terça-feira, 18 de junho de 2013

A Hora da Coincidência.

“Os dias tem sido estranhos. 
Estranhos por que você está aqui, 
mas eu não estou. 
Então é como se você não estivesse.”


22:22. Eu olho no relógio e essa hora sempre está lá, a minha espera, fazendo com que cada segundo passe penosamente para que eu possa contempla-la. 22:22. Desde pequena eu ouço um mantra quase sagrado em relação há essa hora. Costumavam me dizer que era a hora da coincidência. O encontro dos números repetidos, a beleza da imagem. Nessa mesma época eu passei minhas férias no litoral e um dia, ou melhor, uma noite eu olhei no relógio e me deparei com os números. 22:22. As pessoas a minha volta trocaram olhares cumplices. Eu perguntei “-Vocês também?” Eles me responderam quase sussurrando. “-Acontecem coisas estranhas nesse horário”... Não sei se era pra me assustar, ou se era real. Mas o fato é que essa hora me acompanhou durante todos os dias posteriores. Mas isso foi antes, e é melhor eu contar a minha história por inteiro. Ou pelo menos, contar as partes indispensáveis.
Antes de tudo, peço desculpas, mas vou contar em terceira pessoa. Fica mais fácil pra mim assim, como se eu estivesse falando de outra pessoa, contando outra historia que não seja a minha, confidenciando segredos que não são meus. E também, por que no fundo, tem dias que a gente realmente gostaria de ser outra pessoa.

A hora da coincidência.

A urgência em sua voz era cortante. O vento morno invadia o emaranhado de cabelos negros fazendo com que eles deslizassem por seus ombros. Alguns fios muito finos na nuca ficavam expostos, mostrando a raiz um pouco mais clara do que o tom das pontas. Suas mãos se moviam rapidamente, hora se tocando, hora tocando as pregas do vestido. O esmalte começava a descascar nas pontas das unhas, e o movimento de retirar os pequenos pedaços salientes era quase mecânico. Gina não era exatamente uma mulher bonita. Mas possuía sua beleza presente nos detalhes, nos gestos, nos pequenos movimentos dos olhos. Corava quando sentia vergonha, sorria de boca inteira quando estava feliz, gritava e chorava de dor quando sofria. Era uma pessoa comum. E era isso que fazia dela especial.
Não era alta, não era magra e também não estava acima do peso. Gostava de musica clássica, mas ouvia os velhos discos de punk rock de seu pai. Deitada em sua cama nas horas perdidas da madrugada, fechava os olhos e se imaginava em locais incomuns, com pessoas desconhecidas, vendo paisagens raras, que talvez só existissem em seus sonhos. Era nesses momentos que se sentia melhor. Era com essas pessoas que ela se sentia protegida, amada, feliz.
O teto de seu quarto era forrado com recortes de jornais, pequenas constelações fluorescentes, astros, planetas. Era ali seu mundo, seu faz de contas, sua pequena Nárnia. Diversas vezes abria as portas de seu guarda roupa e ficava a observar por entre as pesadas roupas, podendo quase sentir o vento gelado, os flocos de neve e o brilho da lanterna solitária. Nessas horas, voltava pra cama, sentindo uma sensação tão intensa em seu peito, que por vezes as paginas do diário eram insuficientes para compreendê-la. Foram incontáveis os momentos em que acordou com páginas amassadas em seus dedos, os cabelos caindo pelo rosto, à luz do sol invadindo as frestas da janela. Na porta de seu quarto, seu pai a observando com uma expressão divertida nos olhos, uma caneca de café fumegante em uma das mãos. Nessas horas ele sempre a chamava de minha pequena e se sentava ao seu lado para lhe beijar a testa.
Por diversas vezes chegava em casa na ponta dos pés, com os sapatos de salto entre os dedos, tentando flutuar com seus passos pelo assoalho da sala. Não era um erro chegar tarde, mas fazia o possível para evitar qualquer barulho. O som da noite era tão agradável, tão acolhedor, que o simples toque dos passos parecia quebrar a magia que a noite tinha em sua casa. Perdida em pensamentos ficava a rodopiar sobre si, agitando os braços ao vento, sentindo o cheiro de compota de manga nos frascos de vidro de sua mãe. Deixava ser invadida por todos os sentidos, todos os sentimentos possíveis. Gina era uma sonhadora. E seus sonhos eram tão intensos que quase podiam ser tocados. O céu, as estrelas. Tudo isso era pouco para ela. Ela queria mais.
***
Precisou enxugar os olhos com as costas das mãos, sem se preocupar em borrar ou não a maquiagem feita sem muito cuidado. O verde era cintilante, contrastando com o branco cristalino da órbita. Sentia o pulso acelerado, como uma musica de rock clássico, constante, ardente, pulsante. O sangue corria rápido, fazendo a pele se arrepiar, as maçãs do rosto atingirem um tom escarlate vivo. De todas as coisas que Gina poderia desejar, aquela estava no topo da lista. O pequeno embrulho em papel marrom não era algo que despertasse o interesse pela beleza, nem mesmo pelo tamanho.
Mas o valor das coisas não está no tamanho, nem no embrulho, mas sim no sentimento que representa.
Gina sentiu o papel grosso deslizar por entre os dedos. O barbante que prendia o embrulho era velho e gasto pelo tempo. Sentia o cheiro de pó, de mofo, de tempo passado a espera das mãos certas, dos olhos certos. Cada movimento para abri-lo era uma eternidade, os sons, os cheiros, tudo presente em um ritual quase sagrado. Da porta, seu pai a observava com a mesma expressão dos seus dias de sono. Os olhos sorridentes, o brilho do sorriso observando o encontro dos seus dois maiores tesouros. A caneca de café fumegava e enchia o quarto do velho aroma conhecido. Gina estava entorpecida. Vislumbrou a pequena letra da mãe em um cartão postal com a imagem de uma árvore de natal. Ela podia ouvir os sinos, as canções dos natais passados juntos.
***
Juntou rapidamente as coisas que precisa e colocou na mochila apertada, junto com alguns livros de poesia, um pequeno estojo com maquiagem e alguns trocados.
Tomou o ônibus e adormeceu no banco. Acordou na rodoviária, saltou na plataforma e conferiu o endereço. Pediu informações a um taxista que se dispôs a leva-la até lá. Saltou do táxi e levantou os olhos por um momento vislumbrando o brilho das luzes de neon em um letreiro grande. "Hospedaria Esperança".
Apertou a gola do casaco contra o pescoço e entrou. Seus passos faziam um barulho abafado no assoalho de madeira. O rangido das tábuas sob seus pés era como um relógio, marcando os segundos, fazendo as paredes a observarem, vigilantes mudos em cada fresta, em cada esquina. Debruçou sobre o balcão de mogno a displicentemente esbarrou na campainha. Um leve "tling" atingiu seus ouvidos. Um sorriso maroto invadiu seus lábios, uma criança travessa que cutuca uma lagarta com uma vareta de pau, sentindo o prazer do proibido em cada ato. Olhou a sua volta tentando captar todos os detalhes. Os vitrôs coloridos, um cabideiro ao lado da porta, um tapete surrado com os dizeres de "Welcome". Sentia-se em um filme antigo, como se ela fosse Jack no momento em que entra no salão de jantar do Titanic. Tamborilou com os dedos sobre o balcão. De algum lugar vindo da rua, o som leve de um violão começava a ecoar por todos os lados. Ouviu uma gaita arranhar a noite. Fechou os olhos e sentiu a musica girando em torno de si. Era tão bom que se esqueceu de quase tudo...
***
De súbito acordou no quarto. Sentiu a rigidez dos músculos das pernas, o gosto do sono na boca. Olhou a sua volta procurando algo familiar. Os olhos demoraram a se acostumar à escuridão. Quando conseguiu vislumbrar o pequeno radio relógio no criado mudo, percebeu que a noite ainda estava alta. Sentou-se na cama com os joelhos juntos do peito. Cantarolou baixinho uma canção de amor. Os versos faziam com que seu peito se aquecesse. Resolveu sair para a noite. As ruas eram desertas naquela hora, mas ela sabia onde encontrar o que precisava para preencher a solidão. 
Pegou o celular em seu bolso e digitou rapidamente o SMS: “Você continua comigo?” A resposta demorou pouco mais de 30 segundos para retornar. “Claro”. Era o suficiente. Era o tipo de resposta que você sempre poderia esperar de Thomas Hunter. Não que ele fosse um cara previsível, mas pelo fato que ele sempre seria um cara confiável. As poucas palavras nunca revelavam a enormidade dos pensamentos que pairavam em sua mente. Gina enviou outra mensagem: “No mesmo lugar em 20 minutos?” A resposta veio rápida novamente: “OK”. Colocou o celular no bolso, apanhou alguns trocados e saiu.
Lembranças de sua infância começaram a brotar em seu pensamento. Um campo verde, uma colina, cavalos no pasto, uma casinha ao lado de uma cachoeira... Tentou reter o máximo que pode aquela lembrança, enquanto a imagem ia se desvaindo lentamente dos seus pensamentos, uma neblina que se dissipa com os primeiros raios do sol.
Deixou os últimos fragmentos bailarem em frente aos seus olhos antes de fechar a porta com um baque surdo e sair.
(É preciso que eu diga algumas coisas a respeito de Thomas Hunter antes de continuar. Por exemplo, você nunca deve chama-lo apenas de Thomas, ou ainda, de senhor Hunter. Você sempre deverá chama-lo de Thomas Hunter. Outra coisa importante e não interromper seu silêncio. Deixe que ele quebre por você, pois caso o contrario aconteça, é bem provável que você vai permanecer em silêncio sozinho.
Thomas Hunter é o tipo de pessoa que não se importa com o tempo que demore em algo ser feito, desde que seja bem feito. Ele é assim desde as coisas mais complexas, até os momentos mais cotidianos. “A vida é uma só.” Ele costuma repetir entre uma garrafa e outra de whisky escocês. “E sendo assim, irei vive-la com calma”.)
Era disso que Gina precisava nesse momento. Do seu olhar aguçado, das palavras precisas, do silêncio revelador.
Thomas Hunter tinha o dom de ver além, de enxergar o óbvio quando todas as pessoas insistiam em olhar para o outro lado. Ele atribuía isso em parte, pelo fato das pessoas viverem negando constantemente tudo aquilo que as desagrada. Se algo não me faz bem, eu viro o rosto, olho para o outro lado, coloco meus óculos escuros, fixo meu olhar na ponta dos pés. "É melhor uma ignorância silenciosa à uma sabedoria barulhenta" -ele costumava repetir- "Somos condicionados a ver somente o que desperta nosso interesse imediato, nossa cobiça material, nossos instintos consumistas. Por muitas vezes queremos tanto encontrar o pote de ouro, que nos esquecemos do arco-íris."
Gina sábia que além do arco-íris, Thomas Hunter poderia ver cada gota da chuva. Era esse o motivo dela confiar nele tanto assim. Ele sempre enxergaria algo mais.
Gina sabia que não adiantava tentar apressar as coisas com Thomas Hunter, mas sabia que ele nunca demoraria tempo a mais do que o necessário para terminar algo. Fora assim que ela havia o conhecido há um ano. Parado com o copo suado a sua frente, as pedras de gelo derretendo calmamente, o olhar aparentemente perdido entre as garrafas de bebida no balcão, uma leve expressão ébria brotando em seus olhos.
Gina achou a imagem interessante e se aproximou. O homem não desviou o olhar e nem deu mostras de notar sua presença. Quando Gina fez um pequeno movimento de iniciar uma frase, Thomas Hunter colocou o dedo indicador sobre os lábios, o clássico sinal de silêncio e retornou a sua posição de contemplamento. Gina olhou por entre as garrafas e viu uma pequena borboleta tentando sair do seu frágil casulo. Ficou admirada com a percepção aguçada daquele homem, que entre tantas pessoas preferia gastar o seu tempo com a imagem quase mágica de uma borboleta saindo do seu casulo. Foi assim seu primeiro contato.
***
Encontrou-o no balcão do bar, sentado com os cotovelos apoiados sobre o tampo manchado de umidade, a sua frente um copo vazio e uma garrafa cheia, lacrada, intocada. A cena lembrava o personagem de John Green em A Culpa é das Estrelas, onde Augustus Waters desafia a si mesmo com um cigarro apagado no canto da boca, uma metáfora ao vicio como ele mesmo afirma, uma maneira de demonstrar que ele pode ser superior a aquilo que pode provocar sua morte, no caso de Augustus, o câncer.
Gina observava impassível a tudo, quando Thomas Hunter começa a cantarolar baixinho com os olhos vidrados em sua bebida. O ato é tão surpreendente que ela demorou vários segundos para identificar os versos da canção.

“I saw her today
I saw her face
It was a face I love
And I knew I had to run away
And get down on my knees and pray
That they go away”

Gina admirava a cena extasiada, sem conseguir lembrar-se de alguma outra ocasião em que Thomas Hunter pudesse ter esboçado qualquer iniciativa, por mais débil que fosse de cantar se quer um verso de qualquer musica, ainda mais uma canção assim. Jeffrey Ross Hyman, ou apenas Joey Ramone como é conhecido, deveria estar muito frustrado no momento daquela canção. Ficou pensando se ela teria sido escrita antes ou depois de ter sua namorada roubada por Johnny Ramone, seu irmão mais velho.
Passou a mão pelo braço sentindo os pelos se eriçarem, um arrepio percorrer a nuca e espalhar-se pelo corpo. Sem pensar muito bem, agindo por um simples impulso, estendeu a mão e tocou a cabeça do Thomas Hunter, um gesto tanto delicado quanto invasivo, semelhante a alguém que toca um animal selvagem, mesmo sabendo que este é domesticado.
Thomas Hunter continuou inabalável, o olhar pétreo fixo na mesma direção, a expressão de desafio penetrante presente em seus olhos. Gina acariciou de leve a parte de trás de sua orelha e baixou o olhar para seus pés, mais exatamente para o bico amarelo do sapato de verniz, que refletia um pouco da luminosidade incandescente do local junto com sua expressão culpada, como se o ato fosse obsceno e ela não fosse merecedora de oferecer aquele carinho.
–“Thomas” - As letras saíram de sua boca vagarosamente. –“Os últimos dias tem sido um inferno” – ela confidenciou olhando para as pontas descascadas das unhas, como se elas pudessem confirmar sua afirmação. –“Meu sorriso desbota a cada nascer do sol e a cada novo luar eu procuro uma nova forma de fugir da realidade. Você está aqui, mas eu não estou então... Por que tudo isso? Eu só queria entender o porquê disso!”
Terminou a frase suspirando. Como um jogador de pôquer exausto que atira suas ultimas fichas à mesa, Gina sentou-se ao seu lado, o olhar perdido no chão, imersa em uma dimensão distante dali.
Sua vontade era de confrontar Deus. De puxar-lhe as barbas brancas e olha-lo nos olhos cor de gelo e questiona-lo sobre tudo. Queria entender o motivo daquilo e não queria uma resposta vazia. Necessitava de algo maior, de algo axiomático. Talvez -ela pensava- apenas alguns minutos de arguição fossem o suficiente, apenas uma troca de olhares e um afago na cabeça. Quem sabe até um tapinha nas costas e a célebre frase de "Vai ficar tudo bem". 
“Deus não deve ser tão ruim assim”, -ela pensou- “então por que”?
Thomas Hunter tirou uma carteira de cigarros do paletó e colocou a frente dela. Ela levantou os olhos lentamente, uma expressão de duvida brotando em todo seu rosto.
Ficou contemplando estagnada a imagem da cigarreira sem expressar reação alguma, a espera de alguma instrução. Thomas Hunter endireitou o tronco, acertou o caimento do paletó, puxou um fino lenço de cambraia do bolso da camisa, bordado com suas iniciais em letras douradas na borda, passou suavemente sobre o rosto e o guardou novamente, com um movimento gracioso e preciso algo raro nos dias de hoje, herança da velha educação que há tempos deixou de ser ensinada.
Thomas Hunter fixou os olhos em Gina proferiu a primeira palavra direcionada a ela naquela noite:
-Abra.
Gina foi arrancada de sua transe de uma forma violenta por aquela voz penetrante. Olhou para Thomas Hunter, mas ele não fazia mais o mesmo, concentrado novamente em alguma imagem espetacular e invisível a olhos ignorantes a beleza.
Como uma aluna dedicada, Gina obedeceu ao seu mentor. Sentiu o frio do metal envolvendo rapidamente sua pele e instintivamente recolheu as mãos, sentindo-se ridícula com o ato.
Ao seu lado, Thomas Hunter permanecia imóvel, e Gina torceu para que ele não tivesse reparado em seu movimento. Sentia-se impotente, incapaz de realizar uma simples ação de abrir uma cigarreira de metal.
Foi então que tudo aconteceu.
Thomas Hunter encarou-a com um discreto sorriso no canto da boca. Abriu a garrafa de whisky e serviu uma dose generosa no copo sem gelo.
-Cowboy! Ou, Vaqueiro como seu pai gosta de dizer.
Estendeu o copo até o lado e voltou a falar calmamente.
-Você coloca o malte, a água, a cevada, deixa que o broto do malte germine, interrompe a germinação, faz a secagem, faz a moagem, deixa que o composto fermente, por fim faz a destilação e então o coloca em um grande barril de carvalho e o deixa repousar por anos e anos, sozinho, esquecido, adormecendo enquanto aguarda o momento de atingir o seu melhor sabor, sua melhor cor e tornar-se uma das melhores bebidas do mundo.
Depois disso, alguém vem e o engarrafa, coloca em caixas, manda para os revendedores que o colocam em prateleiras de supermercados até que alguém compre uma dessas garrafas, rompa o lacre da tampa, encha um copo e entorne a bebida. E assim, em cinco minutos a magia que levou anos para ser feita acaba.
Continuou olhando para a garrafa aberta como se pedisse desculpas pela falta de sensibilidade dos homens.
-Só, -continuou de repente- que se não fossem esses cinco minutos, a magia não existiria. Ou melhor, a magia não teria valido a pena.
Encheu uma dose em mais um copo e o levantou em direção a Gina, que fez o mesmo, aceitando e compartilhando aquele inesperado brinde.
-Aos cinco minutos de magia. –Foi o que Thomas Hunter disse.
-A magia, - Gina repetiu tocando seu copo ao dele, ambos virando o conteúdo de uma vez.
Gina colocou a cigarreira no bolso, apertou a gola do casaco e voltou para o hotel, o som do metal retinindo junto às moedas, embalando o ritmo suave de suas passadas rápidas.
Pelos cantos escuros das ruas, apenas a solidão a acompanhava, tendo vez ou outra a companhia de uma sombra disforme projetada pela de luz de algum poste, ou um raro farol amarelado de algum carro velho a trafegar aquela hora. A rua de paralelepípedos era escorregadia, seus blocos de pedra afastados e lisos por causa do sereno da madrugada e Gina precisava manter o corpo firme e o olhar atento a fim de não escorregar.
-“Aos cinco minutos”... –As palavras de Thomas Hunter não eram somente palavras, nunca era apenas aquilo que parecia. Embora fosse suficientemente claras, ela podia ouvi-lo sussurrando nas entrelinhas: “- Criança aprenda a encontrar a beleza na simplicidade. Aprenda há aproveitar o pouco enxergue a magia, faça a magia acontecer”.
Quando deu por si, estava dentro do seu quarto, os sapatos jogados ao chão, o casaco sobre a mesa, e seu corpo esparramado pela cama, debruçado sobre a cigarreira azul turquesa.
Como se reverenciasse a um achado arqueológico, Gina percorreu cada contorno do objeto metálico deslizando a ponta dos dedos pelo esmalte, sentindo as gravuras em alto relevo.
Fechou os olhos e usou apenas o tato para decifrar as figuras. Uma flor de lis ao centro, pequenas estrelas nas extremidades, e uma inscrição na parte inferior da tampa.
Gina não precisou abrir os olhos para decifrá-la. Thomas Hunter não permitiria que a frase fosse diferente.
Respirou fundo e sussurrou baixinho entre os dentes: “Carpe Diem”
No mesmo suspiro, como se se desculpasse do ato, abriu a tampa da cigarreira. Ouviu o leve click da abertura sendo imediatamente substituído pelos insinuantes acordes de Für Elise de Ludwig van Beethoven.
A composição mundialmente conhecida do compositor alemão começou a brotar da cigarreira enchendo o quarto de musica, e os seus olhos de água.
Podia ouvir sua mãe assoviando novamente aquela composição todos os dias antes de dormir. Sentou-se na cama e sentiu um cheiro de flores. Imagens se formavam na parede através dos vitrais coloridos, a mistura das cores primárias fazendo o quarto adquirir uma tonalidade de arco íris.  Uma leve brisa entreva pela fresta aberta da janela, fazendo tilintar o Mestre dos Ventos preso ao teto. Gina sabia que aquela sensação poderia demorar apenas alguns segundos e tentou aproveitá-la ao máximo. Levou as mãos em direção as luzes coloridas da janela e ficou observando a mudança de cores em sua pele.
Azul, vermelho, amarelo, a tatuagem em formato de estrela em seu pulso mudando de cor a cada movimento. –“Sou um camaleão” pensou ao som da musica. –“Um camaleão em busca da sua cor verdadeira”.
Sentou na cama abraçando os joelhos e embalou-se sozinha por alguns instantes. Fechou a cigarreira ao final da sinfonia, enxugou os olhos com as costas das mãos, arrumou sua mochila e saiu do hotel, deixando algumas notas amassadas sobre o balcão.
Digitou rapidamente um SMS: “Me leva para casa”.
Apesar de ser madrugada, a resposta levou os costumeiros 30 segundos para retornar. Contrariando toda a lógica, dessa vez Thomas Hunter não foi monossilábico.
-“Pensei que não pediria nunca”.
***
No banco do carro, Gina ressona levemente, a cigarreira aninhada em seu colo perdeu a corda e agora silencia em seus braços.
Com um sorriso de canto de boca, Thomas Hunter observa a cena, sua pequena protegida entregue ao mundo dos sonhos, absorvendo todas as respostas que o mundo poderia lhe dar.
A carta entregue junto à cigarreira continha poucas palavras, mas Gina começava a entender o valor desses momentos de silêncio.
“Garota de vidro, não deixe que a vida te faça em pedaços”.
No horizonte os raios alaranjados do amanhecer começavam a surgir. Thomas Hunter colocou seus óculos escuros, empurrou um K7 no velho toca fitas e acelerou um pouco mais, deixando Scott McKenzie embalar o restante da viagem.

“If you're going to San Francisco
Be sure to wear some flowers in your hair
If you're going to San Francisco
You're gonna meet some gentle people there”

***
Bom, talvez você me diga que não era bem isso que esperava que quisesse saber o que existe no envelope, o que aconteceu com minha mãe, e quem é afinal de contas Thomas Hunter.
Eu não o culpo.
Afinal, eu mesma desejei respostas concretas, e é da nossa natureza querer as coisas claras, objetivas, razões para tudo.
Eu também quero.
Mas eu não as tenho.
O que eu tenho é uma historia pra contar, alguma experiência, alguns lugares que vi.
E foi o que eu fiz, contei minha história pra você.
E lá se foi toda a magia da minha vida em cinco minutos.

Mas foram esses cinco minutos que fizeram toda a magia valer a pena!