terça-feira, 19 de abril de 2016

Coisas Frágeis


A Neil Gaiman, embora ele não faça ideia de que eu sou.
Obrigado por me mostrar as coisas frágeis.

- Acho que prefiro as coisas frágeis - ela disse.
- Como? - ele respondeu sem abrir os olhos e nem levantar a cabeça.
- As coisas frágeis. Acho que prefiro elas. Igual Gaiman disse, lembra? Coisas frágeis ao invés da dívida moral. 
Ele passou um tempo sem dizer nada.
- Me diga uma coisa frágil.
- Amor. Toda forma de amor é tão frágil. Mas ainda assim eu prefiro o amor. Não que eu não goste de sexo, ou de uma noite de festa, mas no final das contas eu prefiro o amor. Mesmo sabendo que ele vai se quebrar. Mesmo tendo certeza disso.
O silêncio prevaleceu por mais algum tempo, enquanto uma brisa invadia o quarto. 
Me diga uma coisa que não é frágil então - ele disse, da mesma maneira, ainda de olhos fechados.
- Amor - ela respondeu sem pensar, sem desviar os olhos do teto, onde uma mariposa ensaiava um voo ao redor da lâmpada.
Ele soergueu-se e a encarou com uma expressão confusa.
- Mas você disse que o amor era frágil.
Ela sorri, ainda encarando a mariposa. - Ele sabe a resposta melhor do que eu e ainda assim insiste em arguir-me. Não só sabe, como foi ele que me disse.
- Mas ele é frágil - sentia-se uma aluna obediente repetindo as palavras do professor - É frágil ao ponto de se despedaçar e fazer as pessoas em pedaços. Você me disse isso. Você fez Gaiman me dizer isso. Mas existe algo mais forte do que o amor? Algo mais resiliente? Não me peça explicações querido, você sabe que elas não existem. "Não lhe direi razões para amar, pois elas não existem. A razão do amor é o amor."
O sorriso em ambos os rostos era de uma pureza única.
- Menina esperta - ele disse, voltando a repousar a cabeça no colo dela, para que ela lhe afagasse os cabelos.
Ficaram assim por mais um tempo. O silêncio era preenchido pela respiração de ambos. Em algum lugar, páginas estariam sendo escritas naquele momento, e ele desejava que as ideias boas viessem quando ele tivesse papel e caneta nas mãos.
Coisas frágeis. Assim também eram as ideias. Tão intensas e tão fáceis de se perderem.
- Acho que prefiro os dias em que não tenho que escrever. 
Ela demorou um pouco para responder.
- Tenho certeza que prefiro os dias que você escreve. Pode ser na mão, em um papel amassado durante o café. Mas prefiro ainda mais quando os textos são para mim. Porque por mais frágil que eu esteja, seus textos me consertam de uma maneira única.
- Mas meus textos são coisas frágeis.

Ela suspirou sorrindo. - E por que você acha que eu gosto deles?