domingo, 16 de março de 2014

Pequenos gestos de uma garota antissocial

Ela ergueu o olhar dos papéis depositados a sua frente e encarou o relógio. Os ponteiros caminhavam preguiçosamente em direção às 5 horas da tarde.
A sua volta as mesas se agitavam com pessoas entusiasmadas com a chegada do fim de semana, os celulares sendo sacados constantemente com as trocas de mensagens, as caixas de entradas dos e-mails sendo tomadas com mensagens felizes e piadas de final de semana.
Todos pareciam extremamente felizes.
Menos Simone.
Da sua mesa ela observava quase hipnoticamente os ponteiros.
-Só mais 30 segundos; ela pensou, quando o grande ponteiro vermelho tocou o numero 6 do relógio.
-Só mais 30, 29, 28, 27...
Estava tão absorta com sua contagem regressiva que quase não reparou na notificação de nova mensagem em sua caixa de entrada. Por um momento sentiu-se confusa e esqueceu-se da contagem. (26, 25, 24, 23...)
Uma mensagem àquela hora era rara. Só seu chefe mandava e-mail naquele endereço. E quase nunca era no final do expediente, principalmente em uma sexta feira.
Clicou com o mouse na caixa de entrada e abriu a mensagem.
“-Happy Hour NOW!!!”
A mensagem com letras garrafais e uma foto de Homer Simpsons segurando sua famosa Duff surgiu em sua tela.
Sob o texto todo, a pequena assinatura personalizada com flores identificava o e-mail.
"Mary"
Durante toda a semana, Mariane havia insistido para aquele happy hour. Simone sempre desconversava e postergava o assunto.
Não era sua praia, ela dizia. Mas ainda assim, Mariane insistia. As duas eram grandes amigas, próximas o suficiente para que Mariane soubesse o quanto Simone estava sozinha.
Simone ergueu o olhar da tela do computador e viu Mariane a encarando com um sorriso imenso e ambos os polegares voltados para cima. Simone arqueou as sobrancelhas com uma expressão de -"tem certeza disso?”.
Mariane juntou as mãos em sinal de prece e fez um gesto de implorar.
“-Pleaseee?!” - Simone podia ler em seus lábios. A amiga adorava usar seu vasto conhecimento na língua inglesa durante os momentos de súplica, elogios ou agradecimentos.
Respirou fundo e soltou o peso dos ombros, revirando os olhos como se entregando os pontos.
-Tá bom, tá bom...
Do outro lado da sala Mariane jogou os braços para o alto como se comemorasse um gol.
Apanhou a bolsa e veio correndo em direção da amiga.
Simone juntou as coisas e encarou os ponteiros do relógio: 3, 2, 1. O relógio marcou 5 horas e todos partiram excitados para o final de semana.
O shopping onde pretendiam realizar o Happy Hour não ficava longe e Simone foi caminhando sozinha, recusando a oferta de carona.
As semanas vinham sendo cada vez mais vagas. Ela andava pelas ruas esbarrando em velhos desconhecidos, reprimindo sempre o mesmo bom dia, caminhando com o olhar sempre voltado para o chão.
Seus finais de semana eram sempre cinzentos, com o mesmo pijama listrado e amarrotado. Ela defendia-se das criticas dizendo que estava usando um clássico, referencia feita ao Best Seller de John Boyne, O Menino do Pijama Listrado. Mas as criticas eram cada vez menores, à medida que ela se afastava das pessoas. O apartamento vazio parecia cada vez maior, fazendo cada vez mais silêncio.
Ausência, solidão, tristeza, medo, angustia. Uma torrente de sentimentos a invadiu repentinamente.
Culpa.
Simone sentia-se culpada pelos momentos que havia deixado de viver, pelos sorrisos que não havia dado, pelas pessoas que não havia amado o suficiente.

“Sinto saudades de quem não me despedi direito, das coisas que deixei passar.”
Essa era a ultima frase que havia escrito em sua agenda antes de abandonar o velho costume. Antes tinha na escrita um refugio, encontrando-se entre as palavras, sussurrando alto seus segredos. Hoje não se encontrava mais em praticamente nenhum lugar.
Perdia-se em pensamentos quando se deparou com a praça de alimentação e uma infinidade de copos de chope sobre a mesa de seus colegas de trabalho. Simone havia caminhado por cerca de 10 minutos, mas não conseguia se recordar de quase nada durante o trajeto. Achava incrível a capacidade que possuía de desligar-se do mundo por certos momentos. Era como se houvesse uma tecla de pausa em sua vida, fazendo-a isolar-se de tudo.
-Siiiiiii!!!!
Mariane veio correndo ao seu encontro. Simone abraçou a amiga e sorrio timidamente, como se pedisse desculpas pela presença.
-Eu não posso ficar muito. –ela disse.
Mas era mentira. A verdade era que estava desacostumada a presença de pessoas, a sorrisos, a interação. Mariane sorrio confidente e começava a arrasta-la para a mesa quando Simone percebeu a livraria de livros antigos. Por um momento, sua capacidade de desligar-se do mundo foi acionada novamente e ela estagnou no lugar. Mariane a olhou com uma expressão divertida e duvidosa, acostumada a algumas pequenas excentricidades da amiga.
-Si?
Simone a encarou com um olhar vago, como se acabasse de acordar de um desmaio e notou que estava parada no meio do corredor, com a amiga segurando seu braço. Desvencilhou-se de leve, e girou nos calcanhares, em direção oposta a praça de alimentação, direcionando-se a livraria. Sentia como se fosse o ponteiro de uma bussola, e a livraria fosse seu norte. Divertiu-se com esse pensamento e começou a caminhar, dando as costas para Mariane.
Parou no meio do caminho como se tomada de juízo e virou-se. Não havia dado satisfação nenhuma e achava que sua fama de antissocial não seria uma justificativa adequada para aquele gesto.
-Eu volto logo. Preciso ver um livro.
Sem esperar a resposta, caminhou rapidamente, com passos decididos em direção à vitrine.
Ela demorou um bom tempo de frente à vitrine. Coçou o lóbulo da orelha esquerda e franziu os lábios olhando para o livro de capa prateada a sua frente.
Maneou o corpo para os lados, fez um rápido calculo mental e decidiu entrar na livraria. Pegou o livro com mãos inquietas e ficou admirando a textura da capa, as cores das letras, o delicado desenho nas laterais. Por um instante teve seus olhos tomados de água pelas lembranças que aquelas cores traziam a sua memória. Piscou forte para dispersar o choro e aproximou o livro do rosto. Lentamente começou a passar as páginas entre os dedos, deixando o aroma do papel tomar conta dos seus sentidos...

“Não quero ser limitada a perfeição.
Não quero, nem pretendo ser perfeita pra ninguém.
A perfeição me sufoca não me dá margem para o erro.
E eu erro.
Afinal eu tenho o direito de errar também.”

A frase havia surgido em sua mente espontaneamente. As pessoas costumavam classifica-la como perfeita, como a amiga perfeita, a conselheira perfeita, tudo perfeita. Era como se ela fosse obrigada a manter aquela fachada para não desagradar aos outros. Afinal, ela era perfeita para tudo. E estava cansada daquilo.
Soltou o ar preso durante vários segundos e suspirou pesadamente soltando o peso dos ombros.
-Os últimos dias tem sido dos diabos...
Era a frase que não lhe saia da cabeça. George R.R. Martin havia terminado seu ultimo livro dizendo isso, e tanto o fim do livro, quanto a frase havia deixado um vazio imenso dentro dela. Havia criado uma cumplicidade tão grande com os 5 livros de Gelo e Fogo do autor americano que quase havia parado de sentir-se sozinha.
Mas agora, sem os livros para conforta-la, e com a frase ecoando em sua mente, retratando tão bem sua realidade, Simone procurava uma nova maneira de fugir da realidade.
Sentiu a cabeça começar a latejar, algo frequente nos últimos tempos. Aquela dor persistente que fica ali, como uma visita indelicada, que insiste em não ir embora, minando suas forças, te vencendo pouco a pouco pelo cansaço. Massageou as têmporas e fechou os olhos. A dor pareceu diminuir por um instante e ela ficou ali parada. A mão esquerda massageando a cabeça, à direita acariciando a capa do livro, os olhos fechados, a cabeça baixa em silêncio, o aroma do café começando a surgir de uma chaleira fumegante.
-Perfeito – ela pensou.
Se pudesse, ficaria ali assim. Mas não podia, e foi lembrada disso pelo toque acolhedor e invasivo da vendedora. A voz suave e cortês cortou o silêncio de uma forma agressiva, fazendo a dor voltar com toda a força.
- A senhora precisa de alguma coisa?
Simone tirou lentamente a mão da face. Sua expressão não deveria estar das melhores, pois a vendedora a olhou de uma forma estranha. Medo talvez. Surpresa, insegurança. Simone registrou uma série de expressões contidas naquele olhar indagador. Ela encarou a pequena vendedora por um segundo. O cabelo preto preso em um rabo de cavalo, alguns fios desgrenhados e rebeldes escapando para os lados. Os olhos castanhos demonstravam uma curiosidade incessante das pessoas agitadas. As unhas pintadas de marrom revelavam um vicio bastante comum em pessoas ansiosas. –Ela come as unhas – pensou.
Como não obteve respostas, a vendedora foi um pouco mais incisiva.
-A senhora está se sentindo bem? –disse dessa vez com um toque de pânico na voz.
Simone abriu um pequeno sorriso cansado. A resposta que passa imediatamente em sua cabeça não melhoraria muito as coisas e ela limita-se ao caminho mais fácil.
-Eu preciso desse livro. –ela diz frisando a palavra “preciso”, como se não fosse uma simples compra, mas sim um pedido, uma súplica por algo inalcançável, capaz de resolver todos os problemas, como se o simples fato da posse desse pequeno objeto mudasse sua vida.
A vendedora a encara uma vez mais. Dessa vez, Simone registra um toque de leve divertimento em seu olhar. –Ela me entende - pensou consigo mesma. –Ela também está perdida. Talvez os seus últimos dias também tenham sido um inferno. Talvez ela também esteja sentindo-se solitária com o fim das unhas cumpridas para roer. Maybe...
Em um instante Simone estava fora da livraria, com o livro embalado em seu colo. Ela não quis sacola para carrega-lo. Embalava-o contra o peito como uma criança adormecida, frágil, sensível, necessitando de cuidados.
A verdade, porém era outra. Era ela que necessitava de cuidados. Era ela que necessitava ser embalada, ter os cabelos acariciados, adormecer sentindo-se protegida.
Avistou a mesa dos amigos de trabalho e a pilha de copos, bolachas de chope e salgadinhos parecia ter aumentado expressivamente.
Simone puxou uma cadeira que Mariane havia reservado para ela com o pretexto de guardar as bolsas, e sentou-se com o livro ainda espremido contra o peito.
Mariane a olhou de lado e pousou a mão sobre sua perna. O olhar revelava um pouco de preocupação, disfarçado com seu sorriso costumeiro e iluminador. Eram raros os momentos em que Mariane não estivesse sorrindo. Simone admirava aquilo e sentia-se reconfortada toda vez que a amiga lhe sorria acolhedora e confortavelmente. Infelizmente, eram raros os momentos em que ela podia retribuir o sorriso com a mesma medida. Não por não gostar de amiga, ou por não gostar de sorrir. Apenas por ter desaprendido a como usar o seu sorriso.
-Está tudo bem Si?
Simone sabia que não adiantava mentir. Sabia que era uma pergunta retrograda. Ela sabia que Mariane sabia.
Sendo assim, ela simplesmente anuiu de forma quase imperceptível, pousou o livro sob as pernas, mas não sem antes certificar-se que ele estaria seguro, deixou a mão esquerda sobre sua lombada e com a direita pegou o copo que o garçom acabava de colocar em sua frente, com o chope gelado, o corpo do copo suado, a espuma branca quase escorrendo pelas laterais.
Simone não gostava muito de chope. Era uma bebida sem glamour, sem classe, sem finesa. Mas naquele momento, ela não estava ligando muito para isso. Girou o copo nas mãos admirando a cor da bebida, aquele amarelo vivo pulsante, as pequenas bolhas subindo à superfície, juntando-se a espuma. No fundo do copo, presa pela umidade, a bolacha de mesa revelava uma estrela vermelha de 5 pontas, representando os quatro elementos da natureza: terra, fogo, ar e água. Dizia-se ser um símbolo místico da fabricação medieval de cerveja, ela havia lido em algum lugar. Os 4 elementos da natureza e o quinto elemento desconhecido: Mágica!
Ele olhou uma vez mais para o copo e em seguida para Mariane que a observava excitada. –Não é tão ruim assim, - pensou. Ergueu o copo em direção da amiga e sorriu maliciosamente.
- À mágica!
Mariane abriu o sorriso mais ainda, sem entender muito bem o significado daquelas palavras, mas entendendo que algo havia acontecido.
- À mágica! – disse tocando em seu copo.
O final de semana começava definitivamente.
***
Saíram do shopping pouco antes das 11. De alguma forma Simone havia se divertido e esquecera-se de seus problemas um pouco. Sorriu bastante, deu risadas e entornou diversos copos de chope. Mariane estava contente em vê-la assim e a acompanhou até a estação do metrô.
-Si, você está legal? Quer que eu vá até sua casa?
Simone a encarou sorrindo. O chope ainda fazia efeito e sua cabeça rodava um levemente. Ela se perguntou por um momento se Mariane perguntava se ela estava bem por causa do chope ou por causa de tudo. Preferiu não descobrir.
-Estou legal.
A resposta não pareceu convencer. Mariane a encarava mais preocupadamente e por um instante Simone sentiu-se como uma criança sendo repreendida. Abaixou a cabeça e apertou o livro contra o peito.
-Estou bem Mary. De verdade. Estou bem.
Mariane soltou o ar e sorriu. Não conseguia ficar brava por muito tempo.
-Tá bom, tá bom! Eu vou fingir que acredito.
O metrô chegou e as portas se abriram. As duas se abraçaram e se despediram. Simone saltou para dentro do vagão quando o sinal de fechamento das portas começava a soar. Da plataforma Mariane com as mãos entrelaçadas na frente do peito fica acompanhando a partida da amiga.
Antes de o metrô partir, em um gesto inusitado, Simone chega próxima à janela e ergue a mão em um brinde invisível.
-À magia! – Mariane consegue ler em seus lábios.
Mariane cai na gargalhada. O seu sorriso é iluminador. Ela ergue a mão e acompanha o metrô junto ao brinde. De dentro do vagão Simone consegue ler em seus lábios.
-À magia.
O metrô se vai e Simone senta-se em um banco desocupado. De repente ela sente como se todo o cansaço esquecido nas ultimas horas a atingisse de uma só vez. A cabeça começa a girar e a dor retorna com todas as forças. Ela abre a bolsa, e encontra os comprimidos de analgésico juntamente com seu Ipod. Toma os comprimidos sem água, e coloca os fones de ouvido, ligando o aparelho em seguida. Passa entre algumas pastas até encontrar a sua pasta preferida.
The Beatles.
Sem escolher uma musica especifica, ela aperta o play e deixa que elas toquem aleatoriamente. São tantas musicas boas, de tantos estilos diferentes que raramente era preciso escolher uma. Em seus ouvidos John Lennon começa a cantar.
“Wednesday morning at five o´clock as the day begins
Silently closing her bedroom door
Leaving the note that she hoped would say more
She goes downstairs to the kitchen
Clutching her handkerchief
Quietly turning the backdoor key
Stepping outside she is free”

A musica não poderia ser mais sugestiva.

“She´s leaving home, bye, bye”

Como queria poder ir embora assim. Com um bilhete, um lenço e um adeus. Sentiu que seus olhos começariam a encher-se d’água novamente e desviou os pensamentos. Por alguns instantes havia esquecido de seu novo livro. Encarou a embalagem metalizada da livraria e começou a desembala-lo delicadamente e meticulosamente, um ritual quase sagrado para os aficionados. Retirou a embalagem e contemplou mais uma vez a capa. Em letras grandes e amarelas, o titulo destacava-se contra o fundo cinza.
“O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO”
Aproximou as paginas perto do rosto e deixou o papel exalar seu perfume. Fechou os olhos e sentiu a cabeça girar ainda mais, só que dessa vez ela sabia que não era a bebida a responsável por aquilo. Se tivesse que definir em uma única palavra àquela sensação, não pensaria muito a respeito. Diria apenas: Esperança.
Folhou o livro algumas vezes mais até sentir-se totalmente embriagada pelo cheiro do papel antigo. Lentamente voltou ao inicio do livro e começou a ler cada linha como se fosse à coisa mais importante da sua vida.
E talvez realmente fosse.
Simone leu até chegar a sua estação. Saltou do metrô e encaminhou-se rapidamente para as roletas, ganhando as ruas e caminhando até seu prédio. Passou pela portaria com um simples aceno de cabeça para o porteiro. Não sabia seu nome, e imaginava, ele também não sabia o seu. Passava tão pouco tempo em casa, tão pouco tempo conversando com as pessoas que sentia-se uma hospede de um hotel de beira de estrada. Chegando a noite, saindo cedo, sempre com o olhar voltado para o chão.
Subiu as escadas de dois em dois degraus e chegou ao seu apartamento no terceiro andar de um prédio com 4 andares. Quase na cobertura foi o que o corretor havia dito entre um sorriso malicioso e outro quando ela comprou o pequeno apartamento com a herança de sua mãe. Poderia ter comprado algo maior, melhor, e mais bem localizado, mas preferiu aquele. Alguma coisa havia atraído sua atenção, talvez um sentimento de pena por algo tão deprimente. Como a atração que você sente por um blues antigo. Aquele ritmo pausado e pesado, monótono e ao mesmo tempo contagiante.
Era isso. Havia gostado do apartamento por que ele era um blues antigo.

Simone entra no apartamento apertado. Acende o abajur ao lado da porta e uma luz amarela escorre pelas paredes. Os tons de sépia tomam conta da pequena sala. Ela vai caminhando enquanto chuta os sapatos para longe, deposita os livros na mesa de centro, atira a bolsa e o casaco sobre o sofá. “Você vai acabar sem um marido sendo desorganizada dessa maneira” era o que sua mãe repetia sempre. Ela costumava ignorar aquele comentário e por diversas vezes respondeu grossamente. Hoje... bem, hoje ela daria tudo pra ter a mãe ali naquele momento brigando por causa da sua desorganização, pelas roupas no chão, pelo seu excesso de maquiagem... Mas era tarde. Sabia que a saudade não seria suficiente para trazê-la de volta. Sentiu os olhos marejarem com as lembranças. O poema de Vinicius veio à mente com a facilidade de sempre.
“Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!”
Ela respirou fundo e ligou o computador. A mensagem de boas vindas do Windows lançou uma luz azulada para a sala, que se misturou a luz amarela do abajur dando um tom esverdeado ao ambiente. Nas paredes da sala pendurados de forma assimétrica os quadros pintados a óleo assistiam a tudo impassíveis. Ela sempre tentava acerta-los na posição correta, endireitar suas molduras de forma simétrica e elegante. Mas eles sempre voltavam a sua posição antiga, como alunos desleixados, sentados desengonçadamente em suas carteiras na escola, com as costas arqueadas e os ombros caídos. Era uma disputa desigual, ela sabia afinal os quadros tinham o tempo todo só para eles, enquanto ela tinha tão pouco tempo pra si mesma. Esperou o computador iniciar completamente e escolheu uma musica. Colocou o som em um volume alto, apanhou o roupão e foi para o banho. Das pequenas caixas acústicas as notas suaves na voz de Nanna Bryndís começaram a brotar. Pequenas descobertas com grandes resultados. Era assim que havia descoberto aquela musica. Deixou que Ragnar Þórhallsson continuasse o dueto e ligou o chuveiro.
“Just grab a hold of my hand,
I will lead you through this wonderland.
Water up to my knees
But sharks are swimming in the sea.
Just follow my yellow light
And ignore all those big warning signs.”

A água morna escorria por entre os fios de seus cabelos como suaves intrusas, massageando-a da maneira mais delicada e intima possível. Passou a mão entre os fios lentamente. Era o gesto frequente realizado nos momentos de tensão, junto com a respiração profunda. Mas agora, o gesto era apenas de carinho em si mesma, o momento de cuidado que ela tanto esperou durante os últimos tempos. Aproveitou cada momento perdida em pensamentos, enquanto as musicas tocavam alternadamente.
Fechou a água, enxugou-se e vestiu seu pijama listrado. Observou as horas e já passava da meia noite. Definitivamente era sábado.
Retornou para o computador e digitou na barra de busca o endereço da radio russa UVB 76. Os mistérios envoltos a origem das transmissões da rádio “fantasma”, datada dos anos 80, apelidada de The Buzzer, haviam fascinado Simone, e criado um hábito quase irresistível todos os finais de noite, acompanhando online as transmissões, passando horas ouvindo os zumbidos, chiados e bipes intermitentes, na espera de alguma voz monótona e metálica quebrar o tédio de suas noites.
Ficou assim durante algum tempo, ouvindo o som hipnotizante dá rádio, até se entediar. Desligou o computador, ignorando as mensagens de atualização do Windows e dirigiu-se ao sofá. A sala voltava a tomar os tons de amarelo e ambiente era acolhedor para algo inusitado. Pegou o livro de cima da mesa e abriu na página que havia marcado. A última vez que havia lido naquela poltrona, daquela maneira, fora há várias semanas, quando finalizara A Dança dos Dragões, e seus dias haviam se tornado um inferno.
Sentia-se um pouco traidora por começar a ler outro livro ali, naquele mesmo local, da mesma maneira. Havia prometido que só repetiria esse ritual com o próximo livro da saga. Mas ela não contava com duas coisas.
A primeira, que George R.R. Martin demoraria tanto pra lançar o sexto livro.
A segunda... não esperava encontrar um novo amor tão rápido.
Mas pensando bem, se a sensação do adultério fosse essa, não seria tão ruim assim.
Ajeitou o corpo entre as almofadas e a poltrona e retornou a leitura. Adormeceu assim, e depois de muito tempo teve sonhos bons.
O final de semana chegou e se foi da mesma maneira. Rápido, lento, intenso e suave. Nada que pudesse mudar algo em seu destino. Acordou na segunda pela manhã tomou um banho, arrumou suas coisas e desceu as escadas em direção ao trabalho. Estava chegando à portaria quando se deu conta de esquecer algo. Levou uma fração de segundo para se lembrar.
O livro.
Olhou o relógio e conferiu as horas. Provavelmente perderia o metrô caso voltasse.
Ela não precisou pensar muito para se decidir.
Girou nos calcanhares e dirigiu-se rapidamente as escadas. Sentia que era a coisa certa a fazer.
E realmente era.
Acabou não perdendo o metrô. Chegou ao escritório minutos antes do horário. Tomou seu lugar junto à mesa e ligou o computador.
A caixa de e-mail apresentava apenas uma única notificação. Mariane.
Abriu a mensagem. Surpreendeu-se ao constatar que as letras coloridas e os emoticons estavam ausentes. Apenas uma curta frase em inglês.
“How was your weekendy?”
Simone ergueu o olhar para amiga, que como sempre exibia um sorriso, mesmo que demonstrasse uma pontinha de preocupação.
Simone apenas levantou o polegar direito e fez uma cara de “Bom”.
A resposta pareceu não convencer em nada à amiga. No segundo seguinte, um novo e-mail chegou a sua caixa de entrada.
- Por que não respondeu minhas mensagens no face?
Simone sabia que não adiantava explicar. Era uma das poucas pessoas que conhecia que não utilizava uma rede social para viver. Havia criado a sua conta por insistência de Mariane, que afirmava que seria muito melhor para as duas se comunicarem. A realidade porem era outra.
Simone apenas escreveu um “Desculpe” e encaminhou a mensagem. A resposta veio certeira.
- Não quero que peça desculpas. Quero que fique feliz.
No corpo do e-mail, um smile amarelo gigantesco sorria incessantemente. Simone não conseguiu conter um pequeno esboço de sorriso antes de responder.
- Eu estou bem.
Ficou esperando a resposta de Mariane, mas ela não veio.
Arrumou suas coisas na mesa, e começou a trabalhar.
O dia passou normalmente, sem grandes fatos que mudassem algo. Momentos antes de encerrar o dia, um novo e-mail.
- Vamos tomar um café depois do trabalho.
Simone franziu as sobrancelhas. Não era um convite, nem uma pergunta. Era uma intimação. Olhou para a mesa esperando ver outra cara de súplica, mas Mariane já arrumava as coisas de uma maneira decidida. Era uma causa perdida, Simone sabia. Arrumou suas coisas e preparou-se para ir embora. Passou pela mesa e Mariane a entrelaçou pelo braço e foram caminhando juntas, sem trocar uma palavra.
Encontraram uma mesa livre e fizeram seus pedidos. Um café com leite, chantili e canela para Simone, um expresso forte para Mariane.
Sentaram-se frente a frente. O sorriso de Mariane era sempre contagioso, mesmo que ela não estivesse sorrindo de fato. Era quase impossível evitar um esboço de sorriso, por mais débil que fosse. Mariane ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha e encarou a amiga.
- Si, você está feliz.
Simone sentiu um nó na garganta. A resposta veio em som de sussurro, as palavras arrastadas, sem forças, inertes, quase inaudíveis.
- Eu estou bem...
Ficou olhando para o chão sem forças para encarar a amiga sentada a sua frente.
Mariane suspirou e olhou para longe, como se escolhesse as palavras com cuidado. Porem as palavras que saíram de sua boca, não eram exatamente o tipo de coisa que Simone estava acostumada a ouvir:
- Mas que merda Si! Estar bem não tem nada a ver com estar feliz. Quando você vai aprender isso?
Simone não ergueu os olhos do chão. Continuou encarando a ponta dos dedos, o esmalte começando a descascar, a imagem de abandono presente nas mãos, como a fachada de antigos prédios abandonados.
Levantou o olhar, esquadrinhando o ambiente. Um antigo som começa a brotar de caixas acústicas imperceptíveis, dando uma sonoridade quase depressiva ao ambiente.
“Wake up young man, it's time to wake up
Your love affair has got to go
For 10 long years, for 10 long years”
Simone puxou o ar e soltou as palavras como um desabafo:
- Eu sou um investimento de risco.
Mariane suspirou, deixando os ombros caírem.
- Poxa Si.
Simone levantou o olhar.
- Sou Mary. Eu sou inconsistente, imprevisível, cheia de segredos. Não posso prometer nada. Muito menos garantir nada. Sou só isso. Um investimento de risco.
Mariane ficou alguns segundos parada, olhando para a fumaça que subia do café. Tomou a bebida lentamente, pousou a xicara sobre o pires e olhou para o relógio de pulso. Já era hora de ir embora. Pegou suas coisas em silêncio enquanto Simone continuava a encarar o vazio.
-Si. – ela disse de forma decidida, trazendo-a de volta a realidade. O sorriso já estava estampado em seu rosto novamente.
- Só lembra que os investimentos de riscos, são os que trazem os maiores retornos.
Disse isso, dando uma piscadinha e saindo com o passo apressado. Antes de sumir na multidão virou o rosto e falou sobre o ombro.
- Fique feliz Si! Não fique bem, fique feliz! – terminou a frase e se perdeu na multidão.
Simone ficou a contemplar a multidão por alguns minutos, terminou seu café e dirigiu-se a saída. Voltou para a casa sem grandes planos além do seu clássico pijama e um ou outro disco de Rock’n Roll antigo para completar a noite.
Passou pela roleta e dirigiu-se a plataforma, esperando seu metrô que não demorou muito a chegar. Esperou as portas se abrirem e entrou. Dentro do metrô, sentou-se e abriu o livro na página demarcada, começando a ler sem prestar muita atenção. Precisou recomeçar diversas vezes para compreender o sentido das palavras. Não parava de pensar na frase de Mary. – Fique feliz.
Mas que diabos, como iria ficar feliz sem motivo algum?
Instantes antes de o metrô partir, logo após o sinal do fechamento das portas, ela levanta o olhar e avista o metrô em sua frente. Vislumbra rapidamente um rosto desconhecido, mas de que alguma maneira lhe parece familiar. Ela pondera se seria algum conhecido, aquela expressão surpresa, os ombros caídos. Mas logo desiste de encontrar uma lógica naquilo tudo, censura-se pelo pensamento sem nexo e volta o olhar para o livro. O metrô parte e ela perde-se novamente em pensamentos.
Chegando em casa, Simone segue o ritual das roupas largadas pelo chão. A bolsa despenca sobre a mesa, os sapatos são atirados ao lado, esquecidas na mesa do telefone. Apenas o livro escapa do descuido habitual de desordem e desapego.
Ela segue imediatamente para frente do computador, buscando rapidamente uma musica para preencher o ambiente. Detonautas parece ser uma boa escolha. Ela coloca um playlist para tocar e segue para o banheiro, o restante das roupas ficando pelo corredor. As ultimas palavras que ela ouve antes de fechar o box, são de Tico Santa Cruz cantando, que “o que a gente vive é uma vida e nada mais”.
O dia seguinte transcorre da mesma maneira. As horas, os ponteiros, o tic tac do relógio na parede. Por algum motivo, Mariane não veio trabalhar, o que inicialmente parecia um alívio, pela ausência de perguntas, a ausência da insistência habitual da amiga em buscar a felicidade, tornou-se uma tortura. A falta do sorriso de Mary era esmagadora.
Antes do final do dia, uma mensagem na caixa de e-mail traz um pequeno conforto. Ver o nome de Mariane era bem melhor do que nada, e Simone abre rapidamente a mensagem.
-“Dodói :’(“
Simone faz uma careta de tristeza e fecha o computador. Promete a si mesma que vai ligar para a amiga de casa. Ou melhor, promete que vai à casa da amiga assim que tomar um banho.
Sai do trabalho caminhando apressadamente para chegar ao metrô, com seu livro entre os dedos. Os pensamentos no que significa o “dodói” de Mary ficam girando em sua cabeça, tomando as formas mais absurdas.
Ela entra no metrô, encontra um lugar vago, se acomoda com o livro repousando no colo. As portas se fecham e as luzes começam a passar rapidamente, o barulho dos trilhos marcando o tempo de aceleração da composição.
Em questão de segundos, está imersa nas páginas amareladas, sorvendo as letras, as frases, as palavras, como uma voracidade incessante. As luzes passam os sons abafados, os rostos cansados do dia, tudo isso se perde entre os pensamentos voltados para seu livro.
O metrô para em uma estação, e inconscientemente, Simone levanta o olhar do livro durante um segundo. E durante um segundo ela observa um rosto familiar na multidão.
A expressão de incrédulo reconhecimento, mesmo que fosse débil, causa um inesperado rubor em sua face. Ela volta os olhos para o livro, mas sem conseguir se concentrar, sem conseguir fazer uma lógica ligação de fatos, retorna o olhar na direção do metrô a sua frente. Afasta alguns fios de cabelos rebeldes do rosto, e tenta repousa-los entre a orelha. Abaixa a cabeça novamente, como se escondendo atrás da capa dura do livro, e não resiste a um sorriso. Ainda com a mão segurando os cabelos, ela encara seu mais novo desconhecido amigo pela ultima vez antes das portas se fecharem e seu metrô partir na direção oposta.
Simone permanece assim durante vários segundos, os olhos vidrados nas páginas de seu livro, a mão inofensiva entre os cabelos que voltavam a cair sobre seu rosto, os pensamentos perdidos em algo novo, desconhecido.
-Fique feliz Si. – haviam sido as palavras de Mariane.
Simone tentava identificar se aquilo que estava sentindo poderia ser classificado como um princípio, por menor que fosse de felicidade.
Não conseguia decifrar. Era algo novo, estranho. Poderia ser apenas algo de sua cabeça, uma estranha coincidência, assim como às vezes em que você pensa muito em alguma pessoa, e acaba encontrando com ela na rua. Tentou dissipar os pensamentos e se concentrar na leitura, mas não havia mais jeito. Uma nova onda de pensamentos começava a tomar conta de sua mente.
Resignada, fechou o livro na página atual, procurou o fone de ouvido, ligou o Ipod e deixou alguma musica fluir lentamente.
“Eu pensei direito
Fiz uma pesquisa
Eu li a respeito
E a gente é um só

Eu nos vi no espelho
E contei nossos dedos
Não fica vermelho
A gente é um só...”

Só quando chega em casa é que se lembra de Mariane. Pega rapidamente o telefone da parede e liga para a amiga.
A voz do outro lado da linha não demonstra muita vontade em sair dos pulmões.
- Si...
Simone sente-se péssima por ter esquecido a amiga no meio do caminho. Fica sentindo-se culpada por ter dado prioridade aos seus pensamentos ao invés de fazer o que ela definia de a coisa certa.
- Mary, me desculpa. Eu me esqueci de ir visitar você...
E no mesmo folego, sem deixar a amiga se expressar, ela conta a história dos últimos dois dias. Apesar de serem apenas alguns minutos de contato visual, Simone passa 20 minutos ininterruptos com sua história. Ao final, ela solta o ar pesadamente e fica alguns segundos muda.
- É isso Mary.
A resposta vem surpreendente, como se o sorriso de Mariane pudesse ser sentido através do telefone, a voz assumindo aquele ar de alegria contagiante. Era como se ela tivesse sarado instantaneamente.
- Si, isso é ótimo!
Simone fica em silêncio por um segundo a mais do que o necessário. Ela teria ouvido direito? Mariane havia dito que aquilo era ótimo?
- Si, você ainda está aí?
Simone sai de seu devaneio e responde.
- Estou Mary... Eu ouvi direito? Você disse que isso é ótimo?
Ela ouve Mariane gargalhar do outro lado da linha e sente-se um tanto infantil, como se houvesse perdido alguma parte de uma piada boba.
- Claro Si. Isso é excelente! Era isso que eu queria em você. Felicidade, ouvir sua voz com entusiasmo, com amor, paixão, desejo. Observar, mesmo que de longe, o brilho no seu olhar, essa inquietude em suas mãos. É isso que eu quero que você sinta!
Simone fica parada, inerte, estática durante um bom tempo. Ela se esforça para controlar as mãos, que hora querem coçar os olhos, hora querem ajeitar os cabelos. Sem encontrar respostas para tudo aquilo, ela se rende, suspirando e entregando mais uma vez os pontos.
- E o que você acha que eu devo fazer?
Pelo grito ouvido pelo telefone, Simone deduziu que Mariane tivesse pulado da cama, jogando os cobertores pelo chão, e saltitando como se comemorasse um gol de titulo mundial. Os gritos de viva duraram vários segundos, e Simone teve que cair na gargalhada. Não sabia o que seria dela sem a amiga.
- Mary, já pode parar. Mary, para! MARIANE QUER CALAR A BOCA ANTES QUE EU MUDE DE IDÉIA?
Com a respiração entrecortada, Mariane volta ao telefone.
- Desculpe Si, eu não resisti. – ela respira por mais alguns segundos, recuperando o fôlego, antes de prosseguir.
- Si, vamos fazer assim...
***
Simone vai trabalhar no dia seguinte com as instruções de Mariane dentro da bolsa. Não era nenhum plano mirabolante. Apenas uma maneira de deixar as coisas clara e catalisar o processo.
O dia arrasta-se penosamente através das tarefas cotidianas. Simone confere as horas a toro momento, a espera do tic tac final, da ultima batida do relógio para colocar seu plano em prática.
Faltando menos de 30 minutos para o final do expediente, Simone quase não tem mais unhas. A ansiedade é tanta que ela acaba se assustando com o aviso de mensagem na caixa de entrada, e derrama a xícara de café no chão.
Maldizendo a sorte, ela limpa o chão e confere a mensagem. Quase tem um ataque quando acaba de ler. Ela junta os pedaços da xícara quebrada, o papel toalha sujo, deposita tudo no lixo, pega sua bolsa e sai apressada. Precisa levar uma encomenda a um cliente e tentar voltar a tempo pra pegar o metrô. Ela faz os cálculos rápidos e conclui que dá tempo. Fecha todas suas coisas, desliga o computador e se vai, torcendo para que tudo dê certo.
Infelizmente, a sorte não está do seu lado hoje, e o rápido trajeto de 15 minutos de taxi acaba se tornando uma eternidade, graças a um acidente no meio caminho.
Sem conseguir acreditar, Simone abre a bolsa e retira o caderno de capa rosa, onde Mariane havia dito para ela escrever as palavras “ME LIGUE” juntamente com seu numero de telefone. Ela fica olhando para as palavras e pela janela. Lá fora a lua brilhava por entre os prédios. Ela volta a encarar as unhas roídas e fica assim por um longo tempo, as esperanças se esvaindo, a realidade a sua volta massacrante. Era como descobrir que Papai Noel não existia.
- Seja bem vinda de volta a sua vida Si – ela diz baixinho entre os dentes.
“I love you more than any man, but something's getting in the way
I do you harm because I can, for the second time today
Victims we are not of happenstance, but you're a victim all the same
Stuck inside a circumstance, with your confusion and your blame…”

A música tocada nos alto falantes do taxi traz uma sensação de conforto. Ela toca o ombro do taxista, que a olha com uma expressão de surpresa, como se ela de fato nunca estivesse estado ali.
Simone sente-se um tanto desconfortável com o gesto, e as palavras quase não saem de sua boca.
- O senhor poderia aumentar um pouco o som?
A expressão de surpresa desaparece do rosto do homem, que como se sentisse a necessidade de compreensão dela, abre um sorriso perfeito e responde com uma voz macia.
- É claro minha filha.
Ele aumenta o som, e ela se solta novamente na poltrona, os pensamentos perdidos em noites sem luar e plataformas de metrô.
Em alguma plataforma, dentro de algum vagão anônimo, um jovem de cabelos bagunçados, com um livro apertado contra o peito, sente as esperanças se esvaindo com o aviso de fechamento das portas.

“And when I get drunk, you take me home and keep me safe from harm
When I get drunk, you take me home”

As palavras ocupam o vazio durante todo o caminho à sua casa. Chegando a portaria de seu prédio, ela junta suas coisas e pergunta quanto ficou a corrida. O taxista a olha demoradamente e responde.
- Um sorriso filha.
Ela olha sem entender, abrindo um pequeno sorriso de canto de boca, mais pela surpresa da resposta, do que propriamente pelo pagamento.
- Não um sorriso pequeno assim. Um sorriso de verdade. Daqueles que eu sei que você sabe dar.
Como se não controlasse, Simone sente seus lábios se abrindo, formando um sorriso enorme, ao mesmo tempo em que uma lágrima escorre pelo canto de seu olho.
Ela limpa o rosto ainda sorrindo e fica sem saber como agir.
- Filha, se as coisas ainda não estão bem, é por que não chegaram ao fim. Fique feliz. E obrigado pelo sorriso.
Ela sorri mais uma vez, agora sem lágrimas e se despede. Quando o taxi vira a esquina é que se lembra de que não perguntou o nome do taxista. Fica parada pensando naquilo, quando decide que não faz diferença. Anjos não precisam de nomes.
Ela sobe as escadas e entra em seu apartamento. Na parede, a réplica de uma pintura do artista britânico Banksy a observa. Na obra original, onde um rebelde provavelmente lançaria um coquetel Molotov, o britânico colocou em suas mãos um buquê de flores. Uma forma de dizer “Mais amor, por favor,” ao mundo.
No entanto, em sua réplica, Simone havia pedido ao um amigo para editar o desenho, e colocar nas mãos do rebelde um Concorde, o avião francês de passageiro mais rápido do mundo. Ela era apaixonada por aquele avião, sendo um dos seus maiores sonhos, viajar nele.
Ela acende a luz e a “A Garota Suicida” a aguarda ao fim do corredor. Ela atira as roupas novamente pelo corredor e segue direto para a cama. Uma noite de sono deve bastar para colocar os pensamentos em ordem.
O dia seguinte começa com Mariane querendo saber novidades. Simone havia chegado tão extasiada em sua casa na noite passada, que não havia lembrado de ligar para a amiga.
Ela faz um rápido apanhado dos fatos durante o almoço, enfatizando o momento com seu anjo taxista, e sentindo os olhos marejarem. Mariane ouviu a história toda com o sorriso se abrindo a cada detalhe.
- Si, é muito simples. Leve o caderno hoje novamente. Hoje vai dar certo. Confia em mim!
O dia passa mais uma vez arrastado, e Simone fica na expectativa de cada minuto que passa. Faltando 5 minutos para o final do expediente, uma nova mensagem chega a sua caixa de entrada. Ela sente um frio percorrer a espinha e se espalhar pelo corpo, fazendo a pele arrepiar. Não poderia perder a chance mais uma vez.
Ela abre o e-mail, mas para seu alivio, a mensagem é de Mariane.
- O chefe saiu mais cedo. Tá esperando o que? CORRE!!!!!!!
Ela olha para a sala do seu chefe e as luzes estão apagadas. Olha para mesa de Mariane e consegue ler em seus lábios. – Vai!
Simone fecha tudo rapidamente e sai apressada. Passa pela mesa de Mary e sussurra.
- Me deseje sorte.
A amiga levanta os dedos cruzados junto ao rosto e envia um beijo no ar, mas Simone já está na rua, se dirigindo apressada para sua plataforma, passando a roleta e entrando no metro.
Ela não se preocupa em se sentar. Fica em pé, o caderno espremido contra o peito o tempo todo, querendo ver, querendo ser vista, sentido como se cada estação demorasse uma eternidade para chegar. Ela conta em pensamentos – menos 4, menos 3, menos 2, menos 1, é agora, é a próxima. Será que ele vai me ver? Será que ele está mesmo me esperando? E se for coisa da minha cabeça? Ele não vai me ver. Tenho certeza. Deixa de ser boba Simone. Não, ele vai me ver sim, tenho certeza. E depois ele vai me ligar. E depois... Ai meu Deus, a estação chegou!
Simone vasculha o vagão a sua frente. Posta o corpo à frente, quase colada ao vidro, mas não encontra ninguém. Sente a pulsação acelerar, as mãos transpirarem, molhando o papel. Olha uma ultima vez, agora quase em desespero, correndo todos os rostos, todas as expressões conhecidas, mas nada. Ele não está ali. Atordoada, sentindo a cabeça girar, ela ouve o som do fechamento das portas e junto com ele o peso de um mundo de esperanças desabarem sobre seus ombros.
A chegada ao apartamento, às luzes fracas, as roupas jogada pelos cantos e a noite mal dormida passaram em uma sucessão de flashes.
Acordou pela manhã antes do despertador, tomou um banho e foi para o trabalho, sentindo-se novamente como antes. Sem planos, sem expectativas, sem conseguir encontrar a felicidade.
No trabalho, tudo parece automático. Mariane tenta saber as novidades, mas ela não quer contar. Não tem nada pra contar. Foi um surto, uma obsessão sem fundamento por alguém que ela viu durante dois dias no metrô. O que mais ela teria a dizer?
Deixa que o dia passe normalmente, ignorando as mensagens de Mariane e hora ou outra reprimindo uma lágrima que insistia em escorrer.
Fora tão boa à sensação de... Ela não conseguia definir que sensação teria sentido. Mas sabia que havia sido bom. Havia sido a melhor coisa dos últimos anos. E agora, não existia mais. Se é que teria de fato existido algo.
Pegou as suas coisas quando o relógio marcou 5 horas e saiu. Mariane a acompanhou com os olhos, mas não disse nada. Não haveria muito que dizer, mas ainda assim não queria deixá-la sair sem uma palavra, ou sem algo que pudesse melhorar as coisas.
Levantou-se da cadeira e esperou Simone chegar ao seu lado. As palavras poderiam não dizer nada, mas os gestos sempre diriam algo. Sendo assim, fez o que sabia fazer de melhor. Abraçou-a apertado e sorrindo.
Desenlaçou-a e fez o gesto com as mãos, primeiro apontando para seu próprio peito, depois fazendo um coração com as mãos e depois para o peito de Simone.
- Eu amo você.
Não precisava dizer mais nada. Simone fez um aceno de tchau e se foi. Caminhou até o metrô, entrou e esperou as portas se fecharem.
Permaneceu o tempo todo olhando para o chão, observando os seus pés, a ponta dos sapatos. Não conseguia formular muitos pensamentos consistentes, e deixou-se apenas levar pelo barulho dos trilhos. O metrô começa a desacelerar, e ela levanta o olhar durante um momento. No vagão a sua frente, um rosto conhecido de cabelos desgrenhados vasculha os rostos da multidão. Ela permanece imóvel, o coração disparando, uma onda de adrenalina invadindo o corpo todo. Em um segundo ela tenta pensar em algo e no segundo seguinte os seus olhos se cruzam. Como que agindo por instinto, o sorriso se abre e ela acena de forma discreta.
O metrô para. Ela o observa tentar sair do seu vagão, se espremendo entre as pessoas, indo contra o fluxo. Ele sai e corre ao seu encontro. Tem seu caminho barrado por duas senhoras idosas que se atrapalham entre os outros passageiros, mas continua avançando, como se sua vida dependesse disso.
Simone observa a cena, e decide sair do seu vagão, e encontra-lo do lado de fora. Começa a caminhar na direção da porta de saída, quando ouve o aviso de fechamento das portas soar.
Ela fica indecisa durante um segundo, e nesse momento ele entra. Ou melhor, ele despenca para dentro do vagão, sua mochila se abrindo, depositando todas suas coisas pelo chão.
No futuro, Simone diria que se apaixonou naquele momento. Se apaixonou pelas coisas jogadas, e claro, por ele, literalmente jogado aos seus pés.
Mas agora, ela apenas sorri constrangida, sentindo-se culpada e feliz por estar ali. Ela observa de longe a cena, o rosto cansado, a expressão de tristeza e impotência ao começar recolher todas as coisas espalhadas pelo chão do metrô, as pessoas insensíveis, os olhares frios e nenhuma ajuda.
Em um momento sua expressão muda. A tristeza se transforma em desespero, e ela nota que ele não consegue encontrar algo. Simone olha ao redor e quase junto aos seus pés, uma capa de letras douradas repousa suavemente.
O Apanhador no Campo de Centeio.
Ela sorri, e apanha o livro.
- A Apanhadora do Metro – ela sussurra.
Simone caminha lentamente em direção a ele, e se posta a sua frente, em silêncio, aguardando o momento certo de se revelar. Os fios loiros dos cabelos caem sobre seu rosto, e ela tenta ajeita-los no momento que seus olhares se encontram. Ela abre um sorriso enquanto estica a mão para ajuda-lo. Eles se aproximam, seus rostos se emparelham. Ambos sorriem juntos, os olhares se envolvendo, se abraçando em silêncio, se declarando mudos.
Os cabelos caem novamente sobre seus olhos e dessa vez é ele quem leva a mão para ampara-los.
Ela fecha os olhos, sentindo esse toque suave, sutil, próximo e acolhedor.
Seus rostos se aproximam.
As portas se fecham. 
E o metrô se vai.