domingo, 2 de junho de 2013

O Metrô

“Oh, Jenny está toda molhada, pobrezinha
Jenny raramente seca:
Ela enlameou todas as suas anáguas,
Vindo através do centeio!

Vem através do campo de centeio, pobre corpo,
Vem através do campo de centeio,
Ela enlameou todas as suas anáguas,
Vindo através do centeio!

Se alguém encontra alguém
Vem através do centeio,
Se um alguém beija alguém,
Necessita alguém gritar?

Se alguém encontra alguém
Vem através do vale,
Se alguém beija alguém
Necessita que o mundo saiba?

Se alguém encontra alguém
Vem através do grão,
Se alguém beija alguém,
A coisa é possuir um corpo.”
Coming Through The Rye 
by Robert Burns 

(Campo de trigo com ceifeiro e Sol. Vincent Van Gogh)
As portas se abriram. Noel entrou cabisbaixo, voltando para casa após mais um dia de trabalho. A perspectiva de enfrentar 2 metrôs lotados e mais alguns quarteirões de caminhada até seu apartamento era desanimadora.
Em seu Ipod ouvia os versos pragmáticos de Crioulo dizendo que “Não existe amor em SP”.
Noel respirou fundo e procurou um lugar pra se sentar, -e encontrou- um pequeno alento àquela altura do dia. Ao seu lado, uma senhora com lenço na cabeça lia a Bíblia.
- O mundo pertence aos pobres Noel! Era o que sua mãe costumava repetir. Mas ele não pretendia ter o mundo. Queria apenas uma vida mais tranquila, um trabalho mais perto de sua casa, um quintal, um cachorro e uma cadeira na varanda. Por horas passava a imaginar a cena, um final de tarde sentado em sua cadeira, observando o por do sol, ao sabor de um refresco gelado, um bom livro, uma musica tocando ao fundo. Ficava por horas a contemplar catálogos de decorações, se vendo em cada poltrona felpuda, sentindo os sorrisos a sua volta, ouvindo o som dos pássaros ao seu redor. Não foram poucas as vezes que teve que ser trazido de volta à realidade por um cutucão nada gentil entre as costelas.
Estava a vagar por entre esses pensamentos fantasiosos quando a notou no metrô a sua frente.
Tinha cabelos loiros, cortados rente aos ombros, cílios delicadamente trabalhados, as sobrancelhas finas desenhadas de forma simétrica ao rosto, e o restante das formas encobertas por um livro.
A procissão de pessoas seguia seu curso insanamente, se esbarrando, se esquivando dos menos apressados, com aquele passo marcado, os olhares voltados para baixo, os rostos marcados pelos tons impessoais, a inexpressividade característica das grandes cidades, a falta de afeto presente na ausência de cada sorriso.
Noel observava os finos fios de cabelos loiros se movimentarem quase imperceptivelmente, uma moldura de tinta óleo com pinceladas precisas, espalhadas sobre a tela com perfeição. A imagem lembrava um campo de trigo ao vento. Tentou ler o titulo do livro, decifrar sua capa, mas no meio de tanta gente, de tanto movimento, o seu esforço foi inútil. Apenas conseguiu captar as cores, a capa prateada com letras amarelas, um tom sóbrio e instigante, como os últimos raios de sol em uma tarde de outono.
Era estranho reparar em alguém no metrô. As pessoas estavam sempre absortas em seus pensamentos, observando os próprios pés, pensando na lista de compras do supermercado, nas contas penduradas na geladeira, no vazio da geladeira e o final do mês tão distante, o pagamento que não acompanha as necessidades.
Vislumbrar um rosto amigo, suave, gentil era quase um pensamento utópico, era pedir demais em uma final de tarde paulista.
Noel vagueava entre essas ponderações, quando por um segundo seus olhares se encontraram. Um súbito calor invadiu seu corpo, subindo rapidamente pela espinha e ruborizando sua face. Sentiu um baque surdo nos ouvidos, àquela sensação da surpresa, de ser pego em flagrante durante um ato obsceno. Sentia como se estivesse invadindo a privacidade alheia, um intruso em um mundo desconhecido, ferindo os princípios morais ensinados pela sua mãe.
Durante alguns segundos tudo ficou em silêncio, a cena transcorrendo em Slow Motion, uma eternidade que durou apenas um piscar de olhos.
As portas se fecharam, trazendo Noel de volta a realidade, os sons caóticos tomando conta do ambiente. Conseguiu ainda vislumbrar seus olhos, e o quase imperceptível movimento de cabeça durante uma fração de segundo e novamente para o livro, e finalmente para fora da sua visão.
Noel permaneceu alguns momentos com o olhar fixo na porta, as luzes passando rapidamente como vagalumes, tentando se concentrar em algum pensamento crível, quando Zeca Baleiro sussurrou ao seu ouvido:
“Eu tava trise, tristinho. Mais solitário que um paulistano. Que o canastrão na hora que caí o pano...”
Realmente, às vezes era preciso sorrir.
Permitiu-se um sorriso débil, aumentou o volume do MP3 e cochilou.
***
Chegou em casa, atirou as chaves no criado mudo, acendeu as luzes e foi para o banho. Tentou comer algo, um sanduiche de peito de peru com suco de laranja (sem vodka dessa vez) e foi deitar.
Os dias vinham sendo uma sucessão de sistemáticas repetições desanimadoras: Acordar, tomar café, pegar o metrô, ir para o trabalho, trabalhar, engolir algo no almoço, voltar para o trabalho, tomar mais café, pegar o metrô, voltar para casa, jantar o que encontrar na geladeira, tentar dormir, tentar sonhar, acordar, tomar café...
Deitou no sofá e ficou a observar as janelas se apagando noite afora, uma a uma, as luzes se esvaindo e o escuro predominando. Era tentadora essa sucessão e Noel começava e formular um pensamento a respeito, mas antes de conseguir completar o raciocínio, adormeceu e sonhou com raios de sol em um campo de trigo.
***
Acordou ainda no sofá. Sentia saudades dos tempos de infância, quando dormir no sofá e acordar na cama era uma rotina natural.
Estralou as costas e arriscou alguns exercícios de alongamento. Sentiu-se ridículo e abandonou a ideia, pegou o Iphone, e ouviu por alguns o toque do despertador antes de desativa-lo. Parecia uma brincadeira de mau gosto à forma como ele mesmo escolhia as musicas para determinados momentos do seu dia.
Cicero cantava o refrão de Tempo de Pipa logo pela manhã, uma tentativa um tanto invalida de animar o seu despertar:
“Mas tudo bem, o dia vai raiar, pra gente se inventar de novo. Tudo bem, o dia vai raiar, pra gente se inventar de novo. E o mundo vai nascer de novo...”
Desligou o despertador, lavou o rosto, trocou de roupa, tomou o seu café e saiu.
***
Os dias passados no trabalho já não reservavam mais surpresas. A rotina havia tomado conta, e muito raramente algum fato era capaz de despertar algo novo dentro dele. Mas por alguma razão, naquela manhã, Noel sentia-se bem, sentia-se muito bem.
Pegou o trem e seguiu em direção ao trabalho, o mesmo caminho de anos, a mesma rotina, os mesmos horários, mas que hoje, por algum motivo parecia diferente, e mesmo sem identificar a razão, Noel permitia-se aproveita-la.
Lembrou-se de uma tirinha de quadrinhos de Quino, onde Mafalda elogia o seu pai antes do trabalho, e este se encaminha sorridente, dentre tantos rostos insatisfeitos, causando a indignação e o espanto dos demais passageiros. Noel adorava a pequena reclusa.
***
Ele retorna do trabalho, uma vez mais com os fones do MP3 colados ao ouvido.  Chris Cornell deixa os versos deslizarem com uma sutileza quase obscena, enquanto Tom Morello parece brincar com as cordas de sua Fender "Soul Power". A letra dizia tudo:
“I was lost in the cities
Alone in the hills
No sorrow or pity
for leaving
I feel”
Noel procurou um lugar vago e novamente encontrou. Pensou que deveria ter jogado na loteria, tamanha era sua sorte por dois dias seguidos.
Por alguns instantes ele se distraiu com esse pensamento, imaginando o valor do prêmio em sua conta, às viagens pelo mundo, os carros de luxo.
Por alguns segundos.
Então ele a avistou novamente. Sentada da mesma forma, com o mesmo livro entre as mãos, cobrindo parcialmente o rosto, escondendo a beleza de seus olhos, os suaves contornos do seu rosto.
Noel apertou os olhos e fixou o olhar na capa do livro, na esperança de captar alguma informação que pudesse usar para identifica-lo mais tarde.
Se alguém perguntasse, ele não saberia explicar o porquê dessa pequena obsessão, mas de alguma forma, a ideia de descobrir o titulo do livro o dominava. Permaneceu estático nessa posição quando seus olhares se cruzaram novamente. Noel sentiu-se ridículo com a expressão no seu rosto, os olhos apertados, o corpo jogado a frente, quase saltando do seu assento, um predador apoiado nas patas traseiras, pronto para dar o bote.
Ela lhe lançou um olhar surpreso de reconhecimento, voltou os olhos para o livro e o encarou novamente, com uma expressão de incrédula intimidade. Seus olhos possuíam um brilho contagioso das pessoas sonhadoras, sua face era rosada, que tanto poderia ser efeito da maquiagem, quanto do sangue correndo mais forte para o rosto em um momento de timidez repentina. O contorno dos olhos era de um negro um tanto borrado, e Noel ficou imaginando se seria pelo cansaço, pelo calor ou por alguma lágrima não contida no decorrer do dia. Não seria surpresa se o motivo fosse esse. Alguns fios de cabelos loiros caíram sobre seus olhos e ela os afastou com os dedos para trás da orelha. Abaixou a cabeça entre o livro, escondendo-se momentaneamente, um misto de constrangimento e diversão brotando em seus olhos. Noel permanecia imutável, com os olhos vidrados e a boca entreaberta, absorto demais para sentir-se ridículo.
Ela ergueu novamente o rosto, a mão ainda atrás da orelha, reprimindo a liberdade dos fios rebeldes e abriu um sorriso tímido, escondendo-se em seguida atrás da capa prateada do livro.
A ultima imagem que Noel conseguiu captar antes das portas se fecharem, foram as grandes letras amarelas contra o fundo prateado.
“O Apanhador No Campo De Centeio”
***
Noel fez o caminho de volta para casa radiante. Agora tinha certeza que não havia sonhado. Passou em uma livraria, mas a vendedora o informou que o livro que ele procurava estava em falta. Mesmo assim, fez a encomenda e voltou para casa. Havia um final de semana com feriado prolongado para esperar até a próxima quarta-feira e a possibilidade de um novo encontro. Seriam dias intermináveis.
***
Noel saiu apressado do trabalho. O motoboy acabava de entregar o seu livro, e ele não aguentava mais esperar o momento de sentir suas páginas ásperas contra os dedos, o aroma da tinta negra marcando o papel, explorar cada entrelinha nunca antes explorada. Sentia o arrepio percorrer sua nuca com a perspectiva do momento de tirar seu envoltório plástico e atirar-se contra suas páginas. Mas acima disso tudo, queria chegar ao metrô, segura-lo apertado ao colo, como um pai embala uma criança indefesa, o protegendo junto ao peito. Os quatro dias longe do metrô haviam sido terríveis, e ele sentia-se como uma criança a espera da chegado do seu presente de natal.
Deslizou por entre as ruas, esgueirando-se cegamente, sentindo o suor brotar nas têmporas, a camisa ficando empapada nas costas, o tecido grosseiro atingindo indelicadamente seu corpo, grudando contra sua pele.
Chegou à estação quase sem folego, passou a roleta e seguiu seu caminho rumo ao seu vagão, a expectativa do encontro de olhares, do reconhecimento, do sorriso cumplice que surgiria em as ambas as bocas aumentando a cada passo. Entrou no vagão e posicionou-se de frente para a porta, buscando o melhor ângulo, a melhor brecha.
Olhou ao redor em busca da visão do seu campo de trigo, mas não a encontrou. Ficou a contemplar esse repentino momento de solidão até se dar conta do livro em sua mochila. Retirou-o devagar com um cuidado excessivo, quase paranoico, como se qualquer movimento brusco pudesse estraga-lo, ou ainda, como se fazendo assim, o tempo corresse mais lentamente e ela pudesse chegar.
Apertou-o contra o peito e esperou, a respiração descompassada, marcando os segundos com a ponta do pé batendo no chão, mordendo de leve o canto do lábio inferior.
Ao longe, surge o apito avisando o fechamento das portas. O maquinista avisa para não tentar entrar ou sair do trem durante o sinal de fechamento, as portas se fecham e o metro se vai. Sem um sorriso, sem um olhar de reconhecimento, Noel senta-se silenciosamente contemplativo, com as esperanças se esvaindo a cada piscar de luzes.
Ele chega em seu apartamento, joga o livro no sofá e vai para o banho.
Em algum lugar de São Paulo, uma jovem de cabelos loiros e unhas roídas de ansiedade está parada em um engarrafamento. No seu colo, um caderno de capa cor de rosa com uma folha rabiscada com letras grandes – ME LIGUE –.
***
Noel não dormiu, não comeu e não trabalhou direito. Não conseguia compreender como algo tão fantasioso pudesse mexer tanto assim com a sua cabeça. Passou o dia tentando se convencer que nada havia acontecido, que fora apenas coincidência, que os olhares foram apenas ilusões de sua mente perturbada pela falta de sono e excesso de café.
Pensou tanto nisso que acabou se atrasando com um trabalho e por isso precisou ficar até mais tarde.
No metrô, uma jovem loira segura contra o peito o caderno rosa com as letras rabiscadas e seu numero de telefone.
Hoje é a sua vez de ouvir o apito de aviso, assistir impassível o fechamento das portas, e sentir a esperança se esvaindo a cada piscar de luzes.
***
Ele chegou tarde em casa. Na mochila uma garrafa de vinho tinto, uma modesta porção de queijos e o seu precioso livro. Acendeu as luzes do apartamento, abriu o vinho ligou o som e ficou sentado no sofá. O cartão postal ainda estava jogado sobre a mesa de centro, contendo as palavras que ele começava a duvidar que algum dia fosse lidas por alguém. Ao lado do cartão, a ultima foto de Melissa.
Ela havia usado o zoom da Canon de maneira genial para captar algumas poucas linhas escritas em uma folha amassada de papel: “TESTE DE GRAVIDEZ: POSITIVO”. Ele ainda sentia o arrepio do dia em que revelou a foto.
Colocou uma musica no player do Notebook, bebeu uma taça de vinho e adormeceu com Zeca Baleiro cantando uma versão ousada de Ronda, de Fagner:
“De noite eu rondo a cidade a te procurar sem te encontrar
no meio de olhares espio em todos os bares você não está
volto pra casa abatido desencantado da vida
um sonho alegria me dá nele você está...”
O dia seguinte transcorre com um aperto no peito. A canção do livro permanece em sua cabeça e permeia por seus pensamentos. “Se alguém encontra alguém...”
Ele decide sair mais cedo do trabalho. Decide pegar o outro metrô, tentar encontra-la no seu vagão, invadir sua privacidade, revirar seu mundo, correr o risco de parecer louco. Inventa uma desculpa qualquer no seu trabalho e se vai. Percorre o caminho do trabalho até o metrô inventando mil motivos para justificar o encontro, fantasiando milhares de situações para a primeira troca de palavras, para não parecer um idiota qualquer.
Noel apanha o metrô algumas estações antes, imaginando ser o certo, ser a hora certa e contando com a sorte. Ele vê as pessoas passarem apressadas, tomando seus lugares estação após estação, se acotovelando, achando espaços, buscando uma fresta de ar para sobreviver por mais um dia. Ele procura insanamente por entre todos, busca seu rosto reconhecido e não encontra. Sente-se um idiota novamente, e se prepara para abandonar a ideia quando a vê no vagão da frente. Por um segundo ela permanece imóvel, e em seguida abre um sorriso e acena de leve. O metrô para. Noel aguarda apenas o suficiente para as portas se abrirem e salta do seu vagão em direção ao vagão da frente. Ele esbarra nas pessoas, ouve os insultos, mas continua sem dar trégua. Um casal de idosos bloqueia seu caminho, e Noel tenta contorna-los sem muito sucesso. Ele pede desculpas, pede licença e continua avançando. O sinal de fechamento das portas soa, e o coração de Noel dispara uma onda de adrenalina percorrendo seu corpo todo. Contorce-se inteiro e consegue entrar antes do fechamento das portas, mas perde o equilíbrio. Agora ele está caído de joelhos, suas coisas espalhadas pelo chão do metro. Ele observa a cena deprimido. Sua mochila aberta revelando todo seu conteúdo, canetas jogadas, o cartão postal virado com o poema para cima. Olha ao redor e não encontra o seu livro. Um súbito desespero o invade, um frio subindo pela espinha.
Noel junta suas coisas rapidamente até erguer o olhar e se deparar com ela, que paira como um anjo sobre ele, o sorriso tímido no canto dos lábios, os fios loiros caindo sobre os olhos. Ela os acomoda uma vez mais por trás da orelha e volta a sorrir, dessa vez um sorriso grande de alivio. Apertado contra o peito está o livro de Noel.
Ela estica a mão para ajuda-lo. Eles se aproximam, seus rostos se emparelham. Ambos sorriem juntos, os olhares se envolvendo, se abraçando em silêncio, se declarando mudos.
Os cabelos caem novamente sobre seus olhos e dessa vez é Noel que leva a mão para ampara-los.
Ela fecha os olhos, sentindo esse toque suave, sutil, próximo e acolhedor.
Seus rostos se aproximam.
As portas se fecham.

E o metrô se vai.