‘‘Quem tenta ajudar uma borboleta a sair do casulo a mata.
Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói.
Há certas coisas que não podem ser ajudadas.
Tem que acontecer de dentro para fora."
Rubem Alves
Quem tenta ajudar um broto a sair da semente o destrói.
Há certas coisas que não podem ser ajudadas.
Tem que acontecer de dentro para fora."
Rubem Alves
As asas da borboleta
2
O bar não havia mudado muito
desde a ultima vez. Apesar de algumas janelas estarem tapadas com placas de
madeira, fazendo assim com que menos luz entrasse pelas antigas frestas, o
local mantinha o mesmo ar inóspito de solidão. O relógio alemão continuava a
tiquetaquear preguiçosamente na parede, a poeira tomando conta de praticamente
todo o ambiente. As mesas agora eram ocupadas por uma enormidade de pessoas,
cada uma com seu charme especial.
Sentado junto ao balcão, Nym
sentia-se cada vez mais solitário. Segurava um copo de whisk entre as mãos
duras, os ombros caídos pesadamente junto ao corpo, a cabeça baixa encarando as
pedras de gelo no fundo do seu copo. Nym sentia-se perdido, desloucado de
todos. Sua curta vida se resumia a poucas fazes. Nunca havia conseguido se
encaixar em nenhum grupo, sempre fugindo, rastejando, lutando pela vida dia
após dia. Nunca gostara de sua aparência, nunca teve amigos, nunca teve uma
família. Foram muitas às vezes em que pensou que a vida não valia a pena ser
vivida. Sempre a sombra dos outros, sempre se disfarçando, sempre se
escondendo. A luz do dia sempre o amedrontou, assim como o céu.
O céu.
Nym nutria uma mistura de amor e
ódio pelo céu. Era de lá que vinham quase todos os perigos, era do céu que as
ameaças surgiam. Mas era esse mesmo céu que fazia com que ele desejasse
mudança. Nym sonhava com as cores, com o azul celeste do manto, com o branco
das nuvens. Durante as noites, escondido entre as arvores, entre as flores, Nym
observava as estrelas. De onde ele estivesse, era possível dar conta de todas
as estrelas do céu. Todas elas. Ele gostava de subir o mais alto que pudesse
para ficar observando. Um dia Nym viu uma estrela brilhar mais forte, descer e
se apagar. Ficou sem saber o que fazer. Nunca havia visto uma estrela morrer.
Sentiu medo. Se as estrelas com seu brilho todo podiam morrer, por que ele com
sua insignificância deveria viver? Ficou observando o mar, procurando o seu
brilho por entre as ondas. Não viu nada. Então fechou os olhos e desejou voar.
Voar o mais alto que pudesse e encontrar as estrelas. Quem sabe assim ele
poderia se juntar a elas? Quem sabe assim, Nym poderia se transformas em uma
estrela e viver para sempre no céu...
Claro, isso havia acontecido
antes.
Antes de Nym acordar e reparar
que sua pele havia endurecido. Seus movimentos antes tão fáceis, agora eram
doloridos. Mal conseguia se mover. Levava horas para poder andar uma distancia
que antes era percorrida em minutos. Já não era mais tão fácil se esconder. Nym
começou a ter medo. Já não conseguia mais ver as estrelas a noite não conseguiu
subir de encontro aos céus. Sem poder mais se esconder, escolheu um lugar para
passar a noite. Olhou para o céu. Poderia ser a ultima vez que via aquela cena.
Acordou com o corpo todo
endurecido. Seus movimentos eram limitadíssimos, os braços pequenos, a pele
dura. Olhou no relógio e viu que havia se passado uma semana. Tentou se mover e
sentiu-se totalmente desconfortável. Só havia um lugar pra onde ele voltaria.
Lentamente arrastou-se para o bar...
E foi assim que Nym veio parar
novamente no bar. Não sabia como, mas ele sempre era atraído para aquele mesmo
lugar. Aquele ambiente, aquelas marcas nas mesas, as antigas historias do casal
apaixonado, a batida do relógio, tudo aquilo fazia do lugar um refugio sagrado.
Sentado sozinho, Nym observava
todas as pessoas presentes. Alguns anões com olhares suspeitos jogavam algum
jogo desconhecido em uma mesa escura. Os capuzes por sobre as cabeças impediam
uma visão detalhada de seus rostos, mas o pequeno vislumbre que Nym teve de um
dos anões foi o suficiente para desviar o olhar. Os olhos eram um de cada cor.
Um deles de um verde profundo, como o de musgos crescendo em uma encosta
húmida. A pele mal barbeada revelava cicatrizes profundas, desde a parte de
baixo do queixo até um coto de orelha. O outro olho possuía um tom castanho
maligno e desafiador. Nym achou melhor não procurar por mais detalhes.
Em outro dos cantos, um cavaleiro
alisava seu cavalo. O grande corcel negro mantinha-se imóvel enquanto seu dono
escovava seu pelo. Era um homem grande, vestido com cota de malha, um manto
negro pendendo dos ombros. A espada pendia presa ao lado direito do corpo, o
que mostrava que sua mão boa era à esquerda. Um grande problema durante uma
batalha, Nym lembrou-se de ter ouvido. Era sempre difícil enfrentar um oponente
canhoto.
Em uma das mesas mais afastadas
ao fundo, um velho pirata se recostava na cadeira. A expressão cansada no rosto
e as mãos calejadas de tanto fazer nós, de pegar nos remos, de içar as velas
demonstravam que os anos poderiam ser cruéis com uma pessoa que vive no mar. A
barba grisalha e desgrenhada tornava difícil evitar o sentimento de pena quando
o encarava de perto. Mantinha os olhos fechados, o rosto caído, e ressonava
ruidosamente. Segurava um acordeom em seu colo que dava a impressão de cair aos
pedaços ao mais leve movimento e era difícil distinguir qual dos dois parecia mais
frágil. Uma libélula atravessou o salão com movimentos rápidos, o zumbido das
asas cortando o ar, o corpo esguio e verde e foi pousar na lapela do casaco
puído do pirata que acordou como se estivesse saindo de um sonho. Olhou a
volta, pequenos olhos sem vida, de quem já viu muita coisa no mundo e gostou de
muito pouco do que viu. Encarou a libélula e a afagou com a ponta grossa dos
dedos sujos. O movimento delicado vindo de mãos aparentemente tão inábeis para
o carinho surpreendeu Nym que não conseguia desgrudar os olhos da cena. Por um
segundo o pirata parecia sorrir e confidenciar algo a sua mais recente amiga.
Levantou o olhar e seus olhos se encontraram. A expressão ébria voltou a
dominar seu rosto e a libélula alçou voo, tornando a tomar o ar. Ele a
acompanhou com os olhos fechados, como se pudesse sentir o vento, talvez pelos
anos passados no mar, pela capacidade de sentir de onde vinham as brisas que
enchiam as suas velas e os levava novamente para casa. Tocou o acordeom e com
uma voz rouca começou a cantar:
“The king
and his men. Stole the queen from her bed. And bound her in her Bones. The seas
be ours. And by the powers. Where we will we'll roam. Yo, ho, haul together.
Hoist the Colors high. Heave ho. Thieves and beggars. Never shall we die...”
Quando terminou de
cantar, o pirata voltou a sua posição inicial, ressonando de olhos fechados.
Nym ficou pensando se havia sido sua ultima canção, um lamento solitário antes
de partir, ou se era assim mesmo que os piratas se comportavam. Nunca havia
conhecido um pirata e sentiu-se tentado a sentar-se em sua mesa e lhe pedir uma
história. Ao invés disso voltou os olhos para o relógio e observou as horas.
22:22! A hora da coincidência! Não sabia se isso era um bom sinal. As historias
que havia ouvido a respeito dessa hora não eram muito boas. Ele tinha um minuto
para descobrir se as historias eram verdadeiras ou não. Ficou observando o
ponteiro dos segundos avançarem lentamente, batida depois de batida, o som
cortante como uma picareta batendo em pedra dura a procura de diamantes. Tic.
Tac. Tic. Tac. Durante 45 segundos nada aconteceu. Durante 45 segundos Nym se
sentiu um idiota encarando aquele relógio poeirento e velho. Durante 45
segundos Nym pensou que nada mudaria.
Até que a porta se
abriu.
Lá fora o vento sibilava
tristemente. Uma pequena fada entrou. Suas asas batiam rapidamente e seu
movimento suave era quase imperceptível. Ela atravessou o salão a poucos
centímetros do chão, seus pés levemente elevados, sua sombra formando um
elegante contorno quando passava pelas mesas, uma leve brisa se formando por
conta do seu movimento. Possuía um rosto redondo e branco, como a lua em uma
noite fria. Os olhos eram negros, de um brilho envolvente, com o contorno
pintado (ou seria natural?) de um azul intenso. Suas mãos eram pequenas e
delicadas, com dedos finos envolvidos por uma luva de fios de teia de aranha
que brilhavam refletindo toda a luz que recebia. O vestido era feito de
pequenas escamas multicoloridas, retratando todos os tons e entretons do
arco-íris, mudando de cor com cada movimento do corpo. Por onde passava, o
cheiro de jasmim tomava conta. Ela passou por Nym e dirigiu-se a uma porta do
fundo, saindo do seu campo de visão tão rapidamente quanto entrou. A cena não
durou mais que alguns segundos, mas o cheiro de jasmim o envolveu por completo.
Ficou ali perdido em pensamentos enquanto contemplava na mente aquela imagem.
–Coisas tão mágicas existem no mundo e tão pouca gente se dá conta disso.
–pensou. Dirigiu o olhar novamente para o gelo em seu whisky e ficou ali, vendo
seu reflexo no liquido dourado. Estava na hora de fazer a sua mágica acontecer.
Ele precisava fazer acontecer. Largou algumas notas amassadas no balcão e foi
atrás da fada. Abriu a porta e saiu para o fundo do bar.
A noite era fria. Sentiu um arrepio
percorrer todo o corpo quando o sereno gelado da noite começou a cobrir sua
pele. Olhou ao redor e não a encontrou. Sentiu uma pontada de tristeza o
invadindo. Olhou para o céu negro, sem estrelas nessa noite. Era estranho, o
céu sempre tinha estrelas, ele pensou. A luz amarela tremeluzia no alto de um
poste iluminando debilmente o depósito do fundo. Caixas de bebida empilhadas
sem nenhum critério formavam um labirinto colorido por todos os lados. Nym
ficou imaginando o que alguém normal faria num labirinto daqueles. Ouviu um
barulho por entre as caixas e por um breve momento teve medo. Um gato gordo e
de pelagem alaranjada e hirsuta saiu do escuro preguiçosamente e parou sob a
luz. Seus olhos eram grandes orbitas castanho escuro. Ficou o encarando por
algum tempo, talvez a espera de um afago ou algo de comer. Lambeu os espessos
pelos da pata e coçou as orelhas. Encarou Nym novamente e como nada aconteceu,
saiu esgueirando-se sorrateiramente por entre o labirinto, desaparecendo na
noite. Um corvo passou voando fazendo o som de suas asas ecoarem por entre as
garrafas. Nenhum sinal da fada. Nym se preparava para voltar para o bar,
segurando a maçaneta da porta com uma expressão cansada no rosto, quando
novamente ouviu um barulho por entre as caixas. Ficou imaginando que o gato
alaranjado tivesse decidido voltar, talvez com a esperança de ganhar alguma
migalha, quando sentiu o cheiro doce de jasmim. Virou-se rapidamente, um
movimento desajeitado e deselegante, chocando-se com as latas de lixo e
garrafas vazias, o som de vidro se quebrando e metal batendo contra o chão.
Sentiu o coração disparar, o medo o invadindo. Medo de assustar a fada, de
perdê-la para sempre, medo do silêncio que se seguiria após sua partida, do
vazio e da solidão que há tempos o assombravam. Não suportava a ideia de viver
fechado assim por mais tempo.
–Ela poderia
me salvar!
Tentou controlar a respiração.
Fechou os olhos e ficou esperando pelo silêncio, sem ter coragem de abri-los
novamente e se deparar com a escuridão vazia. Sentiu algo frio tocando sua
pele. –Neve! Por um segundo se censurou pelo pensamento absurdo. Mas por que
não? Abriu os olhos lentamente. A fada estava sentada em uma pilha de caixas de
bebida a poucos metros de distancia e não mais de um metro e meio do chão. Suas
asas se moviam lentamente, apenas o suficiente para fazer pétalas de margaridas
flutuarem a sua volta. Com movimentos lentos e os olhos fechados, ela retirava
pétala por pétala da flor e soltava no ar. As pequenas pétalas desciam alguns
centímetros em direção ao chão, mas rapidamente eram levadas de volta por uma
corrente de ar invisível, criada pelo movimento de suas asas. Os pés balançavam
displicentemente em um movimento pendular. Um botão de jasmim repousava preso
em sua orelha. Nym observava o pequeno tufão de pétalas brancas, quando elas
começaram a subir e se transformar em orvalho. Uma a uma, foram se desmanchando
e virando pequenas gotas cristalinas no ar. Viu uma fina camada se formando e
começando a cair, o chão ficando escuro pela humidade. Estendeu as mãos,
extasiado, em busca do frescor da humidade. As gotas caiam em câmera lenta e
era possível acompanhar a queda de cada uma separadamente. Nym escolheu uma
gota e esperou que ela o tocasse. Sentiu o frescor da água se transformar em um
floco de neve, e em seguida voltar a ser uma pétala de margarida. Podia sentir
o cheiro de chuva, o aroma que as primeiras gotas provocam ao tocar a terra
seca, mas ele sabia que não era chuva, eram pétalas que se transformavam em
neve, depois em orvalho e novamente em pedaços de flor. Viu o chão ficar
branco, formando um frágil tapete a sua frente. A cena era tão surpreendente
que ele se esqueceu da fada. Ergueu os olhos e contemplou a imagem dela o
observando, os olhos negros abertos, fixos nos seus, o rosto branco e
inexpressivo como o de uma boneca de porcelana. Nym sentiu a brisa se tornando
mais forte, o movimento das asas ficar mais intenso e então a fada começou a
descer. As escamas do seu vestido brilhavam mudando de cor a cada segundo. Nas
mãos ela segurava um botão de margarida intacto. Suas pétalas de puro branco e
seu miolo amarelo refletiam em seu vestido na altura do coração. A fada desceu
até quase tocar o chão, e aproximou-se flutuando lentamente. Seus pés
mantiveram-se afastados a poucos centímetros do delicado tapete branco, e por
onde ela deslizava, brotos de flores começavam a nascer. Botões de rosas,
orquídeas, lírios e girassóis subiam rapidamente e floresciam, formando uma
sandália de ramos e flores em seus pés. O aroma do orvalho acompanhava seu
movimento. Flocos de neve voltaram a cair fazendo a temperatura baixar mais
alguns graus. Nym sentia o coração batendo forte, a pressão nos ouvidos
aumentando a cada centímetro que a fada se aproximava. A luz que emanava de seus cabelos prateados
fazia com que pequenos arco-íris se formassem com as gotas de orvalho. Nym
aproximou as mãos de um deles, que se desfez no momento do toque.
![]() |
| (Créditos de Imagem: Bruno de Assis) |
Um brilho de cores começou a
subir pelos seus dedos. Sentiu cocegas a principio e viu que a fada sorria para
ele. Seu rosto antes inexpressivo tomava traços de felicidade, os lábios finos que se comprimiam como se reprimissem um grito agora se abriam em um sorriso,
um sol nascendo entre as nuvens de um dia nublado, capaz de dissipar qualquer
escuridão. A sua volta os arco-íris continuavam a se formarem, mas Nym
observava apenas sua mão. Aproximou-a do rosto, a fim de observar melhor as
linhas coloridas que avançavam pela sua pele, sete pequenos riachos em busca do
mar. Azul, amarelo, vermelho, laranja, verde, violeta e anil se mesclavam e
bailavam sobre sua mão. Com a ponta do indicador da mão oposta tocou na ponta
de seus dedos coloridos, um a um. Viu os ramos subindo para a mão pálida, e a
enchendo de vida com todas as sete cores que bailavam e se misturavam um
turbilhão de vida invadindo seu corpo todo. As gotas de orvalho que o banhavam
faziam o brilho aumentar ainda mais. Nym fechou os olhos e continuou a ver as
cores que agora começavam a fazer parte dele. Por um segundo esqueceu-se o
porquê estava ali, esqueceu-se do bar, do barulho, dos medos. Esqueceu-se da
fada, das suas cores lindas, do suave som das suas asas.
Asas!
Pela primeira vez na vida, Nym
desejou ter asas.
Asas que o fizessem chegar aos
céus, alcançar as estrelas, que o fizessem leve, belo, colorido. Lembrou-se da
estrela cadente, do seu pedido no meio da noite. Sentia a noite a sua volta se
iluminar, o brilho em seu corpo aumentando, a brisa suave se tornando cada vez
mais acolhedora.
De dentro do bar, a ária de uma
canção começava a escorrer pela fresta da porta.
“Have you ever seen the morning
When the sun comes up the shore
And the silence makes
A beautiful sound
Have you ever sat there waiting
For the time to stand still
For all the world to stop
From turning around
And you run
'Cause life is too short
And you run
'Cause life is too short...”
Nym
deixou a melodia o envolver, de olhos fechados, esperando, esperando,
esperando…
***
Quando abriu os olhos o dia havia chegado.
Olhou a sua volta a procura da fada, das cores, do
arco-íris. Não encontrou nada. O sentimento de tristeza e solidão voltou a
tomar conta.
-Apenas um sonho. Apenas mais um sonho.
Sentia a cabeça leve, girando, muito provavelmente
devido ao whisk da noite passada. Ou seriam noites passadas? Nym não sabia responder.
Olhou novamente ao redor e deduziu que ainda estava um pouco bêbado. As coisas
pareciam menores, ele sentia-se mais longe do chão. Procurou pelo gato,
procurou pela fada. Sentiu-se ridículo. O que uma fada iria querer com ele?
Apoiou as mãos no chão para se levantar quando viu a flor.
Uma margarida branca com pétalas amarelas! A maior
que ele já havia visto.
Sentiu uma onda de ar gelado deslizar por seu
corpo. Com o coração disparado levantou o olhar. Flocos de neve voltavam a cair
devagar.
Levantou-se e a observou. Seu corpo era todo
dourado e prata, refletindo a luz do sol em todas as direções, um prisma de
todas as cores.
-Vem! A fada disse. Sua voz possuía uma melodia
doce, sons de água caindo em cascata, do vento deslizando entre a floresta, som
de nascer do sol.
Nym ficou a encarando, ouvindo aquelas palavras que
surgiam sem que ela movesse os lábios, os sons completando todo o vazio que ele
sentia há segundos atrás.
-Ir como? Como poderei ir com esse corpo todo duro?
Nym pensou.
-Vem! A fada disse novamente e começou a voar.
Nym sentiu o desespero tomando conta, a
possibilidade de perdê-la o esmagando.
E então viu sua flor começar a subir. Lentamente a
margarida saiu de suas mãos e começou a subir.
-Não! Ele gritou e levou os braços em direção ao
céu.
Foi ai que tudo aconteceu.
Os pequenos braços retraídos, agora eram grandes e
flexíveis. Nym ficou contemplando aquela cena, extasiado com a mudança.
-Vem! A fada o chamou agora mais distante.
Nym fechou os olhos e foi...
As grandes e multicoloridas asas abriram-se com um
movimento rápido e gracioso. O som vindo delas lembrava o som do vento batendo
nas velas de um grande barco, o som das brisas que enchiam as suas velas e os levava
novamente para casa. Os tons do arco-íris se formavam em suas costas,
refletindo a luz do sol e espalhando as cores pelas paredes, pelo chão,
enchendo os vitrais com gotas de luz.
Quando abriu os olhos, Nym estava a poucos
centímetros do chão, suas asas batendo suavemente, pétalas de margarida ao seu
redor, flocos de neve, gotas de orvalho, e os grandes arco-íris. Os maiores que
ele jamais viu.
Um pouco mais acima a fada sorria para ele, a flor
branca e amarela presa em seu cabelo.
-Vem, ela disse mais uma vez sorrindo.
Ele foi.
E pela primeira vez, Nym voou.

