sexta-feira, 19 de julho de 2013

O Homem Que Não Fotografava


“Se essa rua, se essa rua fosse minha.
Eu mandava, eu mandava ladrilhar.
Com pedrinhas, com pedrinhas e brilhantes.
Só pro meu, só pro meu amor passar.”


Olhou no relógio de pulso e conferiu as horas mais uma vez automaticamente. Seu voo estava atrasado e deveria demorar ainda uns tantos minutos até conseguir embarcar. Passou as mãos pelo cabelo e em seguida cofiou a barba hirsuta enquanto se encaminhava lentamente para junto do balcão de atendimento em busca de alguma vaga informação a respeito do tempo que ainda levaria até conseguirem despacha-lo para seu destino.
Parou no meio do caminho ao observar um casal que se auto retratava com um celular de ultima geração, com câmera frontal, flash de led e todas as bugigangas que colocam nos aparelhos de hoje em dia, e a todo o momento fazia poses e biquinhos para a câmera. Ficou olhando a cena estarrecido pensando no resultado daquelas fotos nas redes sociais, as legendas de juras de amor eternas que não duram até a próxima estação, os comentários dos amigos desejando boa viagem... Raul foi despertado do seu devaneio pelo vibracall do seu celular, um Samsung E1207, que tinha como principal atrativo o fone de ouvido para rádio FM, agenda, alarme, calculadora e cronômetro. “Bem mais do que eu realmente preciso”, chegava a afirmar diversas vezes referindo-se ao cronômetro.
Atendeu ao telefone com a voz um pouco rouca, dando a impressão que acabara de acordar. A pessoa do outro lado da linha falou depressa, e Raul apenas maneou a cabeça, anuindo para um interlocutor invisível.
Antes de encerrar o telefonema com um “tchau” seco, teve sua atenção voltada para as costas de uma garota que passava em sua frente dirigindo-se a área dos guichês das companhias aéreas.
Contrastando com sua pele branca, as linhas bordadas de preto revelavam uma das mais célebres frases do poeta carioca Vinícius de Moraes tatuada em suas costas nua.
“A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.
Raul sentiu um baque surdo nos ouvidos e o estomago se embrulhando. Se não fosse pelo seu destino e a frase que Noel acabara de proferir ao telefone, ele simplesmente não prestaria muita atenção à tatuagem.
Mas Raul estava indo para o Rio de Janeiro, berço dos grandes poetas brasileiros, e Noel acabava de fazer uma piada com ele pelo telefone, justamente parafraseando Vinícius.
“A vida é a arte da contradição meu querido!” - Noel dizia entre um sorriso e outro. “Da contradição. Aproveite e tire muitas fotos aos pés do Cristo Redentor.” Terminou o telefonema assim, fazendo referência à aversão de Raul em tirar fotos.
Ou melhor, em sair nas fotos!
Achava uma grande perda de tempo, afinal você possui a memoria para isso. Você não precisa de um pedaço de papel colorido para lembrar onde esteve. Se precisar recordar algo, volte ao lugar, encontre a pessoa, reviva aquilo. Não seja egoísta guardando só para si algo que vai perder a cor com o tempo. Raul se perdia em meio a esses pensamentos quando sentiu uma mão em seu ombro. Virou-se bruscamente tomado de susto e deparou-se com o casal apaixonado que o encarava sorridente.
“- Excuse me sir, could you take a picture of us?” – O rapaz perguntou.
Raul encarou a câmera nas mãos do jovem loiro a sua frente que sorria docemente e começou a pensar na ironia daquela cena, quando o loiro segurou a câmera junto ao rosto e fez a mímica de alguém tirando foto e a estendeu para Raul, na tentativa de fazê-lo entender seu pedido.
Raul suspirou e falou baixinho entre os dentes: -“ Turista maldito, eu sei falar inglês!”
O jovem sorriu sem entender e estendeu a câmera novamente, dessa vez fazendo o barulho do flash. “Click click.”
Raul suspirou pegando a câmera das mãos do rapaz e pensou na arrogância dos turistas estrangeiros que chegam ao seu país querendo falar sua língua mátria e esperando que todos lhe entendam, agindo como se estivessem com um povo incivilizado quando o mesmo não compreende seus anseios. Segurou a câmera por alguns segundos e respondeu em seu mais perfeito inglês.
“-Yes, sure!”
O casal sorridente se preparou com suas poses junto ao vitro do saguão com os aviões ao fundo.
“A vida é a arte da contradição” Raul repetiu enquanto ajustava o foco da lente.
Apesar de não se deixar fotografar, ele tinha como melhor amigo um fotógrafo que insistia em lhe ensinar todas as manhas e macetes com as poderosas câmeras fotográficas.
Posicionou a câmera e perguntou ao casal:
“Are you ready?”
“-Yes!!” responderam juntos sorrindo com a luz do flash.
Raul desligou a câmera e devolveu ao rapaz que o agradecia empolgado e falava em um inglês com sotaque e muito rápido, que Raul teve um pouco de dificuldade em compreender.
Novamente o jovem loiro fez o gesto de tirar a foto, mas agora aproximando as mãos e juntando Raul a eles.
Raul respondeu espantado e fez o gesto mimico de apontar para o próprio peito e em seguida para os dois.
“- Eu com vocês?” Disse em português.
“Yes! You with us.” A garota respondeu abrindo um sorriso maior do que o decote da sua blusa.
Raul se preparou para usar todo o seu inglês com uma desculpa qualquer, quando os auto falantes anunciaram: -"Voo 42153 com destino ao aeroporto Santos Dummont Rio de Janeiro, embarque imediato portão 3."
Raul sorriu. Dessa vez Vinícius vencera Noel. Existem tantos desencontros pela vida.
“Sorry, but that is my flight. I gotta go now. I’m pleased to meet you. Goodbye.”
Pegou suas coisas e dirigiu-se rapidamente para seu portão. Dentro de pouco tempo estaria na cidade maravilhosa.
Com o comandante inspirado, o voo demorou pouco mais de 40 minutos para chegar ao destino. Raul observava da pequena janela, a cidade ir ficando distante, as paisagens perdendo a forma, e tudo tomando cada vez mais a cara de um Google Maps. Era fascinante admirar tudo aquilo, passear sobre as nuvens, ver o céu se perder no horizonte. Por mais que Raul viajasse, ele sempre ficava fascinado com a visão, sentia as mãos suarem durante a decolagem, o coração disparar no momento de deixar o chão, e a mesma sensação na hora do pouso.
Alguns momentos após o comandante da aeronave informar o tempo restante de voo, Raul viu o mar se aproximando, o avião cada vez mais perto do mar, e finalmente quando estava quase rompendo a lamina de água da superfície, sentiu o trem de pouso tocar o solo e o voo chegar ao fim. Desafivelou o cinto, esperou as portas se abrirem, pegou sua bagagem de mão e dirigiu-se a saída em busca de um taxi.
-Pra onde vamos senhor? Um taxista moreno e forte perguntou.
-Copacabana Palace por favor- Raul informou.
O taxista arrancou cortando a cidade. No rádio um samba tocava incessantemente. Raul observava as placas, os locais famosos estampados em letras brancas contra um fundo verde. Logo o taxista puxou assunto, com aquela fala arrastada de carioca, começou a questiona-lo sobre o motivo da viagem, falou dos lugares, falou dos problemas e foi assim até chegar na Avenida Atlântica 1702. Raul pagou a corrida e saiu. Antes do motorista ir embora, abaixou e vidro e falou:
 “-Que dê tudo certo na sua viagem senhor.”
 Não esperou a resposta e seguiu seu caminho, perdendo-se entre um mar de carros amarelos.
Raul ficou um segundo acompanhando o taxi com o olhar até se voltar e encarar a porta giratória do Copa. Não se conteve e deu alguns passos para trás a fim de contemplar a magnitude do hotel.
Com sua fachada sóbria e imponente, o hotel fundado por Octávio Guinle na década de 20 estende-se majestoso margeando a praia. Na entrada, a estátua do jornalista carioca Ibrahim Sued permanece imutável com o olhar perdido para o mar.
-Que honrosa maneira de ser eternizado. Raul pensou. –Olhando eternamente para a praia de Copacabana.
No topo do Copa, a bandeira brasileira tremulava ao vento. Abaixo, uma série de bandeiras de diversos países perfilam sobre o restaurante.
Raul respirou fundo e passou pelas portas giratórias.
O cheiro do Copacabana Palace é inconfundível. Uma mistura de essências perfuma os corredores, elevadores e quartos. Deslocando-se elegantemente uniformizados, os funcionários da recepção faziam tudo acontecer com uma simetria perfeita, a gentileza estampada em cada sorriso.
“-Pelo preço que cobram à diária, é preciso de muitos sorrisos mesmo”. Pensou sozinho.
Realizou o check-in na recepção e um mensageiro o acompanhou até o quarto. Sua suíte estava situada no prédio anexo, no 9° andar com vista para o mar. Raul passou ao lado da piscina de água cristalina, pegou o elevador e se dirigiu a sua suíte.
Ao entrar no quarto, ficou impressionado. Já havia visto fotos da cama king size, mas assim vista de perto era ainda mais impressionante. Deixou a mochila no chão e começou a explorar o quarto. Encontrou um cartão em papel de alta qualidade com o logotipo do hotel e escrito à mão uma mensagem de boas vindas.
“Prezado Sr. Cortez.
É um prazer recebe-lo no Copacabana Palace Hotel!
Sinta-se em casa e desfrute sua estada conosco.”
O cartão era assinado pela Gerente de Relações.
Raul continuou a andar pelo quarto. Abriu as janelas, deixando a brisa que vinha do mar encher o recinto. Sentou na escrivaninha e folheou os livros que se encontravam a sua frente: cardápio, livros de fotos, lista telefônica do hotel. A sua direita, um bloco de anotações e um lápis. Tudo delicadamente estampado com o logotipo do hotel. Raul abriu uma pasta que se encontrava juntos aos livros e encontrou 3 folhas de papel A4 com a mesma marca no cabeçalho e rodapé. Abriu um sorriso e rabiscou algumas palavras.
De súbito sentiu um cansaço e se deu conta de que estava acordado desde muito cedo. Levantou-se, espreguiçou-se e ligou a TV. Olhou para os lados como alguém que procura o momento certo de fazer uma pequena travessura e não resistiu mais.
Entregando-se aos seus instintos infantis, Raul jogou-se na cama, pulando sem parar.
Acalmou-se um pouco e ajeitou-se entre os travesseiros. Ficou olhando a TV por alguns momentos antes de adormecer.
***
Acordou com o telefone do seu quarto tocando. Esfregou os olhos com as costas das mãos e olhou no relógio ao lado da cama. Já era noite. Atendeu e ouviu a recepcionista dar-lhe uma vez mais as boas vindas e perguntar se precisava de algo. Raul agradeceu a hospitalidade e desligou. Foi para o banheiro, encheu a banheira e entrou.
Ficou ali relaxando até sentir as mãos e os pés enrugarem. Saiu da água, vestiu um roupão e foi olhar a vista maravilhosa da sua sacada ao luar.
Da janela do seu quarto, Raul observa a Praia de Copacabana estender-se a sua frente. Flashes disparam a todo momento, grupos de turistas se acotovelam para conseguir um melhor ângulo, para conseguir um melhor enquadramento.
Viu um ônibus parar em frente ao hotel e uma série de turistas descerem, tirarem fotos e seguirem sua peregrinação pelo Rio. O Copacabana Palace era um dos pontos turísticos mais visitados da cidade.
Na sua cabeça, aquelas imagens formavam um mosaico colorido, as fotos emolduradas nas paredes, as atualizações insanas no Facebook, ou ainda pior, as fotos que nunca sairiam da câmera, que se perderiam em um cartão de memorias qualquer ou simplesmente seriam apagadas para dar espaço a uma nova imagem.
-E qual o sentido disso tudo? –pensou.
-Qual o significado, o objetivo de roubar um momento de alguém, para simplesmente joga-lo fora depois. Não seria mais justo recorda-lo, dividindo-o com alguém? Dividir as lembranças, as sensações, ao invés de egoistamente levar esse momento só para você?
Um álbum de fotos desbotadas. Não era isso que ele queria. Havia lido recentemente uma frase de John Green no seu novo livro O Teorema Katherine, e havia se identificado imediatamente. No livro, o protagonista Colin Singleton revolta-se ao ver um antigo álbum de fotografias:
 "Eu vou ter isso, - Colin pensou. - Eu vou ter. Eu vou. Com a Katherine. Mas não vou ser só isso, - ele decidiu-. Vou deixar para trás algo mais que um álbum de fotografias no qual sempre pareço velho...”
Lembrou-se da ultima semana passada em São Paulo e do trabalho apresentado por Noel em seu Workshop. Raul havia ido assistir a apresentação. Sentia-se orgulhoso pelo trabalho do amigo, e abismado com as imagens retratadas por grandes fotógrafos, pelos prêmios Pulitzer conquistados a base de dor, sofrimento e morte.
Em uma das fotos Greg Marinovich retratava o exato momento em que um homem com o corpo todo em chamas era brutalmente assassinado por apoiadores do Congresso Nacional Africano por acreditarem que ele era um espião do Partido da Liberdade Inkatha.
Na outra imagem, ainda mais chocante, Kevin Carter capturou o momento em que um abutre observava uma criança moribunda que tentava chegar a um campo de alimentação da ONU no Sudão. Questionado algum tempo depois se havia ajudado a criança, Kevin apenas disse que estava lá para fazer seu trabalho.
Foi duramente criticado pelo jornal St. Petersburg Times, da Flórida, que chegou a dizer:
"O homem ajustando suas lentes para capturar o enquadramento exato daquele sofrimento poderia muito bem ser um predador, um outro urubu na cena."
Pouco tempo depois de ganhar o Pulitzer, Carter se suicidou. Em sua carta, ele faz referências à foto que o tornou mundialmente famoso:
“Estou assombrado pelas vívidas memórias de mortes e cadáveres e raiva e dor... de morrer de fome ou de crianças feridas, de loucos com dedos no gatilho, muitas vezes policiais, carrascos assassinos...”
Lembrou-se da musica da banda irlandesa The Cranberries, Zombie que falava justamente sobre isso em alguns trechos. Raul adorava aquele som, a voz marcante de Dolores O'Riordan que ficava na cabeça, envolvendo o pensamento, a batida constante da guitarra.
Enquanto observava a praia, começou a cantar:
“Another head hangs slowly, 
Child is slowly taken. 
And the violence caused such silence, 
Who are we mistaken? 

But you see, it's not me, it's not my family. 
In your head, in your head they are fighting, 
With their tanks and their bombs, 
And their bones and their guns. 
In your head, in your head, they are crying... 

In your head, in your head, 
Zombie, zombie, zombie”
Raul ficou ali um tempo perdido com o olhar no horizonte.
Zumbis.
Seria isso?
Isso que teríamos nos tornado?  Repetindo sempre os mesmos gestos mecânicos, comprando, usando, fotografando, curtindo e compartilhando?
Havia lido recentemente um artigo que falava a respeitos das curtidas do Facebook.
Pessoas sofrendo e tendo suas imagens curtidas na rede mundial, da mesma forma que alguém curte as fotos de uma balada.
“What’s in your head?”
A frase permanecia na sua cabeça.
E as fotos? Para que servem as fotos? Para serem editadas em um programa de Photoshop e serem usadas em perfis falsos de redes sociais? Para mascarar imperfeições imperceptíveis, moldar padrões de modas e nos tornar pessoas que não somos justamente para mostrar para pessoas que não gostamos?
Raul observava da janela e se perdia entre esses pensamentos.
Quantos perfis falsos existiam, justamente por causa das fotos. Você enxerga só o que a outra pessoa deseja que você veja, enquadrando seu melhor angulo, esperando somente a melhor luz, nunca pensando em mostrar realmente seus traços naturais e verdadeiros, nunca querendo usar um angulo real, uma roupa do dia a dia, uma pose sem batom.
A vida real não permite isso, -pensava- não permite que você aguarde uma boa luz, ou fica esperando uma correção digital. Quando você consegue a melhor luz, o melhor foco é por que o momento permitiu, por que a hora era a certa.
São esses momentos que precisamos. Os momentos verdadeiros, as luzes verdadeiras, os abraços apertados. Não um monte de imagens coloridas e moldadas no computador como massinha de modelar.
Espreguiçou-se e conferiu as horas no relógio de pulso. A noite era agradável e Raul decidiu dar uma volta pelo calçadão. Da sua janela ele observava o mosaico de pedras pretas e brancas da orla da praia, mais um símbolo de Copacabana. Pegou suas coisas e saiu, deixando para trás o som dos seus passos ecoando pelo corredor.
Chegando à rua, deparou-se com um aglomerado de pessoas de câmeras nas mãos, os flashes disparando incessantemente. “Provavelmente algum artista, alguma celebridade” - pensou-. Algo nem um nem um pouco raro naquela cidade, muito menos naquele hotel.
Afinal o Copacabana Palace é reconhecidamente o mais renomado hotel do Brasil, hospedando ao longo de décadas, membros da realeza, estrelas de cinema, teatro e música, assim como políticos e grandes empresários. Com seus mais de 240 quartos, era o lar preferido de muitas celebridades em visitas ao Rio.
Quando Raul anunciou aos amigos que se hospedaria ali, as frases foram unanimes:
- Tire muitas fotos!
Ele não entendia o motivo de tanto fascínio pelas fotos. Afinal era só entrar na página do hotel na internet e ver as imagens.
Pra que mais fotos?
“-Ora Raul, por que você vai estar nelas!” - uma amiga disse.
Mas se você quer ver a mim, eu estou aqui. Se quiser ver fotos do hotel, veja no site. Se quiser ver ambos, venha comigo.
Eu não vou precisar das fotos para me lembrar. E não vou precisar coloca-las em uma rede social para provar que fui. Então não! Eu não preciso de fotos!
Foi assim que ele terminou a conversa. Era sempre assim.
Raul não teve muita dificuldade em desviar da multidão. Afinal ele deveria ser a única pessoa a andar na direção oposta aos flashes.
Seguiu pela orla da praia caminhando lentamente. O vento refrescante trazia um leve aroma de maresia, o barulho das ondas misturado ao barulho da cidade.
A visão era magnífica e Raul chegou a parar de caminhar. Agora conseguia entender de onde vinha tanta inspiração dos grandes poetas. As canções de João Gilberto, os versos de Drummond.
Ao longe o Cristo Redentor erguia-se majestosamente no alto do morro do Pão de Açúcar, estendendo sua benção de braços abertos sobre toda a cidade.
Em outro estremo, os cabos de aço do bondinho cruzavam o céu estrelado indo em direção ao Corcovado.
Raul respirou fundo, deixando o ar salgado invadir seus pulmões. Voltou a caminhar por mais alguns minutos, passando pela estatua de Drummond sentado a beira mar. Uma multidão fazia fila para tirar fotos ao seu lado. Raul esperou pacientemente e quando chegou sua vez, simplesmente sentou-se ao seu lado e ficou ali alguns momentos, olhando-o de perto, tentando captar cada fagulha de inspiração, tentando compreender de onde vieram tantos grandes textos, tantas grandes poesias. Sentiu um arrepio correr pelo corpo, aquela proximidade tão intima aquele momento tão incrível. Ele não precisaria de fotos para recorda-lo. Levantou-se e fez uma leve reverencia aos pés do poeta. “No mar estava escrito uma cidade” era a frase escrita ao seu lado. Raul despediu-se silenciosamente e voltou a caminhar perdendo-se entre imagens incríveis da cidade maravilhosa, até se cansar e parar para tomar uma água de coco à beira mar.
Sentou-se sozinho em uma mesa e ficou parado, pensando trivialidades. Adorava viajar embora odiasse ficar longe de casa. Noel divertia-se muito as suas custas com aquilo, usando esse fato para fortalecer ainda mais sua teoria da contradição.
“- Viagem astral meu querido. Essa é sua salvação!” - Ele sempre dizia, referindo-se a Joe, personagem da escritora inglesa Joanne Harris no livro Vinho de Amoras. “- Compre umas National Geographic e vá dormir mais. Era assim que Joe fazia!”
Tomou um gole de água de coco quando reparou na mesa ao seu lado.
Sentada sozinha, uma jovem de cabelos loiros amarrados em um rabo de cavalo brincava com a tela do celular. Ela sorria de uma forma contagiosa, de uma forma que dava vontade em compartilhar o sorriso.
Raul observou o contorno do seu rosto, os cílios bem pintados, o formato e a destreza das mãos. Os olhos possuíam um brilho incandescente que acompanhava o movimento dos dedos e as mudanças de imagens na tela.
Por alguns momentos ele sentiu uma curiosidade em saber o que causava tanta alegria naquele olhar.
Tomou mais um gole de água de coco, quando seus olhares se cruzaram.
Raul sentiu um frio percorrer imediatamente a espinha, e o sorriso da garota se abrir para ele.
“-Oi.” – ela disse sorrindo.
Raul ficou momentaneamente paralisado. Não esperava por isso. Colocou o coco na mesa e respondeu:
“-Oi.” Também tentando sorrir.
Ela continuou sorrindo e perguntou: “-Você é escritor?”
Ele fez cara de paisagem, não entendo a pergunta, até se dar conta da camiseta que estava usando.
Estampado em seu peito a frase do escritor americano Ernest Hemingway era uma lenda no mundo literário.
"Write drunk; edit sober."
Raul sorriu olhando a própria camiseta.
“-Não. É apenas um presente.”
Um presente de Noel claro, com seu terrível gosto por boleros antigos e bebidas novas.
“-Um presente inteligente” – ela disse.
Raul ficou lembrando o dia em que Noel havia lhe entregado a camiseta e contado a história da frase.
“Então... Não sei se ele escreveu isso na parede de um bar... mas sei que no bar "La Bodeguita Del Medio" em Cuba, ele era freguês assíduo e escreveu nas paredes. Depois isso se tornou uma tradição no local... Dizem que ele sempre alugava um quarto no hotel ao lado, por que vez ou outra saia carregado de lá.”
Foi tirado de sua transe por um som distante de voz feminina.
“-Desculpe.”
Ela sorriu.
“- Carol. Eu disse que meu nome é Carol.” – ela repetiu com a mão estendida em sua direção.
Raul levantou-se e foi em direção da sua mesa.
“-Meu nome é Raul.” – disse apertando sua mão.
“-Me faz companhia Raul? – ela perguntou sem soltar sua mão. - Estou sozinha nessa cidade, perdi meu voo e viajo só amanhã. Não pense mal de mim - ela disse - mas eu gostei do seu jeito, e gostei da camiseta. – abaixou o olhar e sorriu envergonhada soltando sua mão. – Mas se não quiser tudo bem...”
Ela disse tudo em um só fôlego, como se quisesse se justificar e se desculpar ao mesmo tempo, como se fosse perder a coragem caso parasse no meio da frase. Raul contemplou mais uma vez seu rosto, as expressões de duvida, esperança, timidez e alegria se misturando constantemente. Abriu um leve sorriso e deixou o poeta falar por ele.
“- A vida é arte do encontro, não é mesmo?” – ele disse sentando ao seu lado.
“- Eu adoro Vinicius.” – ela respondeu.
Raul ajeitou-se na cadeira, as pernas compridas e desengonçadas sob a mesa.
“-Mas eu fico com uma condição.” – ele disse.
Durante um segundo o rosto de Carol assumiu uma expressão de dúvida, um pouco de medo e tensão, mas em seguida voltou a sorrir com certeza. Havia decidido confiar em Raul.
“-E qual é a condição?”
Ele remexeu-se na cadeira, olhando de soslaio, dando um tom dramático na cena.
“-Eu quero... Saber qual era o motivo de tantos sorrisos.” – disse indicando o celular na mesa.
Ela olhou para o celular e respondeu sorrindo. Sempre sorrindo.
“-São fotos. Fotos de viagens. Quer ver?”
Carol não esperou a resposta e colocou em um álbum intitulado “Especiais”. Começou a passar lentamente. Raul observava encantado as imagens, as cores vibrantes do seu rosto ao sol, os traços que seu sorriso possuía, as órbitas brancas dos olhos refletindo o flash da câmera.
Carol deslizava suavemente o indicador pela tela de touch screen e trocava as imagens, sempre fazendo um comentário a respeito de cada uma. Era possível sentir a emoção do momento da foto em cada expressão, o movimento das mãos, o gingado do corpo.
Em uma foto, ela estava na frente de um chalé ao estilo europeu, feito de madeira com grandes janelas. Um gramado seguido de pedra em sua lateral e grandes árvores preenchia o ambiente. Vestindo roupas pesadas e um cachecol de lã vermelha envolvendo o pescoço, Carol abraçava o próprio corpo em busca de calor. Ao fundo um céu nublado e cinzento revelava o clima típico do sul. Para comprovar a baixa temperatura a foto fora tirada ao lado de um grande relógio de ponteiros com um termômetro de mercúrio em sua base, revelando a proximidade do zero grau.
-Gramado. -ela disse. –Muito frio! -falou envolvendo novamente o próprio corpo em um abraço como se o fato de lembrar da foto lhe trouxesse um repentina queda na temperatura.
Em outra foto seu rosto perdeu o brilho, as mãos ficaram inquietas e o Raul observou seu corpo retesar. O sorriso presente até agora em todos os momentos começou a morrer em seus lábios, da mesma forma como um floco de gelo derrete ao contato com uma chama.
Ela passou a mão diversas vezes pelos cabelos a fim de prendê-lo entre a orelha, mas o cabelo já estava preso em um rabo de cavalo.
Na imagem ela abraçava um rapaz que aparentava ter a sua idade, e ambos sorriam juntos, encostados a passarela que levava a Garganta do Diabo, nas Cataratas do Iguaçu.
-Meu irmão. –ela disse com a voz sumindo. - Ele...
Não terminou a frase. Desviou o olhar e Raul sentiu um nó na garganta observando uma lágrima escorrer solitária pelos seios da face, marcando o caminho entre a pele e a maquiagem rosada.
Raul permaneceu sem conseguir esboçar reação alguma, o celular em suas mãos iluminando ambos os rostos, o silêncio agora agindo como uma terceira pessoa, um triangulo amoroso não convencional surgindo inesperadamente.
Após alguns segundos sem movimentos, a tela respeitosamente se apagou, e Raul não teve coragem de perturbar a intimidade daquele momento.
Ficaram ambos sentados mudos, os olhares voltados para o chão, para as ondas pretas e brancas da calçada, a musica da noite envolvendo-os sedutoramente.
Foi ela quem estendeu a mão e despertou o celular do seu sono, trazendo a luz novamente, e as pupilas de Raul levaram uma fração de segundos para se adaptarem outra vez.
Limpou o rosto com o polegar esquerdo e deslizou para a foto seguinte.
Seu rosto de súbito foi retomado de luz, não a luz da tela, ou a luz da lua, mas aquela luz que só as pessoas que amamos são capazes de fornecer. O sorriso se abriu, como o de uma criança que se depara com um brinquedo novo.
No foto, ela vestia um jaleco verde de hospital e segurava um recém-nascido junto ao vidro da maternidade.
Ela sorriu, remexendo-se na cadeira e apertando o antebraço de Raul, quase não controlando a ansiedade.
-Meu sobrinho –disse orgulhosa. –Orgulho da titia.
Raul sorria, refletindo seu sorriso, a alegria contagiante que emanava do encontro.
Ela deslizou mais algumas telas rapidamente e voltou a falar.
-É por isso que eu gosto das fotos. Elas guardam sentimentos, emoções, sonhos. Às vezes uma imagem guarda um pedacinho daquilo que você se esqueceu, daquilo que você perdeu. Imagine a historia contada sem fotos. Imagine você perder alguém para sempre.
Ela suspirou fundo e continuou.
-Meu avô tem uma foto com a minha avó beijando ele no natal.
Ela sorriu, fazendo a lembrança bailar em frente aos seus olhos.
-É uma imagem tão linda. O sorriso dos dois, meu avô se abaixando para que ela o beijasse no rosto. É uma lembrança tão boa, tão viva, tão presente.
Raul olhava para o chão. Sentiu uma sensação estranha brotando em seu peito. Não conseguia identifica-la, mas se tentasse, diria que era a mesma sensação de estar no sol em um dia de inverno, quando se fica com calor e muda para a sombra, mas então se sente frio...
Mais uma vez a teoria da contradição de Noel voltava como um fantasma.
-Mas você não precisa da foto para lembrar-se desse momento. -Raul disse.
Ela sorriu de olhos fechados, um sorriso doce, a lembrança dos avós flutuando ao seu redor, fazendo companhia a todos os fantasmas presentes.
-Mas eu não estava lá nesse dia.
Raul ficou calado. Não tinha resposta para aquilo.
-Entende?  Eu não estava lá. E se não fosse à foto, ninguém me contaria desse beijo. Me contariam da comida, das pessoas que vieram de longe, das roupas lindas, ridículas, extravagantes que cada um estava usando. Mas não do beijo, não do sorriso deles, nem da minha avó na pontinha dos pés. Eles se lembrariam mas eu não. E hoje, por causa da foto, eu posso estar lá todos os dias, naquele natal, naquela casa, na sala onde eu passei tantos momentos bons, vendo minha família, vendo meus avôs se beijarem.
Uma nova lágrima escorreu pelo seu rosto, mas ela não a conteve.
-Entende? É por isso que eu gosto tanto das fotos.
Instintivamente, como se quisesse protege-la, Raul puxou seu corpo para o junto do seu em um abraço apertado. Carol deixou-se envolver e algumas lágrimas molharam sua camisa. Ele permaneceu assim, embalando-a como uma criança pequena.
Sem se dar conta, começou a cantarolar:
“Te mostro um trecho, uma passagem de um livro antigo.
Pra te mostrar e provar que a vida é linda.
Dura, sofrida, carente em qualquer continente.
Mas boa de se viver em qualquer lugar...”
-Isso é bom. –ela diz de olhos fechados.
-Então lembre-se dessa noite –Raul sussurrou afagando seus cabelos- pois ela é o começo da eternidade.
Carol o enlaça pela cintura e aperta forte, inspirando fundo e soltando-se em seguida para encara-lo.
-Raul, tire uma foto comigo.
Raul observa o sorriso que se abre com tanta naturalidade, os olhos brilhantes, faiscando de inquietação. Em sua cabeça um turbilhão de pensamentos emerge simultaneamente. Ele lança um olhar para a praia, onde os transeuntes passeiam a beira mar, a majestosa praia estendendo-se a sua frente.
Ao seu lado, ela aguarda sorridente o momento da eternidade em sua foto.
Sobre sua cabeça, Noel e Vinicius parecem formar uma dupla de tenores, o Ying Yang da poesia. De um lado a arte do encontro, e do outro a arte da contradição.
Mas esse momento não dos poetas e nenhum dos dois prevalece. Nem o amigo paulista e nem o poeta carioca. O momento é de filosofia, e Raul se curva as palavras de Nietzsche.
“Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas.”
Raul tira o celular de suas mãos e o coloca no modo câmera. Carol o abraça apertado sorrindo, algumas lágrimas ainda molhando o seu rosto.

-Claro! –ele responde sorrindo com o flash iluminando o rosto dos dois.