo passado em uma cama a dois, quando tudo ainda era perfeito, quando os dias tinham cor, quando a solidão era preenchida por sorrisos.


Deixou-se vagar por entre pensamentos disformes até ser trazido de volta a sua pequena realidade, uma luz tocando seu rosto suavemente, o toque ao despertar do sono, leve, delicado, intimo. Procurou a origem da luz, mas não encontrou.


Postou-se diante da janela mais uma vez, as luzes cada vez mais fracas, os pontos de resistência sendo vencidos sistematicamente pela escuridão. A foto no criado mudo o observava sistematicamente. O presente de Melissa, a ultima foto do filme. Permitiu-se sorrir brevemente.


Dirigiu-se à cozinha e preparou um café amargo, as lembranças de fios de cabelo loiros passando em sua frente. Sentiu o aroma do café invadindo o apartamento, fazendo suas pupilas dilatarem. Ouviu as primeiras gotas caindo na caneca, uma após a outra, preenchendo os espaços vazios com calma, com delicadeza, o vapor subindo devagar, bailando sem destino, tocando o rosto, a palma das mãos...


A forma como o vapor deslizava por seu rosto lembrava ao toque suave de uma amante, sutil, insinuante, provocador. Aos poucos a caneca se completava e o ritual terminava. Agora era sorver a bebida calmamente de deixar que a cafeína fizesse seu trabalho. Lá ao longe, Noel vislumbrava as luzes dos ônibus, dos taxis voltando pra casa, rodando sem passageiros, com motoristas que conversam sozinhos em busca de uma companhia definitiva que nunca vem, criando suas próprias teorias da conspiração, admirando musas inalcançáveis. Noel admirava esses homens. Sempre os teve como heróis. Dizia frequentemente que guerreiros eram os motoristas de ônibus que o conduziam com segurança ao trabalho todos os dias sem nem ao menos conhecê-los. Confiava sua vida diariamente às mãos de homens sem nomes, sem rostos, sem historias, que acordavam cedo, dormiam tarde, tudo por um salario de fome, sem reconhecimento algum, sem nem ao menos um bom dia, um boa tarde, um bom trabalho. Imaginou sua musa loira entrando diariamente em um ônibus qualquer, em um trem lotado, buscando um lugar pra sentar, um sorriso acolhedor e recebendo apenas o vazio das pessoas, a frieza e a indiferença habitual daqueles que foram condicionados a viverem sem emoção, sem cumplicidade, transformando em realidade tudo que Huxley e Orwell escreveram 80 e tantos anos atrás, fazendo os temores de Einstein se concretizarem. 


Uma vez mais, voltou-se para os prédios, as luzes cada vez mais fracas, e pensou se assim não é a nossa vida. Tentar vencer a escuridão dia após dia, noite após noite, tentando ser forte, fraquejando, caindo e levantando novamente. O ultimo andar do prédio mais distante era sempre seu preferido. Era o andar que nunca se apagava, que permanecia iluminado, resistente, forte, um porto seguro no horizonte, a luz do fim do túnel.


Noel passava horas a observar, a corteja-lo em silêncio, uma reverencia muda entre os similares que se reconhecem no escuro, o respeito mutuo aqueles que resistem ao avanço das trevas.


Tinha vontade de esticar o braço e toca-lo, dizer: “Calma amigo, a noite é longa, mas a alvorada reserva bons ventos, seja forte, sejamos fortes, fique comigo e aguente mais um pouco. Estamos juntos.” 


Por diversas vezes foi isso mesmo que fez. Esticou o braço para o vidro e tentou alcançar o vazio.


Noel desviou o olhar e se deu conta que o café havia terminado. Procurou no Iphone alguma musica que o ajudasse a avançar a noite. 

Deixou tocar aleatoriamente até ouvir as letras gentis de Tiê:

“Olhos semi aberto escuto da janela
A cidade acordar mas dentro do quarto
Escuto

Você que como um anjo ensina ao respirar
Desse jeito mansinho e hálito doce
Entregue

A amar e ao me abraçar
Me apaixono ainda mais
Mas se não me levantar e escrever
De manhã não vou lembrar”


Noel sentou no chão e abraçou os joelhos. Ficou balançando o corpo para frente e para traz, como seu avô fazia na sua velha poltrona de balanço, quando os netos enchiam a casa no final de ano, transbordando de alegria cada espaço da grande casa da fazenda. 


Sentiu os pelos da nuca se eriçarem e um arrepio percorrer o corpo. As noites eram sempre povoadas pelos fantasmas do passado, que de tanto tentar assombrar, acabaram por tornarem-se velhos amigos, seus segredos noturnos, seus vigilantes invisíveis. 


No horizonte, os primeiros traços alaranjados do amanhecer começavam a surgir. Os tons de cores se misturando em uma aquarela inigualável, capaz de causar inveja a Monet, Da Vince, Picasso. A sucessão de cores era hipnótica. Pelo Iphone começa a tocar Engenheiros.


Os versos não poderiam ser mais sugestivos:

“O preço que se paga às vezes é alto demais
É alta madrugada, já é tarde demais
Pra pedir perdão...Pra fingir que não foi mal...

Mais uma luz se apaga no prédio em frente ao meu
É a última janela iluminada
Nada de anormal... Amanhã ela vai voltar...”

Lá ao longe a ultima janela acesa se apaga. Agora ele está sozinho. Nas palavras de Drummont:

“Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato, 
sem teogonia, 
sem parede nua 
para se encostar, 
sem cavalo preto 
que fuja a galope, 
você marcha, José! 
José, para onde? “


Deus às vezes tem um senso de humor negro; pensou. Agora sozinho, amante da aurora, Noel apaga sua luz. Deixa os raios banharem seu corpo e seu rosto de barba hirsuta, e deita-se no sofá.

Entregue aos pensamentos, cai em sono profundo, e enamora-se pelo seu conto de fadas. Os finos cabelos loiros povoavam seu pensamento, a capa prateada de letras amarelas serve de pano de fundo para seus sonhos. Sonhos curtos, breves, enfim. Sonhos!

Antes de levantar, entre um sonho curto e outro, Noel escreve no verso de um cartão postal:

“Eu quero contar pra todo mundo.
Quero que vejam que saibam que tenham certeza. 
Vou ser o motivo dos seus sorrisos, e talvez eu seja o motivo das noites insones, mas vou ser o motivo. E mesmo as noites sem sono, ainda assim nós poderemos fazer com que elas sejam felizes.
Mas por enquanto, vou manter seu nome em segredo.
“ Preciso de segredos pra sobreviver!"