Era um dia entediante. Apesar do ar ligado no máximo, algo fazia com que a loja se tornasse insuportavelmente quente.
"Os dias tem sido um inferno" - essa era a frase que permeava sua mente.
As contas que chegavam sem parar, o aluguel atrasado a uma semana, a perspectiva de procurar uma nova casa... Inferno! Era isso que ela repetia. Encostando a cabeça no tampo de vidro da mesa, tentou amortecer um pouco a dor que persistia desde a manhã. Massageando de leve a têmpora ao mesmo tempo que afagava seus cabelos, ela buscava escapar daquele lugar pelo menos por alguns minutos.
Em sua mente, as imagens da viagem que se aproximava, vagueavam de lado a lado. Muralhas velhas, animais exóticos, nomes famosos... viajar, viajar, viajar... não pensava em mais nada nos últimos dias, nas últimas semanas.
Peru. Era lá que esperava encontrar as respostas que tanto buscava.
Andar em uma Lhama, se perder em uma cidade ainda desconhecida, ficar sem saber o que falar, gastar dinheiro que não tinha, dormir na rua.
Tudo isso à colocava em transe e as vezes era preciso que alguém a sacudisse para que voltasse ao mundo real.
E era isso que acontecia agora.
As palavras "carro", "pode" e "ele é apaixonado" não fizeram muito sentido a princípio.
Sua expressão de incompreensão e seus cabelos desgrenhados devem ter causado uma impressão interessante no homem a sua frente. O sorriso que lhe foi lançado transmitia uma estranha expressão de alguém que achava graça.
- Talvez ele pense que eu sou louca - pensou consigo mesma.
O homem inciava a história novamente, algo sobre a paixão de um garoto por carros, e se ele poderia mostrar os carros ao menino.
Carros, menino. - Desculpe, mas que menino? As imagens da viagem ainda vagueavam em seu pensamento, o que fazia com que a história ainda não tivesse nexo.
- O meu menino. Meu filho. Ele é apaixonado pelos carros. Eu poderia mostrar os carros a ele?
Então era isso. Não era um cliente de verdade. Era alguém querendo brincar de parque de diversão dentro da loja. Mas onde está essa criança feliz afinal de contas?
- Ele está lá.
Em um canto da loja, um garoto de olhar perdido observava a local, sem fixar o olhar em ponto algum, parecendo flutuar.
- Ele parece comigo - pensou. Não pertence a esse lugar.
Antes de conseguir formular qualquer outro pensamento, ouviu de algum lugar a voz do pai que falava.
- Ele é autista.
Autista. Ficou pensando um pouco no que aquilo implicaria, em qual seria a definição de autismo e por que cargas d'água ele tinha que escolher justo aquela loja para ver os carros.
- Então, eu poderia mostrar os carros. Prometo que ele não vai estragar. É um bom garoto.
Ok, Ok. Afinal de contas, acho que não vai matar ninguém não é mesmo? - pensou consigo mesma.
O pai agradeceu e saiu falando baixo com o garoto que continuava a não contemplar nada em específico. Até que algo aconteceu.
No momento em que a primeira porta foi aberta, e o garoto entrou no primeiro carro, algo mudou. Seu olhar se fixou em cada parte, cade detalhe do painel. Suas pequenas mãos começaram a percorrer as curvas do couro do banco, todas as texturas, todos os pontos.
De longe ela observava o pai falando baixo, explicando a mecânica, contando uma história talvez. O garoto não parecia ouvir. Apenas permanecia em sua apreciação quase sensual no interior do sedã importado.
Por um momento ela desejou ser olhada, encarada, admirada, da mesma forma que o pequeno olhava para aquele carro.
Era hipnótico observar o garoto. Pelas caixas acústicas do som ambiente começava a escorrer os acordes de uma música. A primeira música que ela conseguia ouvir naquele dia. David Bowie começava a despejas as palavras marcantes Heroes.
Sentiu um sorriso brotar no canto da boca.
Though nothing, will keep us together
We could steal time, just for one day
We can be heroes, forever and ever
What'd you say?
Sua vontade era sair dançando pelo salão da loja, rodando sobre si mesma, ganhando o mundo, aquele mundo, ganhando o mundo todo.
"Os dias tem sido um inferno" - essa era a frase que permeava sua mente.
As contas que chegavam sem parar, o aluguel atrasado a uma semana, a perspectiva de procurar uma nova casa... Inferno! Era isso que ela repetia. Encostando a cabeça no tampo de vidro da mesa, tentou amortecer um pouco a dor que persistia desde a manhã. Massageando de leve a têmpora ao mesmo tempo que afagava seus cabelos, ela buscava escapar daquele lugar pelo menos por alguns minutos.
Em sua mente, as imagens da viagem que se aproximava, vagueavam de lado a lado. Muralhas velhas, animais exóticos, nomes famosos... viajar, viajar, viajar... não pensava em mais nada nos últimos dias, nas últimas semanas.
Peru. Era lá que esperava encontrar as respostas que tanto buscava.
Andar em uma Lhama, se perder em uma cidade ainda desconhecida, ficar sem saber o que falar, gastar dinheiro que não tinha, dormir na rua.
Tudo isso à colocava em transe e as vezes era preciso que alguém a sacudisse para que voltasse ao mundo real.
E era isso que acontecia agora.
As palavras "carro", "pode" e "ele é apaixonado" não fizeram muito sentido a princípio.
Sua expressão de incompreensão e seus cabelos desgrenhados devem ter causado uma impressão interessante no homem a sua frente. O sorriso que lhe foi lançado transmitia uma estranha expressão de alguém que achava graça.
- Talvez ele pense que eu sou louca - pensou consigo mesma.
O homem inciava a história novamente, algo sobre a paixão de um garoto por carros, e se ele poderia mostrar os carros ao menino.
Carros, menino. - Desculpe, mas que menino? As imagens da viagem ainda vagueavam em seu pensamento, o que fazia com que a história ainda não tivesse nexo.
- O meu menino. Meu filho. Ele é apaixonado pelos carros. Eu poderia mostrar os carros a ele?
Então era isso. Não era um cliente de verdade. Era alguém querendo brincar de parque de diversão dentro da loja. Mas onde está essa criança feliz afinal de contas?
- Ele está lá.
Em um canto da loja, um garoto de olhar perdido observava a local, sem fixar o olhar em ponto algum, parecendo flutuar.
- Ele parece comigo - pensou. Não pertence a esse lugar.
Antes de conseguir formular qualquer outro pensamento, ouviu de algum lugar a voz do pai que falava.
- Ele é autista.
Autista. Ficou pensando um pouco no que aquilo implicaria, em qual seria a definição de autismo e por que cargas d'água ele tinha que escolher justo aquela loja para ver os carros.
- Então, eu poderia mostrar os carros. Prometo que ele não vai estragar. É um bom garoto.
Ok, Ok. Afinal de contas, acho que não vai matar ninguém não é mesmo? - pensou consigo mesma.
O pai agradeceu e saiu falando baixo com o garoto que continuava a não contemplar nada em específico. Até que algo aconteceu.
No momento em que a primeira porta foi aberta, e o garoto entrou no primeiro carro, algo mudou. Seu olhar se fixou em cada parte, cade detalhe do painel. Suas pequenas mãos começaram a percorrer as curvas do couro do banco, todas as texturas, todos os pontos.
De longe ela observava o pai falando baixo, explicando a mecânica, contando uma história talvez. O garoto não parecia ouvir. Apenas permanecia em sua apreciação quase sensual no interior do sedã importado.
Por um momento ela desejou ser olhada, encarada, admirada, da mesma forma que o pequeno olhava para aquele carro.
Era hipnótico observar o garoto. Pelas caixas acústicas do som ambiente começava a escorrer os acordes de uma música. A primeira música que ela conseguia ouvir naquele dia. David Bowie começava a despejas as palavras marcantes Heroes.
Sentiu um sorriso brotar no canto da boca.
Though nothing, will keep us together
We could steal time, just for one day
We can be heroes, forever and ever
What'd you say?
Sua vontade era sair dançando pelo salão da loja, rodando sobre si mesma, ganhando o mundo, aquele mundo, ganhando o mundo todo.
Sentir que alguém a olhasse daquela forma apaixonada e dançasse junto, que a tomasse nos braços e a levasse dali.
Seu sorriso deve ter tomado conta de todo seu rosto sem que ela notasse, pois quando o pai a olhou, seu sorriso também abriu.
O garoto saia do carro e falava baixinho com seu pai. Não era possível entender o que ele dizia, mas seu olhar estava mudado. Era focado em suas mãos. Quando ele passou, ela notou que perdido entre seus dedos havia uma miniatura do carro onde ele passou o tempo.
A sensação de desejo tomou conta imediatamente. Viajar, conhecer o mundo. Afinal, em diferentes perspectivas, era isso que havia acontecido. Um sonho nas mãos que havia se tornado realidade.
Entre os pensamentos, conseguiu ouvir a voz baixa do pai sussurrar enquanto conduzia o filho para a saída.
- Ele pediu para agradecer a moça de cabelo amarelo. - e se foi.
Durante um certo tempo, a palavra amarelo ficou indo e vindo em sua cabeça. Não havia notado que o garoto tinha reparado minimamente nela. No entanto, suspirou, entregando os pontos. Era uma pessoa especial. E havia tornado ela especial naquele momento.
Na rádio, Bowie dizia a única frase capaz de traduzir aquilo que ela sentia.
We can be heroes, just for one day!
Seu sorriso deve ter tomado conta de todo seu rosto sem que ela notasse, pois quando o pai a olhou, seu sorriso também abriu.
O garoto saia do carro e falava baixinho com seu pai. Não era possível entender o que ele dizia, mas seu olhar estava mudado. Era focado em suas mãos. Quando ele passou, ela notou que perdido entre seus dedos havia uma miniatura do carro onde ele passou o tempo.
A sensação de desejo tomou conta imediatamente. Viajar, conhecer o mundo. Afinal, em diferentes perspectivas, era isso que havia acontecido. Um sonho nas mãos que havia se tornado realidade.
Entre os pensamentos, conseguiu ouvir a voz baixa do pai sussurrar enquanto conduzia o filho para a saída.
- Ele pediu para agradecer a moça de cabelo amarelo. - e se foi.
Durante um certo tempo, a palavra amarelo ficou indo e vindo em sua cabeça. Não havia notado que o garoto tinha reparado minimamente nela. No entanto, suspirou, entregando os pontos. Era uma pessoa especial. E havia tornado ela especial naquele momento.
Na rádio, Bowie dizia a única frase capaz de traduzir aquilo que ela sentia.
We can be heroes, just for one day!
