quarta-feira, 17 de outubro de 2012

As asas da borboleta 2


‘‘Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata. 
Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói. 
Há certas coisas que não podem ser ajudadas. 
Tem que acontecer de dentro para fora."

Rubem Alves

As asas da borboleta 2

O bar não havia mudado muito desde a ultima vez. Apesar de algumas janelas estarem tapadas com placas de madeira, fazendo assim com que menos luz entrasse pelas antigas frestas, o local mantinha o mesmo ar inóspito de solidão. O relógio alemão continuava a tiquetaquear preguiçosamente na parede, a poeira tomando conta de praticamente todo o ambiente. As mesas agora eram ocupadas por uma enormidade de pessoas, cada uma com seu charme especial.
Através de uma grande redoma de vidro, uma sereia nadava tranquilamente observando o movimento. Tinha os cabelos de um amarelo dourado, que pairavam sobre sua cabeça de acordo com seus movimentos. Os olhos eram grandes lagos esverdeados, combinando com as escamas brilhantes de seu corpo. Duas estrelas do mar lhe cobriam os seios. Brincos e colores de pérolas adornavam o pescoço e as orelhas. Uma tiara de brilhantes se perdia no emaranhado de cabelos loiros. Era ali naquele grande aquário que Serena ficava quando vinha visitar o “mundo seco” como ela chamava.
Sentado junto ao balcão, Nym sentia-se cada vez mais solitário. Segurava um copo de whisk entre as mãos duras, os ombros caídos pesadamente junto ao corpo, a cabeça baixa encarando as pedras de gelo no fundo do seu copo. Nym sentia-se perdido, desloucado de todos. Sua curta vida se resumia a poucas fazes. Nunca havia conseguido se encaixar em nenhum grupo, sempre fugindo, rastejando, lutando pela vida dia após dia. Nunca gostara de sua aparência, nunca teve amigos, nunca teve uma família. Foram muitas às vezes em que pensou que a vida não valia a pena ser vivida. Sempre a sombra dos outros, sempre se disfarçando, sempre se escondendo. A luz do dia sempre o amedrontou, assim como o céu.
O céu.
Nym nutria uma mistura de amor e ódio pelo céu. Era de lá que vinham quase todos os perigos, era do céu que as ameaças surgiam. Mas era esse mesmo céu que fazia com que ele desejasse mudança. Nym sonhava com as cores, com o azul celeste do manto, com o branco das nuvens. Durante as noites, escondido entre as arvores, entre as flores, Nym observava as estrelas. De onde ele estivesse, era possível dar conta de todas as estrelas do céu. Todas elas. Ele gostava de subir o mais alto que pudesse para ficar observando. Um dia Nym viu uma estrela brilhar mais forte, descer e se apagar. Ficou sem saber o que fazer. Nunca havia visto uma estrela morrer. Sentiu medo. Se as estrelas com seu brilho todo podiam morrer, por que ele com sua insignificância deveria viver? Ficou observando o mar, procurando o seu brilho por entre as ondas. Não viu nada. Então fechou os olhos e desejou voar. Voar o mais alto que pudesse e encontrar as estrelas. Quem sabe assim ele poderia se juntar a elas? Quem sabe assim, Nym poderia se transformas em uma estrela e viver para sempre no céu...
Claro, isso havia acontecido antes.
Antes de Nym acordar e reparar que sua pele havia endurecido. Seus movimentos antes tão fáceis, agora eram doloridos. Mal conseguia se mover. Levava horas para poder andar uma distancia que antes era percorrida em minutos. Já não era mais tão fácil se esconder. Nym começou a ter medo. Já não conseguia mais ver as estrelas a noite não conseguiu subir de encontro aos céus. Sem poder mais se esconder, escolheu um lugar para passar a noite. Olhou para o céu. Poderia ser a ultima vez que via aquela cena.
Acordou com o corpo todo endurecido. Seus movimentos eram limitadíssimos, os braços pequenos, a pele dura. Olhou no relógio e viu que havia se passado uma semana. Tentou se mover e sentiu-se totalmente desconfortável. Só havia um lugar pra onde ele voltaria. Lentamente arrastou-se para o bar...
E foi assim que Nym veio parar novamente no bar. Não sabia como, mas ele sempre era atraído para aquele mesmo lugar. Aquele ambiente, aquelas marcas nas mesas, as antigas historias do casal apaixonado, a batida do relógio, tudo aquilo fazia do lugar um refugio sagrado.
Sentado sozinho, Nym observava todas as pessoas presentes. Alguns anões com olhares suspeitos jogavam algum jogo desconhecido em uma mesa escura. Os capuzes por sobre as cabeças impediam uma visão detalhada de seus rostos, mas o pequeno vislumbre que Nym teve de um dos anões foi o suficiente para desviar o olhar. Os olhos eram um de cada cor. Um deles de um verde profundo, como o de musgos crescendo em uma encosta húmida. A pele mal barbeada revelava cicatrizes profundas, desde a parte de baixo do queixo até um coto de orelha. O outro olho possuía um tom castanho maligno e desafiador. Nym achou melhor não procurar por mais detalhes.
Em outro dos cantos, um cavaleiro alisava seu cavalo. O grande corcel negro mantinha-se imóvel enquanto seu dono escovava seu pelo. Era um homem grande, vestido com cota de malha, um manto negro pendendo dos ombros. A espada pendia presa ao lado direito do corpo, o que mostrava que sua mão boa era à esquerda. Um grande problema durante uma batalha, Nym lembrou-se de ter ouvido. Era sempre difícil enfrentar um oponente canhoto.
Em uma das mesas mais afastadas ao fundo, um velho pirata se recostava na cadeira. A expressão cansada no rosto e as mãos calejadas de tanto fazer nós, de pegar nos remos, de içar as velas demonstravam que os anos poderiam ser cruéis com uma pessoa que vive no mar. A barba grisalha e desgrenhada tornava difícil evitar o sentimento de pena quando o encarava de perto. Mantinha os olhos fechados, o rosto caído, e ressonava ruidosamente. Segurava um acordeom em seu colo que dava a impressão de cair aos pedaços ao mais leve movimento e era difícil distinguir qual dos dois parecia mais frágil. Uma libélula atravessou o salão com movimentos rápidos, o zumbido das asas cortando o ar, o corpo esguio e verde e foi pousar na lapela do casaco puído do pirata que acordou como se estivesse saindo de um sonho. Olhou a volta, pequenos olhos sem vida, de quem já viu muita coisa no mundo e gostou de muito pouco do que viu. Encarou a libélula e a afagou com a ponta grossa dos dedos sujos. O movimento delicado vindo de mãos aparentemente tão inábeis para o carinho surpreendeu Nym que não conseguia desgrudar os olhos da cena. Por um segundo o pirata parecia sorrir e confidenciar algo a sua mais recente amiga. Levantou o olhar e seus olhos se encontraram. A expressão ébria voltou a dominar seu rosto e a libélula alçou voo, tornando a tomar o ar. Ele a acompanhou com os olhos fechados, como se pudesse sentir o vento, talvez pelos anos passados no mar, pela capacidade de sentir de onde vinham as brisas que enchiam as suas velas e os levava novamente para casa. Tocou o acordeom e com uma voz rouca começou a cantar:
“The king and his men. Stole the queen from her bed. And bound her in her Bones. The seas be ours. And by the powers. Where we will we'll roam. Yo, ho, haul together. Hoist the Colors high. Heave ho. Thieves and beggars. Never shall we die...”
Quando terminou de cantar, o pirata voltou a sua posição inicial, ressonando de olhos fechados. Nym ficou pensando se havia sido sua ultima canção, um lamento solitário antes de partir, ou se era assim mesmo que os piratas se comportavam. Nunca havia conhecido um pirata e sentiu-se tentado a sentar-se em sua mesa e lhe pedir uma história. Ao invés disso voltou os olhos para o relógio e observou as horas. 22:22! A hora da coincidência! Não sabia se isso era um bom sinal. As historias que havia ouvido a respeito dessa hora não eram muito boas. Ele tinha um minuto para descobrir se as historias eram verdadeiras ou não. Ficou observando o ponteiro dos segundos avançarem lentamente, batida depois de batida, o som cortante como uma picareta batendo em pedra dura a procura de diamantes. Tic. Tac. Tic. Tac. Durante 45 segundos nada aconteceu. Durante 45 segundos Nym se sentiu um idiota encarando aquele relógio poeirento e velho. Durante 45 segundos Nym pensou que nada mudaria.
Até que a porta se abriu.
Lá fora o vento sibilava tristemente. Uma pequena fada entrou. Suas asas batiam rapidamente e seu movimento suave era quase imperceptível. Ela atravessou o salão a poucos centímetros do chão, seus pés levemente elevados, sua sombra formando um elegante contorno quando passava pelas mesas, uma leve brisa se formando por conta do seu movimento. Possuía um rosto redondo e branco, como a lua em uma noite fria. Os olhos eram negros, de um brilho envolvente, com o contorno pintado (ou seria natural?) de um azul intenso. Suas mãos eram pequenas e delicadas, com dedos finos envolvidos por uma luva de fios de teia de aranha que brilhavam refletindo toda a luz que recebia. O vestido era feito de pequenas escamas multicoloridas, retratando todos os tons e entretons do arco-íris, mudando de cor com cada movimento do corpo. Por onde passava, o cheiro de jasmim tomava conta. Ela passou por Nym e dirigiu-se a uma porta do fundo, saindo do seu campo de visão tão rapidamente quanto entrou. A cena não durou mais que alguns segundos, mas o cheiro de jasmim o envolveu por completo. Ficou ali perdido em pensamentos enquanto contemplava na mente aquela imagem. –Coisas tão mágicas existem no mundo e tão pouca gente se dá conta disso. –pensou. Dirigiu o olhar novamente para o gelo em seu whisky e ficou ali, vendo seu reflexo no liquido dourado. Estava na hora de fazer a sua mágica acontecer. Ele precisava fazer acontecer. Largou algumas notas amassadas no balcão e foi atrás da fada. Abriu a porta e saiu para o fundo do bar.
A noite era fria. Sentiu um arrepio percorrer todo o corpo quando o sereno gelado da noite começou a cobrir sua pele. Olhou ao redor e não a encontrou. Sentiu uma pontada de tristeza o invadindo. Olhou para o céu negro, sem estrelas nessa noite. Era estranho, o céu sempre tinha estrelas, ele pensou. A luz amarela tremeluzia no alto de um poste iluminando debilmente o depósito do fundo. Caixas de bebida empilhadas sem nenhum critério formavam um labirinto colorido por todos os lados. Nym ficou imaginando o que alguém normal faria num labirinto daqueles. Ouviu um barulho por entre as caixas e por um breve momento teve medo. Um gato gordo e de pelagem alaranjada e hirsuta saiu do escuro preguiçosamente e parou sob a luz. Seus olhos eram grandes orbitas castanho escuro. Ficou o encarando por algum tempo, talvez a espera de um afago ou algo de comer. Lambeu os espessos pelos da pata e coçou as orelhas. Encarou Nym novamente e como nada aconteceu, saiu esgueirando-se sorrateiramente por entre o labirinto, desaparecendo na noite. Um corvo passou voando fazendo o som de suas asas ecoarem por entre as garrafas. Nenhum sinal da fada. Nym se preparava para voltar para o bar, segurando a maçaneta da porta com uma expressão cansada no rosto, quando novamente ouviu um barulho por entre as caixas. Ficou imaginando que o gato alaranjado tivesse decidido voltar, talvez com a esperança de ganhar alguma migalha, quando sentiu o cheiro doce de jasmim. Virou-se rapidamente, um movimento desajeitado e deselegante, chocando-se com as latas de lixo e garrafas vazias, o som de vidro se quebrando e metal batendo contra o chão. Sentiu o coração disparar, o medo o invadindo. Medo de assustar a fada, de perdê-la para sempre, medo do silêncio que se seguiria após sua partida, do vazio e da solidão que há tempos o assombravam. Não suportava a ideia de viver fechado assim por mais tempo.
 –Ela poderia me salvar!
Tentou controlar a respiração. Fechou os olhos e ficou esperando pelo silêncio, sem ter coragem de abri-los novamente e se deparar com a escuridão vazia. Sentiu algo frio tocando sua pele. –Neve! Por um segundo se censurou pelo pensamento absurdo. Mas por que não? Abriu os olhos lentamente. A fada estava sentada em uma pilha de caixas de bebida a poucos metros de distancia e não mais de um metro e meio do chão. Suas asas se moviam lentamente, apenas o suficiente para fazer pétalas de margaridas flutuarem a sua volta. Com movimentos lentos e os olhos fechados, ela retirava pétala por pétala da flor e soltava no ar. As pequenas pétalas desciam alguns centímetros em direção ao chão, mas rapidamente eram levadas de volta por uma corrente de ar invisível, criada pelo movimento de suas asas. Os pés balançavam displicentemente em um movimento pendular. Um botão de jasmim repousava preso em sua orelha. Nym observava o pequeno tufão de pétalas brancas, quando elas começaram a subir e se transformar em orvalho. Uma a uma, foram se desmanchando e virando pequenas gotas cristalinas no ar. Viu uma fina camada se formando e começando a cair, o chão ficando escuro pela humidade. Estendeu as mãos, extasiado, em busca do frescor da humidade. As gotas caiam em câmera lenta e era possível acompanhar a queda de cada uma separadamente. Nym escolheu uma gota e esperou que ela o tocasse. Sentiu o frescor da água se transformar em um floco de neve, e em seguida voltar a ser uma pétala de margarida. Podia sentir o cheiro de chuva, o aroma que as primeiras gotas provocam ao tocar a terra seca, mas ele sabia que não era chuva, eram pétalas que se transformavam em neve, depois em orvalho e novamente em pedaços de flor. Viu o chão ficar branco, formando um frágil tapete a sua frente. A cena era tão surpreendente que ele se esqueceu da fada. Ergueu os olhos e contemplou a imagem dela o observando, os olhos negros abertos, fixos nos seus, o rosto branco e inexpressivo como o de uma boneca de porcelana. Nym sentiu a brisa se tornando mais forte, o movimento das asas ficar mais intenso e então a fada começou a descer. As escamas do seu vestido brilhavam mudando de cor a cada segundo. Nas mãos ela segurava um botão de margarida intacto. Suas pétalas de puro branco e seu miolo amarelo refletiam em seu vestido na altura do coração. A fada desceu até quase tocar o chão, e aproximou-se flutuando lentamente. Seus pés mantiveram-se afastados a poucos centímetros do delicado tapete branco, e por onde ela deslizava, brotos de flores começavam a nascer. Botões de rosas, orquídeas, lírios e girassóis subiam rapidamente e floresciam, formando uma sandália de ramos e flores em seus pés. O aroma do orvalho acompanhava seu movimento. Flocos de neve voltaram a cair fazendo a temperatura baixar mais alguns graus. Nym sentia o coração batendo forte, a pressão nos ouvidos aumentando a cada centímetro que a fada se aproximava.  A luz que emanava de seus cabelos prateados fazia com que pequenos arco-íris se formassem com as gotas de orvalho. Nym aproximou as mãos de um deles, que se desfez no momento do toque.
(Créditos de Imagem: Bruno de Assis)

Um brilho de cores começou a subir pelos seus dedos. Sentiu cocegas a principio e viu que a fada sorria para ele. Seu rosto antes inexpressivo tomava traços de felicidade, os lábios finos que se comprimiam como se reprimissem um grito agora se abriam em um sorriso, um sol nascendo entre as nuvens de um dia nublado, capaz de dissipar qualquer escuridão. A sua volta os arco-íris continuavam a se formarem, mas Nym observava apenas sua mão. Aproximou-a do rosto, a fim de observar melhor as linhas coloridas que avançavam pela sua pele, sete pequenos riachos em busca do mar. Azul, amarelo, vermelho, laranja, verde, violeta e anil se mesclavam e bailavam sobre sua mão. Com a ponta do indicador da mão oposta tocou na ponta de seus dedos coloridos, um a um. Viu os ramos subindo para a mão pálida, e a enchendo de vida com todas as sete cores que bailavam e se misturavam um turbilhão de vida invadindo seu corpo todo. As gotas de orvalho que o banhavam faziam o brilho aumentar ainda mais. Nym fechou os olhos e continuou a ver as cores que agora começavam a fazer parte dele. Por um segundo esqueceu-se o porquê estava ali, esqueceu-se do bar, do barulho, dos medos. Esqueceu-se da fada, das suas cores lindas, do suave som das suas asas.
Asas!
Pela primeira vez na vida, Nym desejou ter asas.
Asas que o fizessem chegar aos céus, alcançar as estrelas, que o fizessem leve, belo, colorido. Lembrou-se da estrela cadente, do seu pedido no meio da noite. Sentia a noite a sua volta se iluminar, o brilho em seu corpo aumentando, a brisa suave se tornando cada vez mais acolhedora.
De dentro do bar, a ária de uma canção começava a escorrer pela fresta da porta.
“Have you ever seen the morning
When the sun comes up the shore
And the silence makes
A beautiful sound
Have you ever sat there waiting
For the time to stand still
For all the world to stop
From turning around


And you run
'Cause life is too short
And you run
'Cause life is too short...”

Nym deixou a melodia o envolver, de olhos fechados, esperando, esperando, esperando…
***
Quando abriu os olhos o dia havia chegado.
Olhou a sua volta a procura da fada, das cores, do arco-íris. Não encontrou nada. O sentimento de tristeza e solidão voltou a tomar conta.
-Apenas um sonho. Apenas mais um sonho.
Sentia a cabeça leve, girando, muito provavelmente devido ao whisk da noite passada. Ou seriam noites passadas? Nym não sabia responder. Olhou novamente ao redor e deduziu que ainda estava um pouco bêbado. As coisas pareciam menores, ele sentia-se mais longe do chão. Procurou pelo gato, procurou pela fada. Sentiu-se ridículo. O que uma fada iria querer com ele? Apoiou as mãos no chão para se levantar quando viu a flor.
Uma margarida branca com pétalas amarelas! A maior que ele já havia visto.
Sentiu uma onda de ar gelado deslizar por seu corpo. Com o coração disparado levantou o olhar. Flocos de neve voltavam a cair devagar.
Levantou-se e a observou. Seu corpo era todo dourado e prata, refletindo a luz do sol em todas as direções, um prisma de todas as cores.
-Vem! A fada disse. Sua voz possuía uma melodia doce, sons de água caindo em cascata, do vento deslizando entre a floresta, som de nascer do sol.
Nym ficou a encarando, ouvindo aquelas palavras que surgiam sem que ela movesse os lábios, os sons completando todo o vazio que ele sentia há segundos atrás.
-Ir como? Como poderei ir com esse corpo todo duro? Nym pensou.
-Vem! A fada disse novamente e começou a voar.
Nym sentiu o desespero tomando conta, a possibilidade de perdê-la o esmagando.
E então viu sua flor começar a subir. Lentamente a margarida saiu de suas mãos e começou a subir.
-Não! Ele gritou e levou os braços em direção ao céu.
Foi ai que tudo aconteceu.
Os pequenos braços retraídos, agora eram grandes e flexíveis. Nym ficou contemplando aquela cena, extasiado com a mudança.
-Vem! A fada o chamou agora mais distante.
Nym fechou os olhos e foi...
As grandes e multicoloridas asas abriram-se com um movimento rápido e gracioso. O som vindo delas lembrava o som do vento batendo nas velas de um grande barco, o som das brisas que enchiam as suas velas e os levava novamente para casa. Os tons do arco-íris se formavam em suas costas, refletindo a luz do sol e espalhando as cores pelas paredes, pelo chão, enchendo os vitrais com gotas de luz.
Quando abriu os olhos, Nym estava a poucos centímetros do chão, suas asas batendo suavemente, pétalas de margarida ao seu redor, flocos de neve, gotas de orvalho, e os grandes arco-íris. Os maiores que ele jamais viu.
Um pouco mais acima a fada sorria para ele, a flor branca e amarela presa em seu cabelo.
-Vem, ela disse mais uma vez sorrindo.
Ele foi.
E pela primeira vez, Nym voou.