quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Como se sempre tivesse sido assim.

Eu estava parado do outro lado da rua, com meu Zippo entre os dedos quando ela chegou. Demorou um tempo até me ver parado ali e cruzar a rua com o passo um pouco apressado, um pouco desatento. Esperei até que ela parasse a minha frente para guardar o Zippo no bolso e abrir um pouco os braços para que ela se enlaçasse sem dizer nenhuma palavra. Fechei os braços sobre seu corpo pequeno e ficamos um tempo assim sem dizer nada. Esperei até que as lágrimas dela secassem e os soluços parassem, antes de solta-la e acariciar seu rosto.

A maquiagem havia se perdido e minha camisa apresentava vários sinais que era uma das culpadas. Quando finalmente se acalmou, pegou minha mão e olhando para o chão disse o quanto os dias haviam sendo difíceis. Eu não duvidava que fosse verdade. Os últimos dias tem sido um inferno, era isso que sempre dizíamos um para o outro. Não seria diferente agora.

Peguei em sua mão e coloquei em minha cintura enquanto começava a caminhar lentamente pela calçada. A sensação desse corpo conhecido perto do meu era reconfortante, embora eu soubesse que não duraria muito. Nunca duraria o suficiente.
Andamos até o final da rua e parei um taxi. Dei a direção para o motorista e ele seguiu viagem com dois desconhecidos no banco traseiro do seu carro. No radio a voz do Brasil nos fazia companhia. Uma a uma as ruas e os postes foram ficando para trás enquanto nossas mãos permaneciam enlaçadas.

Se eu a perdesse novamente – eu pensava – talvez eu realmente não me encontrasse mais, embora eu já houvesse me perdido tantas vezes.

Esperei que o taxi parasse, paguei com uma nota sem pedir o troco e saímos novamente para a rua. A nossa frente as grades deixavam passar as imagens da parte interna do cemitério. Silencioso, escuro, acolhedor.

- Sempre foi assim com a gente, né? Ela disse.

Eu não precisei responder. Continuei olhando para a frente, pensando que mais uma vez seria difícil manter as velas acesas com aquele vento, mas não importava. Elas parariam acesas como das ultimas vezes, como se alguém quisesse que elas ficassem acesas independente do vento ou do quer que fosse.

Entramos em silencio e fomos caminhando. Suas mãos quase esmagavam a minha a medida que chegávamos mais perto, mas eu não soltava. Ninguém antes havia segurado sua mão e eu não seria o primeiro a soltar. Ela soltaria na hora certa, mas nunca era a hora certa.

Paramos próximos a lápide e era como se uma terceira pessoa nos abrace no mesmo instante. Apertei a gola do casaco embora não fizesse frio. Ela soltou minha mão e eu tentei acender um cigarro com o Zippo fazendo concha em frente ao rosto, mas a tarefa se mostrou praticamente impossível. Depois da quinta tentativa, joguei o cigarro intacto no chão e amassei com a sola do sapato. Comecei a pensar em como seria difícil acender as velas naquele dia.

- Parece que hoje vai ser difícil. Eu disse.

Ela sorriu pela primeira vez.

- Sempre foi assim com a gente, né?

Colocou as três velas e ficou olhando para o nada. Me aproximei e me ajoelhei ao seu lado com o Zippo nas mãos e comecei a acender uma a uma enquanto o vento soprava forte.
Como de costume, todas as velas se mantiveram acesas com tremendo contra o vento. Me levantei contemplando as pequenas chamas que resistiam e me perguntava o motivo do cigarro não ter permanecido acesso nem um segundo.

Ela se levantou a segurou minha mão.

- No fundo a gente sabe pra onde tem que voltar né? E sabe quando tem que voltar também.

Suspirou um pouco antes de continuar. – Ele sabia que era hora de voltar. Sabia que precisava voltar pra ela. Por isso não esperou pra me dizer adeus. Não deu um ultimo beijo, não correu me abraçar e nem fez bolinhos uma ultima vez. Era ela que ele queria beijar, abraçar e dar risada nas tardes de domingo. No fundo, eu o perdoo da maneira que eu gostaria que ele me perdoasse. Eu o perdoo e ele sabe. Uma vez ele me disse que outro lado seria lindo quando estivéssemos juntos. Eu espero que o outro lado seja lindo desde já.

Abracei-a mais uma vez em silencio enquanto começávamos a caminhar de volta para a saída.

Meu pai me dizia que no final, peões e reis voltavam pra mesma caixa. Eu esperava que nossa caixa não fosse apenas no final.


Cruzamos a rua e fomos embora, caminhando lado a lado como se o tempo não tivesse fim. Como se sempre tivesse sido assim.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Lembranças

Eu acordo e vejo a cama ao meu lado vazia.

Já era dia e você não estava mais lá. Me levanto e faço a barba a contra gosto. Odeio me barbear logo pela manhã e você sabe disso.

Me corto com a gilete e a espuma branca ganha um tom avermelhado. Me corto mas não sinto dor.

Termino de me barbear e o corte é apenas uma lembrança.

Encho uma xícara de café e me esqueço do açúcar. O primeiro gole desce amargo, fazendo com que eu feche ainda mais cara. Minha gata ronrona me olhando, enquanto se esfrega em minhas pernas, mas no instante seguinte muda de direção.

Termino meu café sem açúcar, e o amargo também se torna apenas uma lembrança.
Olho para a cama mais uma vez, na vaga esperança que seu corpo preencha o espaço vazio, mas tudo que vejo são lençóis emaranhados.

Eu poderia dizer que você também havia se tornado apenas mais uma, entre tantas outras lembranças, mas não quero me tornar nem previsível, nem clichê.


Minha vida tem lembranças demais.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A definição de perfeição


Talvez a definição de paraíso seja essa. Eu lendo enquanto você você toma banho, enquanto eu invento vozes para nossos personagens preferidos, ou fazendo comparações com A Sociedade dos Poetas Mortos (Oh Capitain, My Capitain) e buscando algo de Tarantino em Pulp Fiction.

Pode ser que eu pare entre capítulos, só pra te olhar enquanto a espuma cobre o seu rosto, e simplesmente fique assim, observando em silêncio certos desenhos que eu conheço tão bem, e você ainda de olhos fechados me pergunte: "por que você parou?" e eu simplesmente possa sorrir e voltar a ler.

Talvez a perfeição seja você enrolada na toalha, ainda dentro do box, sem coragem de sair e interrompera leitura, afinal, meus olhos brilham tanto quando eu leio pra você, e no fundo, isso é uma das poucas coisas que ainda me acalmam.

Talvez a perfeição seja uma xícara de café sendo posta ao lado da cama minutos antes de acordar.

Talvez seja isso.

Um banho, um livro, um café e nós dois.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O Grande Talvez

Passei muito tempo tentando entender o significado de nós dois. Passei noites olhando para o forro do meu quarto, sozinha, enquanto os ponteiros do relógio ficavam repetindo seu hipnótico tic e tac e cheguei a uma conclusão.

Você foi. Não algo inacreditável, inigualável, ou sei lá quantos outros adjetivos com a mesma terminologia eu poderia utilizar. Você foi o que deveria ter sido e passou. Não vou dizer que não foi bom e que às vezes eu não me pego lembrando algo bom. Mas tantas vezes eu me pego pensando em algo ruim, que para mim não faz mais diferença.

Fiquei em busca de um Grande Talvez, como em Alasca, e me dei conta que O Grande Talvez, talvez também não resolvesse. O talvez nós deixamos em cima da cama a tanto tempo, no “talvez de certo”, ou “talvez a noite possamos fazer amor novamente”, que hoje, nenhum outro talvez mais resolveria.

Busquei respostas que nunca encontrei, porque não se pode encontrar uma resposta que você já tem. É como perder algo que não está perdido, consegue entender o que eu digo?

Um dia você me perguntou se havia me perdido.

Eu disse que não. Você nunca me perderia, pelo simples motivo de que eu nunca fui sua. Você nunca permitiu que eu fosse sua.

Eu poderia ser o que você quisesse, eu seria tudo pra você. Mas você preferiu que eu não fosse nada. Você disse que era sufocante ter a mim em plenitude. E eu entendi. Você poderia ter tudo de mim, mas você preferiu ter nada.

E eu guardei tudo pra mim. Coloquei em uma gaveta, junto com os porta retratos e a minha escova de dentes.

Guardei todos os eu te amo que não pude mais responder, afinal de contas, eles eram todos seus.

Joguei os chinelos debaixo da cama, e às vezes eu esbarro neles, mas você sabe que eu sempre preferi andar descalço pela casa.

Guardei aquele bilhete amassado que dizia que eu havia mudado a sua vida, dentro de uma agenda esquecida em algum canto, pra quem sabe um dia poder olhar pra ele sem tanta dor.

Guardei tudo, mas deixei tudo livre para ir.


Que sejamos felizes assim.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

30 e poucos anos

Se tu vens as 4, desde as 3 eu sou feliz.

É eu sei. É um plágio. Mas plagiei tanta coisa, tantos textos e tantas frases esse ano. Hoje não poderia ser diferente.

Sendo assim, aqui estamos nós. Cada vez mais velhos. E gordos. E por mais que você disfarce, nós dois sabemos que você ganhou alguns quilos desde a última vez. Os cabelos insistem em cair e eu rezo pra que você mantenha a sanidade (no fim isso é quase tudo que importa).

Outro ano passou e mais uma vez levou pessoas da nossa vida. E eu sei o quanto você sente vontade de ligar pra elas e de abraça-las e falar baixinho que está tudo bem, que você está ali e que vai passar. Essa maldita mania de preferir as coisas frágeis. Mas sei que você não vai. Elas precisam aprender a caminhar sem você garoto, e vc... Bem, você também precisa. Sei que vai entender isso.

Mas um ano passou e de verdade o que mudou?

Nesse ano andamos ainda mais rápido (295 km/h pra ser mais exato), escrevemos um monte de texto (33 com esse), arrancamos um bocado de sorrisos (eu não sou capaz de fazer essa conta) assim como nos anos anteriores.

Pegamos aquele monte de ideias que alguns insistem em chamar de sonhos e transformamos em planos. Concretizamos vários e outros tantos continuam guardados para serem concluídos amanhã, ou quem sabe depois de amanhã, ou quem sabe depois.

Não viajamos tanto quanto gostaríamos, mas fizemos as viagens que deveriam ser feitas. Mas calma garoto. Ainda existem tantas estradas pra você.

Por mais de uma vez você me deixou orgulhoso. Por umas tantas outras vezes você me deixou louco da vida. Por quantas e quantas vezes nós pensamos em desistir.

Mas acontece que você é duro, assim como Drummond dizia. Você é duro, mas é doce. É tempestade, mas também é calmaria. E eu continuarei aqui te dando colo e continuarei gritando com você, e continuarei te observando de perto, de longe, e de todas as formas possíveis.

Eu simplesmente vou estar.

Você vai se tornar um adulto maravilhoso.


Parabéns meu velho.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Do outro lado

A casa estava em silêncio. Vez ou outra era possível ouvir algum som que não era capaz de perturbar a calma, como se o silêncio fosse precioso demais para ser interrompido.

Os dias vinham passando assim. Muitas vezes sem que nada se movesse, e algumas vezes como nada fosse capaz de parar o movimento.

- Há anos eu vejo as pessoas indo embora. Há anos eu vejo e isso não faz com que eu seja mais fria, ou sinta menos dor. Eu queria entender o por quê. Eu só queria entender isso.

De seu lugar junto à janela ele ficou a contemplar as árvores por mais um momento. O vento batia em suas folhas fazendo com que elas vibrassem. Ele se permitiu um pequeno sorriso enquanto absorvia aquela sensação. (And I'm shaking like a leaf)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Enquanto eu respirar

Estive pensando em nós dois - ela escreveu no caderno com a letra apressada, como se o vento soprasse com força as palavras.    
                  
Estive pensando na falta que me faz e em como é duro não poder te abraçar de novo e em como eu sofro com sua ausência, mesmo que ela me enlace a cada noite em que perco o sono.  
                    
E enquanto isso - ela continua - eu sei que você continua desse lado, de uma maneira que talvez seja ainda mais intensa do que antes.       
               
As lágrimas começam a escorrer, mas ela não as limpa. Faz bem senti-las pelo seu rosto, como se fosse um afago, uma mão invisível de um toque tão conhecido. 
                     
Penso em quanto eu tive de você aqui e em como nunca vou ser capaz, (mesmo que em um mundo absurdo eu quisesse) de te esquecer. Ouço pelo fone de ouvido alguém dizer "só enquanto eu respirar vou me lembrar de você" mas eu discordo. 
                     
Talvez você não possa respirar, mas eu não tenho dúvidas de que você se lembra. Então, eu também me lembrarei.   
                   
Enquanto te espero voltar (da maneira que você queira voltar) vou estar aqui. Com tua ausência fazendo companhia.          
            

Te vejo do outro lado garoto.