“Se essa rua, se essa rua fosse minha.
Eu mandava, eu mandava ladrilhar.
Com pedrinhas, com pedrinhas e brilhantes.
Só pro meu, só pro meu amor passar.”
Olhou no relógio de pulso e
conferiu as horas mais uma vez automaticamente. Seu voo estava atrasado e
deveria demorar ainda uns tantos minutos até conseguir embarcar. Passou as mãos
pelo cabelo e em seguida cofiou a barba hirsuta enquanto se encaminhava lentamente
para junto do balcão de atendimento em busca de alguma vaga informação a
respeito do tempo que ainda levaria até conseguirem despacha-lo para seu
destino.
Parou no meio do caminho ao
observar um casal que se auto retratava com um celular de ultima geração, com
câmera frontal, flash de led e todas
as bugigangas que colocam nos aparelhos de hoje em dia, e a todo o momento
fazia poses e biquinhos para a câmera. Ficou olhando a cena estarrecido
pensando no resultado daquelas fotos nas redes sociais, as legendas de juras de
amor eternas que não duram até a próxima estação, os comentários dos amigos
desejando boa viagem... Raul foi despertado do seu devaneio pelo vibracall do seu celular, um Samsung
E1207, que tinha como principal atrativo o fone de ouvido para rádio FM,
agenda, alarme, calculadora e cronômetro. “Bem
mais do que eu realmente preciso”, chegava a afirmar diversas vezes
referindo-se ao cronômetro.
Atendeu ao telefone com a voz um
pouco rouca, dando a impressão que acabara de acordar. A pessoa do outro lado
da linha falou depressa, e Raul apenas maneou a cabeça, anuindo para um
interlocutor invisível.
Antes de encerrar o telefonema
com um “tchau” seco, teve sua atenção voltada para as costas de uma garota que
passava em sua frente dirigindo-se a área dos guichês das companhias aéreas.
Contrastando com sua pele branca,
as linhas bordadas de preto revelavam uma das mais célebres frases do poeta
carioca Vinícius de Moraes tatuada em suas costas nua.
“A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.
Mas Raul estava indo para o Rio
de Janeiro, berço dos grandes poetas brasileiros, e Noel acabava de fazer uma
piada com ele pelo telefone, justamente parafraseando Vinícius.
“A vida é a arte da contradição meu querido!” - Noel dizia entre um
sorriso e outro. “Da contradição. Aproveite
e tire muitas fotos aos pés do Cristo Redentor.” Terminou o telefonema
assim, fazendo referência à aversão de Raul em tirar fotos.
Ou melhor, em sair nas fotos!
Achava uma grande perda de tempo,
afinal você possui a memoria para isso. Você não precisa de um pedaço de papel
colorido para lembrar onde esteve. Se precisar recordar algo, volte ao lugar,
encontre a pessoa, reviva aquilo. Não seja egoísta guardando só para si algo
que vai perder a cor com o tempo. Raul se perdia em meio a esses pensamentos quando
sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se bruscamente tomado de susto e deparou-se
com o casal apaixonado que o encarava sorridente.
“- Excuse me sir,
could you take a picture of us?” – O rapaz perguntou.
Raul encarou a câmera nas mãos do
jovem loiro a sua frente que sorria docemente e começou a pensar na ironia
daquela cena, quando o loiro segurou a câmera junto ao rosto e fez a mímica de
alguém tirando foto e a estendeu para Raul, na tentativa de fazê-lo entender
seu pedido.
Raul suspirou e falou baixinho
entre os dentes: -“ Turista maldito, eu
sei falar inglês!”
O jovem sorriu sem entender e
estendeu a câmera novamente, dessa vez fazendo o barulho do flash. “Click
click.”
Raul suspirou pegando a câmera
das mãos do rapaz e pensou na arrogância dos turistas estrangeiros que chegam
ao seu país querendo falar sua língua mátria e esperando que todos lhe
entendam, agindo como se estivessem com um povo incivilizado quando o mesmo não
compreende seus anseios. Segurou a câmera por alguns segundos e respondeu em seu
mais perfeito inglês.
“-Yes, sure!”
O casal sorridente se preparou
com suas poses junto ao vitro do saguão com os aviões ao fundo.
“A vida é a arte da contradição” Raul repetiu enquanto ajustava o
foco da lente.
Apesar de não se deixar
fotografar, ele tinha como melhor amigo um fotógrafo que insistia em lhe
ensinar todas as manhas e macetes com as poderosas câmeras fotográficas.
Posicionou a câmera e perguntou
ao casal:
“Are you ready?”
“-Yes!!” responderam juntos sorrindo com a luz do flash.
Raul desligou a câmera e devolveu
ao rapaz que o agradecia empolgado e falava em um inglês com sotaque e muito
rápido, que Raul teve um pouco de dificuldade em compreender.
Novamente o jovem loiro fez o
gesto de tirar a foto, mas agora aproximando as mãos e juntando Raul a eles.
Raul respondeu espantado e fez o
gesto mimico de apontar para o próprio peito e em seguida para os dois.
“- Eu com vocês?” Disse em português.
“Yes! You with us.” A garota respondeu abrindo um sorriso maior do
que o decote da sua blusa.
Raul se preparou para usar todo o
seu inglês com uma desculpa qualquer, quando os auto falantes anunciaram: -"Voo
42153 com destino ao aeroporto Santos Dummont Rio de Janeiro, embarque imediato
portão 3."
Raul sorriu. Dessa vez Vinícius
vencera Noel. Existem tantos desencontros
pela vida.
“Sorry, but that is my
flight. I gotta go now. I’m pleased to meet you. Goodbye.”
Pegou suas coisas e dirigiu-se
rapidamente para seu portão. Dentro de pouco tempo estaria na cidade maravilhosa.
Com o comandante inspirado, o voo
demorou pouco mais de 40 minutos para chegar ao destino. Raul observava da
pequena janela, a cidade ir ficando distante, as paisagens perdendo a forma, e
tudo tomando cada vez mais a cara de um Google
Maps. Era fascinante admirar tudo aquilo, passear sobre as nuvens, ver o
céu se perder no horizonte. Por mais que Raul viajasse, ele sempre ficava
fascinado com a visão, sentia as mãos suarem durante a decolagem, o coração
disparar no momento de deixar o chão, e a mesma sensação na hora do pouso.
Alguns momentos após o comandante
da aeronave informar o tempo restante de voo, Raul viu o mar se aproximando, o
avião cada vez mais perto do mar, e finalmente quando estava quase rompendo a
lamina de água da superfície, sentiu o trem de pouso tocar o solo e o voo
chegar ao fim. Desafivelou o cinto, esperou as portas se abrirem, pegou sua
bagagem de mão e dirigiu-se a saída em busca de um taxi.
-Pra onde vamos senhor? Um taxista
moreno e forte perguntou.
-Copacabana Palace por favor-
Raul informou.
O taxista arrancou cortando a
cidade. No rádio um samba tocava incessantemente. Raul observava as placas, os
locais famosos estampados em letras brancas contra um fundo verde. Logo o
taxista puxou assunto, com aquela fala arrastada de carioca, começou a
questiona-lo sobre o motivo da viagem, falou dos lugares, falou dos problemas e
foi assim até chegar na Avenida Atlântica 1702. Raul pagou a corrida e saiu.
Antes do motorista ir embora, abaixou e vidro e falou:
“-Que dê
tudo certo na sua viagem senhor.”
Não esperou a resposta e seguiu seu caminho,
perdendo-se entre um mar de carros amarelos.
Raul ficou um segundo
acompanhando o taxi com o olhar até se voltar e encarar a porta giratória do
Copa. Não se conteve e deu alguns passos para trás a fim de contemplar a
magnitude do hotel.
Com sua fachada sóbria e
imponente, o hotel fundado por Octávio Guinle na
década de 20 estende-se majestoso margeando a praia. Na entrada, a estátua do
jornalista carioca Ibrahim Sued permanece imutável com o olhar perdido para o
mar.
-Que honrosa maneira de ser eternizado. Raul pensou. –Olhando eternamente para a praia de
Copacabana.
No topo do Copa, a bandeira
brasileira tremulava ao vento. Abaixo, uma série de bandeiras de diversos
países perfilam sobre o restaurante.
Raul respirou fundo e passou
pelas portas giratórias.
O cheiro do Copacabana Palace é
inconfundível. Uma mistura de essências perfuma os corredores, elevadores e
quartos. Deslocando-se elegantemente uniformizados, os funcionários da recepção
faziam tudo acontecer com uma simetria perfeita, a gentileza estampada em cada
sorriso.
“-Pelo preço que cobram à diária, é preciso de muitos sorrisos mesmo”.
Pensou sozinho.
Realizou o check-in na recepção e
um mensageiro o acompanhou até o quarto. Sua suíte estava situada no prédio
anexo, no 9° andar com vista para o mar. Raul passou ao lado da piscina de água
cristalina, pegou o elevador e se dirigiu a sua suíte.
Ao entrar no quarto, ficou
impressionado. Já havia visto fotos da cama king size, mas assim vista de perto
era ainda mais impressionante. Deixou a mochila no chão e começou a explorar o
quarto. Encontrou um cartão em papel de alta qualidade com o logotipo do hotel
e escrito à mão uma mensagem de boas vindas.
“Prezado Sr. Cortez.
É um prazer recebe-lo no Copacabana Palace Hotel!
Sinta-se em casa e desfrute sua estada conosco.”
O cartão era assinado pela
Gerente de Relações.
Raul continuou a andar pelo
quarto. Abriu as janelas, deixando a brisa que vinha do mar encher o recinto.
Sentou na escrivaninha e folheou os livros que se encontravam a sua frente:
cardápio, livros de fotos, lista telefônica do hotel. A sua direita, um bloco
de anotações e um lápis. Tudo delicadamente estampado com o logotipo do hotel.
Raul abriu uma pasta que se encontrava juntos aos livros e encontrou 3 folhas
de papel A4 com a mesma marca no cabeçalho e rodapé. Abriu um sorriso e
rabiscou algumas palavras.
De súbito sentiu um cansaço e se
deu conta de que estava acordado desde muito cedo. Levantou-se, espreguiçou-se
e ligou a TV. Olhou para os lados como alguém que procura o momento certo de
fazer uma pequena travessura e não resistiu mais.
Entregando-se aos seus instintos
infantis, Raul jogou-se na cama, pulando sem parar.
Acalmou-se um pouco e ajeitou-se
entre os travesseiros. Ficou olhando a TV por alguns momentos antes de
adormecer.
***
Acordou com o telefone do seu
quarto tocando. Esfregou os olhos com as costas das mãos e olhou no relógio ao
lado da cama. Já era noite. Atendeu e ouviu a recepcionista dar-lhe uma vez
mais as boas vindas e perguntar se precisava de algo. Raul agradeceu a
hospitalidade e desligou. Foi para o banheiro, encheu a banheira e entrou.
Ficou ali relaxando até sentir as
mãos e os pés enrugarem. Saiu da água, vestiu um roupão e foi olhar a vista
maravilhosa da sua sacada ao luar.
Da janela do seu quarto, Raul
observa a Praia de Copacabana estender-se a sua frente. Flashes disparam a todo
momento, grupos de turistas se acotovelam para conseguir um melhor ângulo, para
conseguir um melhor enquadramento.
Viu um ônibus parar em frente ao
hotel e uma série de turistas descerem, tirarem fotos e seguirem sua
peregrinação pelo Rio. O Copacabana Palace era um dos pontos turísticos mais
visitados da cidade.
Na sua cabeça, aquelas imagens
formavam um mosaico colorido, as fotos emolduradas nas paredes, as atualizações
insanas no Facebook, ou ainda pior, as fotos que nunca sairiam da câmera, que
se perderiam em um cartão de memorias qualquer ou simplesmente seriam apagadas
para dar espaço a uma nova imagem.
-E qual o sentido disso tudo?
–pensou.
-Qual o significado, o objetivo
de roubar um momento de alguém, para simplesmente joga-lo fora depois. Não
seria mais justo recorda-lo, dividindo-o com alguém? Dividir as lembranças, as
sensações, ao invés de egoistamente levar esse momento só para você?
Um álbum de fotos desbotadas. Não
era isso que ele queria. Havia lido recentemente uma frase de John Green no seu
novo livro O Teorema Katherine, e
havia se identificado imediatamente. No livro, o protagonista Colin Singleton
revolta-se ao ver um antigo álbum de fotografias:
"Eu vou
ter isso, - Colin pensou. - Eu vou ter. Eu vou. Com a Katherine. Mas não vou
ser só isso, - ele decidiu-. Vou deixar para trás algo mais que um álbum de
fotografias no qual sempre pareço velho...”
Lembrou-se da ultima
semana passada em São Paulo e do trabalho apresentado por Noel em seu Workshop.
Raul havia ido assistir a apresentação. Sentia-se orgulhoso pelo trabalho do
amigo, e abismado com as imagens retratadas por grandes fotógrafos, pelos
prêmios Pulitzer conquistados a base
de dor, sofrimento e morte.
Em uma das fotos Greg
Marinovich retratava o exato momento em que um homem com o corpo todo em chamas
era brutalmente assassinado por apoiadores do Congresso Nacional Africano por acreditarem que ele era um espião do Partido da Liberdade Inkatha.
Na outra imagem, ainda mais
chocante, Kevin Carter capturou o
momento em que um abutre observava uma criança moribunda que tentava chegar a
um campo de alimentação da ONU no Sudão. Questionado algum tempo depois se
havia ajudado a criança, Kevin apenas disse que estava lá para fazer seu
trabalho.
Foi duramente criticado pelo jornal St.
Petersburg Times, da Flórida, que chegou a dizer:
"O homem ajustando suas lentes para capturar
o enquadramento exato daquele sofrimento poderia muito bem ser um predador, um
outro urubu na cena."
Pouco
tempo depois de ganhar o Pulitzer, Carter se suicidou. Em sua carta, ele faz
referências à foto que o tornou mundialmente famoso:
“Estou assombrado pelas vívidas memórias de
mortes e cadáveres e raiva e dor... de morrer de fome ou de crianças feridas,
de loucos com dedos no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos
assassinos...”
Lembrou-se da musica da banda
irlandesa The Cranberries, Zombie que
falava justamente sobre isso em alguns trechos. Raul adorava aquele som, a voz marcante
de Dolores
O'Riordan que ficava na cabeça, envolvendo o pensamento, a batida constante da
guitarra.
Enquanto observava a praia, começou a cantar:
“Another head hangs slowly,
Child is slowly taken.
And the violence caused such silence,
Who are we mistaken?
But you see, it's not me, it's not my family.
In your head, in your head they are fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bones and their guns.
In your head, in your head, they are crying...
In your head, in your head,
Zombie, zombie, zombie”
Child is slowly taken.
And the violence caused such silence,
Who are we mistaken?
But you see, it's not me, it's not my family.
In your head, in your head they are fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bones and their guns.
In your head, in your head, they are crying...
In your head, in your head,
Zombie, zombie, zombie”
Raul ficou ali um tempo perdido com o
olhar no horizonte.
Zumbis.
Seria
isso?
Isso que
teríamos nos tornado? Repetindo sempre
os mesmos gestos mecânicos, comprando, usando, fotografando, curtindo e
compartilhando?
Havia
lido recentemente um artigo que falava a respeitos das curtidas do Facebook.
Pessoas
sofrendo e tendo suas imagens curtidas na rede mundial, da mesma forma que
alguém curte as fotos de uma balada.
“What’s in your head?”
A frase permanecia na sua cabeça.
E as fotos? Para que servem as
fotos? Para serem editadas em um programa de Photoshop e serem usadas em perfis
falsos de redes sociais? Para mascarar imperfeições imperceptíveis, moldar
padrões de modas e nos tornar pessoas que não somos justamente para mostrar
para pessoas que não gostamos?
Raul observava da janela e se
perdia entre esses pensamentos.
Quantos perfis falsos existiam,
justamente por causa das fotos. Você enxerga só o que a outra pessoa deseja que
você veja, enquadrando seu melhor angulo, esperando somente a melhor luz, nunca
pensando em mostrar realmente seus traços naturais e verdadeiros, nunca querendo
usar um angulo real, uma roupa do dia a dia, uma pose sem batom.
A vida real não permite isso,
-pensava- não permite que você aguarde uma boa luz, ou fica esperando uma
correção digital. Quando você consegue a melhor luz, o melhor foco é por que o
momento permitiu, por que a hora era a certa.
São esses momentos que
precisamos. Os momentos verdadeiros, as luzes verdadeiras, os abraços apertados.
Não um monte de imagens coloridas e moldadas no computador como massinha de
modelar.
Espreguiçou-se e conferiu as
horas no relógio de pulso. A noite era agradável e Raul decidiu dar uma volta
pelo calçadão. Da sua janela ele observava o mosaico de pedras pretas e brancas
da orla da praia, mais um símbolo de Copacabana. Pegou suas coisas e saiu,
deixando para trás o som dos seus passos ecoando pelo corredor.
Chegando à rua, deparou-se com um
aglomerado de pessoas de câmeras nas mãos, os flashes disparando
incessantemente. “Provavelmente algum artista, alguma celebridade” - pensou-.
Algo nem um nem um pouco raro naquela cidade, muito menos naquele hotel.
Afinal o Copacabana Palace é
reconhecidamente o mais renomado hotel do Brasil, hospedando ao longo de
décadas, membros da realeza, estrelas de cinema, teatro e música, assim como políticos
e grandes empresários. Com seus mais de 240 quartos, era o lar preferido de
muitas celebridades em visitas ao Rio.
Quando Raul anunciou aos amigos
que se hospedaria ali, as frases foram unanimes:
- Tire muitas fotos!
Ele não entendia o motivo de
tanto fascínio pelas fotos. Afinal era só entrar na página do hotel na internet
e ver as imagens.
Pra que mais fotos?
“-Ora Raul, por que você vai
estar nelas!” - uma amiga disse.
Mas se você quer ver a mim, eu
estou aqui. Se quiser ver fotos do hotel, veja no site. Se quiser ver ambos,
venha comigo.
Eu não vou precisar das fotos
para me lembrar. E não vou precisar coloca-las em uma rede social para provar
que fui. Então não! Eu não preciso de
fotos!
Foi assim que ele terminou a
conversa. Era sempre assim.
Raul não teve muita dificuldade
em desviar da multidão. Afinal ele deveria ser a única pessoa a andar na
direção oposta aos flashes.
Seguiu pela orla da praia
caminhando lentamente. O vento refrescante trazia um leve aroma de maresia, o
barulho das ondas misturado ao barulho da cidade.
A visão era magnífica e Raul
chegou a parar de caminhar. Agora conseguia entender de onde vinha tanta
inspiração dos grandes poetas. As canções de João Gilberto, os versos de
Drummond.
Ao longe o Cristo Redentor
erguia-se majestosamente no alto do morro do Pão de Açúcar, estendendo sua
benção de braços abertos sobre toda a cidade.
Em outro estremo, os cabos de aço
do bondinho cruzavam o céu estrelado indo em direção ao Corcovado.
Raul respirou fundo, deixando o
ar salgado invadir seus pulmões. Voltou a caminhar por mais alguns minutos,
passando pela estatua de Drummond sentado a beira mar. Uma multidão fazia fila
para tirar fotos ao seu lado. Raul esperou pacientemente e quando chegou sua
vez, simplesmente sentou-se ao seu lado e ficou ali alguns momentos, olhando-o
de perto, tentando captar cada fagulha de inspiração, tentando compreender de
onde vieram tantos grandes textos, tantas grandes poesias. Sentiu um arrepio
correr pelo corpo, aquela proximidade tão intima aquele momento tão incrível.
Ele não precisaria de fotos para recorda-lo. Levantou-se e fez uma leve
reverencia aos pés do poeta. “No mar
estava escrito uma cidade” era a frase escrita ao seu lado. Raul
despediu-se silenciosamente e voltou a caminhar perdendo-se entre imagens
incríveis da cidade maravilhosa, até se cansar e parar para tomar uma água de
coco à beira mar.
Sentou-se sozinho em uma mesa e
ficou parado, pensando trivialidades. Adorava viajar embora odiasse ficar longe
de casa. Noel divertia-se muito as suas custas com aquilo, usando esse fato
para fortalecer ainda mais sua teoria da contradição.
“- Viagem astral meu querido. Essa é sua salvação!” - Ele sempre
dizia, referindo-se a Joe, personagem da escritora inglesa Joanne Harris no
livro Vinho de Amoras. “- Compre umas
National Geographic e vá dormir mais. Era
assim que Joe fazia!”
Tomou um gole de água de coco
quando reparou na mesa ao seu lado.
Sentada sozinha, uma jovem de
cabelos loiros amarrados em um rabo de cavalo brincava com a tela do celular.
Ela sorria de uma forma contagiosa, de uma forma que dava vontade em
compartilhar o sorriso.
Raul observou o contorno do seu
rosto, os cílios bem pintados, o formato e a destreza das mãos. Os olhos
possuíam um brilho incandescente que acompanhava o movimento dos dedos e as
mudanças de imagens na tela.
Por alguns momentos ele sentiu
uma curiosidade em saber o que causava tanta alegria naquele olhar.
Tomou mais um gole de água de
coco, quando seus olhares se cruzaram.
Raul sentiu um frio percorrer
imediatamente a espinha, e o sorriso da garota se abrir para ele.
“-Oi.” – ela disse sorrindo.
Raul ficou momentaneamente
paralisado. Não esperava por isso. Colocou o coco na mesa e respondeu:
“-Oi.” Também tentando sorrir.
Ela continuou sorrindo e
perguntou: “-Você é escritor?”
Ele fez cara de paisagem, não
entendo a pergunta, até se dar conta da camiseta que estava usando.
Estampado em seu peito a frase do
escritor americano Ernest Hemingway era uma lenda no mundo literário.
"Write drunk; edit sober."
Raul sorriu olhando a própria
camiseta.
“-Não. É apenas um
presente.”
Um presente de Noel claro,
com seu terrível gosto por boleros antigos e bebidas novas.
“-Um presente inteligente”
– ela disse.
Raul ficou lembrando o dia
em que Noel havia lhe entregado a camiseta e contado a história da frase.
“Então... Não sei se ele escreveu isso na parede de
um bar... mas sei que no bar "La
Bodeguita Del Medio" em Cuba, ele era freguês assíduo e escreveu nas
paredes. Depois isso se tornou uma tradição no local... Dizem que ele
sempre alugava um quarto no hotel ao lado, por que vez ou outra saia carregado
de lá.”
Foi tirado de sua transe
por um som distante de voz feminina.
“-Desculpe.”
Ela sorriu.
“- Carol. Eu disse que meu
nome é Carol.” – ela repetiu com a mão estendida em sua direção.
Raul levantou-se e foi em
direção da sua mesa.
“-Meu nome é Raul.” –
disse apertando sua mão.
“-Me faz companhia Raul? –
ela perguntou sem soltar sua mão. - Estou sozinha nessa cidade, perdi meu voo e
viajo só amanhã. Não pense mal de mim - ela disse - mas eu gostei do seu jeito,
e gostei da camiseta. – abaixou o olhar e sorriu envergonhada soltando sua mão.
– Mas se não quiser tudo bem...”
Ela disse tudo em um só fôlego, como
se quisesse se justificar e se desculpar ao mesmo tempo, como se fosse perder a
coragem caso parasse no meio da frase. Raul contemplou mais uma vez seu rosto,
as expressões de duvida, esperança, timidez e alegria se misturando
constantemente. Abriu um leve sorriso e deixou o poeta falar por ele.
“- A vida é arte do encontro, não é
mesmo?” – ele disse sentando ao seu lado.
“- Eu adoro Vinicius.” – ela respondeu.
Raul ajeitou-se na cadeira, as pernas
compridas e desengonçadas sob a mesa.
“-Mas eu fico com uma condição.” – ele
disse.
Durante um segundo o rosto de Carol
assumiu uma expressão de dúvida, um pouco de medo e tensão, mas em seguida
voltou a sorrir com certeza. Havia decidido confiar em Raul.
“-E qual é a condição?”
Ele remexeu-se na cadeira, olhando de
soslaio, dando um tom dramático na cena.
“-Eu quero... Saber qual era o motivo
de tantos sorrisos.” – disse indicando o celular na mesa.
Ela olhou para o celular e respondeu
sorrindo. Sempre sorrindo.
“-São fotos. Fotos de viagens. Quer
ver?”
Carol não esperou a resposta e colocou
em um álbum intitulado “Especiais”.
Começou a passar lentamente. Raul observava encantado as imagens, as
cores vibrantes do seu rosto ao sol, os traços que seu sorriso possuía, as órbitas
brancas dos olhos refletindo o flash da câmera.
Carol deslizava suavemente o
indicador pela tela de touch screen e trocava as imagens, sempre fazendo um
comentário a respeito de cada uma. Era possível sentir a emoção do momento da
foto em cada expressão, o movimento das mãos, o gingado do corpo.
Em uma foto, ela estava na frente
de um chalé ao estilo europeu, feito de madeira com grandes janelas. Um gramado
seguido de pedra em sua lateral e grandes árvores preenchia o ambiente. Vestindo
roupas pesadas e um cachecol de lã vermelha envolvendo o pescoço, Carol
abraçava o próprio corpo em busca de calor. Ao fundo um céu nublado e cinzento
revelava o clima típico do sul. Para comprovar a baixa temperatura a foto fora
tirada ao lado de um grande relógio de ponteiros com um termômetro de mercúrio
em sua base, revelando a proximidade do zero grau.
-Gramado. -ela disse. –Muito
frio! -falou envolvendo novamente o próprio corpo em um abraço como se o fato
de lembrar da foto lhe trouxesse um repentina queda na temperatura.
Em outra foto seu rosto perdeu o
brilho, as mãos ficaram inquietas e o Raul observou seu corpo retesar. O
sorriso presente até agora em todos os momentos começou a morrer em seus
lábios, da mesma forma como um floco de gelo derrete ao contato com uma chama.
Ela passou a mão diversas vezes
pelos cabelos a fim de prendê-lo entre a orelha, mas o cabelo já estava preso
em um rabo de cavalo.
Na imagem ela abraçava um rapaz
que aparentava ter a sua idade, e ambos sorriam juntos, encostados a passarela
que levava a Garganta do Diabo, nas Cataratas do Iguaçu.
-Meu irmão. –ela disse com a voz
sumindo. - Ele...
Não terminou a frase. Desviou o
olhar e Raul sentiu um nó na garganta observando uma lágrima escorrer solitária
pelos seios da face, marcando o caminho entre a pele e a maquiagem rosada.
Raul permaneceu sem conseguir
esboçar reação alguma, o celular em suas mãos iluminando ambos os rostos, o
silêncio agora agindo como uma terceira pessoa, um triangulo amoroso não
convencional surgindo inesperadamente.
Após alguns segundos sem
movimentos, a tela respeitosamente se apagou, e Raul não teve coragem de
perturbar a intimidade daquele momento.
Ficaram ambos sentados mudos, os
olhares voltados para o chão, para as ondas pretas e brancas da calçada, a
musica da noite envolvendo-os sedutoramente.
Foi ela quem estendeu a mão e
despertou o celular do seu sono, trazendo a luz novamente, e as pupilas de Raul
levaram uma fração de segundos para se adaptarem outra vez.
Limpou o rosto com o polegar
esquerdo e deslizou para a foto seguinte.
Seu rosto de súbito foi retomado
de luz, não a luz da tela, ou a luz da lua, mas aquela luz que só as pessoas
que amamos são capazes de fornecer. O sorriso se abriu, como o de uma criança
que se depara com um brinquedo novo.
No foto, ela vestia um jaleco
verde de hospital e segurava um recém-nascido junto ao vidro da maternidade.
Ela sorriu, remexendo-se na
cadeira e apertando o antebraço de Raul, quase não controlando a ansiedade.
-Meu sobrinho –disse orgulhosa.
–Orgulho da titia.
Raul sorria, refletindo seu
sorriso, a alegria contagiante que emanava do encontro.
Ela deslizou mais algumas telas
rapidamente e voltou a falar.
-É por isso que eu gosto das
fotos. Elas guardam sentimentos, emoções, sonhos. Às vezes uma imagem guarda um
pedacinho daquilo que você se esqueceu, daquilo que você perdeu. Imagine a
historia contada sem fotos. Imagine você perder alguém para sempre.
Ela suspirou fundo e continuou.
-Meu avô tem uma foto com a minha
avó beijando ele no natal.
Ela sorriu, fazendo a lembrança
bailar em frente aos seus olhos.
-É uma imagem tão linda. O
sorriso dos dois, meu avô se abaixando para que ela o beijasse no rosto. É uma
lembrança tão boa, tão viva, tão presente.
Raul olhava para o chão. Sentiu
uma sensação estranha brotando em seu peito. Não conseguia identifica-la, mas
se tentasse, diria que era a mesma sensação de estar no sol em um dia de
inverno, quando se fica com calor e muda para a sombra, mas então se sente
frio...
Mais uma vez a teoria da
contradição de Noel voltava como um fantasma.
-Mas você não precisa da foto
para lembrar-se desse momento. -Raul disse.
Ela sorriu de olhos fechados, um
sorriso doce, a lembrança dos avós flutuando ao seu redor, fazendo companhia a
todos os fantasmas presentes.
-Mas eu não estava lá nesse dia.
Raul ficou calado. Não tinha
resposta para aquilo.
-Entende? Eu não estava lá. E se não fosse à foto,
ninguém me contaria desse beijo. Me contariam da comida, das pessoas que vieram
de longe, das roupas lindas, ridículas, extravagantes que cada um estava
usando. Mas não do beijo, não do sorriso deles, nem da minha avó na pontinha
dos pés. Eles se lembrariam mas eu não. E hoje, por causa da foto, eu posso
estar lá todos os dias, naquele natal, naquela casa, na sala onde eu passei
tantos momentos bons, vendo minha família, vendo meus avôs se beijarem.
Uma nova lágrima escorreu pelo
seu rosto, mas ela não a conteve.
-Entende? É por isso que eu gosto
tanto das fotos.
Instintivamente, como se quisesse
protege-la, Raul puxou seu corpo para o junto do seu em um abraço apertado.
Carol deixou-se envolver e algumas lágrimas molharam sua camisa. Ele permaneceu
assim, embalando-a como uma criança pequena.
Sem se dar conta, começou a
cantarolar:
“Te mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo.
Pra te mostrar e provar que a vida é linda.
Dura, sofrida, carente em qualquer continente.
Mas boa de se viver em qualquer lugar...”
-Isso é bom. –ela diz de olhos
fechados.
-Então lembre-se dessa noite
–Raul sussurrou afagando seus cabelos- pois ela é o começo da eternidade.
Carol o enlaça pela cintura e
aperta forte, inspirando fundo e soltando-se em seguida para encara-lo.
-Raul, tire uma foto comigo.
Raul observa o sorriso que se
abre com tanta naturalidade, os olhos brilhantes, faiscando de inquietação. Em
sua cabeça um turbilhão de pensamentos emerge simultaneamente. Ele lança um
olhar para a praia, onde os transeuntes passeiam a beira mar, a majestosa praia
estendendo-se a sua frente.
Ao seu lado, ela aguarda
sorridente o momento da eternidade em sua foto.
Sobre sua cabeça, Noel e Vinicius
parecem formar uma dupla de tenores, o Ying Yang da poesia. De um lado a arte
do encontro, e do outro a arte da contradição.
Mas esse momento não dos poetas e
nenhum dos dois prevalece. Nem o amigo paulista e nem o poeta carioca. O momento
é de filosofia, e Raul se curva as palavras de Nietzsche.
“Não há fatos eternos, como não há verdades
absolutas.”
Raul tira
o celular de suas mãos e o coloca no modo câmera. Carol o abraça apertado
sorrindo, algumas lágrimas ainda molhando o seu rosto.
-Claro!
–ele responde sorrindo com o flash iluminando o rosto dos dois.
