A Neil Gaiman, embora ele não faça ideia de que eu sou.
Obrigado por me mostrar as coisas frágeis.
- Acho
que prefiro as coisas frágeis - ela disse.
- Como? -
ele respondeu sem abrir os olhos e nem levantar a cabeça.
- As
coisas frágeis. Acho que prefiro elas. Igual Gaiman disse, lembra? Coisas
frágeis ao invés da dívida moral.
Ele
passou um tempo sem dizer nada.
- Me diga
uma coisa frágil.
- Amor.
Toda forma de amor é tão frágil. Mas ainda assim eu prefiro o amor. Não que eu
não goste de sexo, ou de uma noite de festa, mas no final das contas eu prefiro
o amor. Mesmo sabendo que ele vai se quebrar. Mesmo tendo certeza disso.
O
silêncio prevaleceu por mais algum tempo, enquanto uma brisa invadia o quarto.
Me diga
uma coisa que não é frágil então - ele disse, da mesma maneira, ainda de olhos
fechados.
- Amor -
ela respondeu sem pensar, sem desviar os olhos do teto, onde uma mariposa
ensaiava um voo ao redor da lâmpada.
Ele
soergueu-se e a encarou com uma expressão confusa.
- Mas
você disse que o amor era frágil.
Ela
sorri, ainda encarando a mariposa. - Ele sabe a resposta melhor do que eu e
ainda assim insiste em arguir-me. Não só sabe, como foi ele que me disse.
- Mas ele
é frágil - sentia-se uma aluna obediente repetindo as palavras do professor - É frágil ao
ponto de se despedaçar e fazer as pessoas em pedaços. Você me disse isso. Você
fez Gaiman me dizer isso. Mas existe algo mais forte do que o amor? Algo mais
resiliente? Não me peça explicações querido, você sabe que elas não existem.
"Não lhe direi razões para amar, pois elas não existem. A razão do amor é
o amor."
O sorriso
em ambos os rostos era de uma pureza única.
- Menina
esperta - ele disse, voltando a repousar a cabeça no colo dela, para que ela
lhe afagasse os cabelos.
Ficaram
assim por mais um tempo. O silêncio era preenchido pela respiração de ambos. Em
algum lugar, páginas estariam sendo escritas naquele momento, e ele desejava
que as ideias boas viessem quando ele tivesse papel e caneta nas mãos.
Coisas
frágeis. Assim também eram as ideias. Tão intensas e tão fáceis de se perderem.
- Acho
que prefiro os dias em que não tenho que escrever.
Ela
demorou um pouco para responder.
- Tenho
certeza que prefiro os dias que você escreve. Pode ser na mão, em um papel
amassado durante o café. Mas prefiro ainda mais quando os textos são para mim. Porque
por mais frágil que eu esteja, seus textos me consertam de uma maneira única.
- Mas
meus textos são coisas frágeis.
Ela
suspirou sorrindo. - E por que você acha que eu gosto deles?
