"Eu parei em frente a prateleira de livros e fiquei a contemplar as capas coloridas por alguns instantes. Não procurava nada de especifico, estava ali simplesmente pelo prazer de apreciar aquele ambiente, sentir o cheiro do papel e da tinta nova, esfolhear alguns volumes displicentemente, enquanto meu café ficava pronto.
Estava tão distraído que não reparei no senhor que se postava as minhas costas. Confesso que tomei um pequeno susto ao me deparar com ele, me olhando tão intensamente que me senti um tanto constrangido.
Encarei aquele olhar inquisidor, invasivo e ao mesmo tempo tão familiar, tão acolhedor, que me flagrei tentando lembrar de onde conhecia aqueles olhos, aquele sorriso sereno de boas vindas, aquela delicadeza no canto dos olhos, olhos tão enrugados e tão serenos, as pupilas dilatadas, as órbitas esverdeadas, lagos profundos a espera de um mergulho intenso.
Não tive muito o que fazer além de oferecer um sorriso e um bom dia.
Ele me retribuiu o mesmo sorriso, o mesmo olhar, tão intenso que me senti constrangido e tive que desviar os olhos por um segundo. Quando o encarei novamente, nada de diferente havia acontecido. Ele continuava com o sorriso, com as rugas, com os olhos brilhantes.
Senti um pequeno nó na garganta, e voltei atenção para os meus livros, dando alguns passos para o lado.
Para minha surpresa, ele me acompanhou, mantendo sempre uns dois passos de distância, mas ainda assim me contemplando com uma admiração perturbadora.
Perguntei se estava tudo bem, se precisava de algo, mas tudo que tive como resposta foi um leve manear de cabeça, e o sorriso. Aquele sorriso que eu não via a tanto tempo.
Mais uma vez voltei minha atenção aos últimos lançamentos, mas não resisti a encara-lo uma vez mais.
Dessa vez uma moça loira se aproximava com um exemplar de luxo de As Crônicas de Nárnia nas mãos. Ele olhou para ela com o mesmo sorriso, mas agora ainda mais iluminado, e olhou para mim, apontando com a cabeça, como se quisesse mostrar um tesouro encontrado.
A loira segurou em seu braço, e suavemente o puxou. Ele recusou o convite para saída e continuou a me olhar, cada vez mais intensamente, mas não dizia nada.
Ela me encarou e o puxou novamente..
- Vamos, não é ele.
O seu sorriso parecia não ter fim, um girassol florido em uma manhã ensolarada.
- Não é ele. Nós precisamos ir embora.
Eu começava a não entender. Ele quem? Afinal de contas, quem eu não era?
Entre esses pensamentos, ele esticou a mão e tocou em meu rosto. O toque foi tão sutil que me fez sentir um arrepio por todo o corpo. Me tocou com a ponta dos dedos, e depois deslisou suavemente pelo meu rosto até meu queixo. Fiquei tão fascinado com aquilo que não pude conter um sorriso.
Encarei a moça loira e ela tinha os olhos vermelhos e molhados.
- Não é ele pai. Vamos...
E me encarando disse em quase um sussurro.
- Ele tem Alzheimer... Pensa que você é meu irmão...
Senti meu coração se despedaçar. Era como se tudo ao meu redor sumisse e eu sentisse apenas um vazio.
- Vem pai. Vamos pra casa.
Ele estendeu a mão e tocou meu rosto mais uma vez. Antes de ir, colocou a mão no bolso e me ofereceu uma bala de leite. A minha bala preferida, e se foi. Demorei algum tempo antes de retirar o papel, e quando coloquei a bala na boca, eu sabia que nunca mais provaria algo tão doce. Nunca mais provaria algo que pudesse adoçar a minha alma.
