sábado, 9 de junho de 2012

As asas da borboleta



Está historia deve ser lida como uma oração. Uma prece silenciosa no meio da noite. Como um apelo solitário de alguém que não tem mais nada a perder.
Foi assim que eu a conhecei.
Não sei dizer se era dia ou noite, da mesma forma que não saberia dizer se era primavera ou verão. Não importa. Rosas teriam o mesmo perfume se tivessem outro nome.
Eu a conheci assim. No silêncio, no escuro, sozinha. As várias garrafas que lhe faziam companhia em sua mesa, não eram precisamente as melhores testemunhas das nossas primeiras palavras. Mas foram as únicas.
Dizem que seu coração sabe a hora certa e a pessoa certa. Mas depois dos 40, dos 45; bem, às vezes não faz mais tanta diferença ser a hora e nem o seu coração saber de algo.
-A senhora precisa de mais alguma coisa? –Foi uma frase estranha, pois não me lembrava de ter a atendido antes. Mas com o passar dos anos, a educação se torna uma questão de vida ou morte, e velhos hábitos levam tempo pra desaparecerem. Um filho de pai militar e mãe religiosa aprende desde cedo a boa educação, embora a palavra “senhora” não fizesse jus a sua pouca idade.
Ela me deu um sorriso triste. Eu poderia sair correndo, ou poderia ignorar. Mas eu insisti.
-Senhora?
Seu gesto foi quase imperceptível. Um leve manear de cabeça e um sussurro, como se implorasse.
-Sente-se.
Não é normal eu me sentar com meus clientes. O bar está sempre lotado, mesmo nos dias mais tranqüilos, e dificilmente sobra tempo para um flerte qualquer.
Mas naquele dia, naquele momento, tudo era silêncio. O velho relógio alemão Lenzkirch, herança do meu avô marcava as batidas das horas. Uma fresta de luz escorria pela soleira da porta, fazendo os flocos de poeira bailar aos pares, como uma boneca em uma caixinha de musica suíça Reuge.
Não sei dizer quanto tempo fiquei ali. Era como se estivesse hipnotizado; pela dança de luz, pelos flocos de poeira, pela batida do velho Lenzkirch. Era como se nada mais existisse. E talvez realmente nada mais que existisse valesse à pena.
Foi sua voz que me trouxe de volta. Uma lufada de ar em um pulmão afogado.
-Por favor!
Virei-me rapidamente, como saindo de um sonho. Deparei-me com olhos inquisidores, profundos.  Olhos de um verde escuro, que se não fosse o brilho apagado de uma lâmpada acima de nós, juraria que eram negros.  Uma vez mais ela me pediu, ainda mais incisiva.
-Sente-se. Por favor!
O som da sua voz era leve, como o bater de asas de uma borboleta.
O silêncio a nossa volta era ensurdecedor, invariavelmente quebrado por uma propaganda sem muita importância no rádio.
Como em câmera lenta, puxei a cadeira e sentei-me ao seu lado. O som das nossas respirações pairava sobre nós.
Perguntei novamente. –Senhora? -A velha educação. A maldita velha educação que não me permitia usar palavras menos formais. Velhos hábitos demoram a desaparecer.
A resposta veio rápida, como um reflexo, saindo às pressas de seus pequenos lábios.
 -Cat. Meus amigos me chamam de Cat.
Foi como se um copo tivesse se quebrado. No rádio Bon Jovi começava a cantar “Living on a Prayer.”
-Ela deve ser boa, você não acha? A pergunta me pegou desprevenido. Meu rosto deve ter traído minha confusão. Ela sorrio e começou a cantarolar baixinho: “Gina the diner all day. Working for her man, she brings home her pay. For Love...”
Eu provavelmente pareci mais bobo do que deveria. Levei algum tempo para conseguir dizer algo novamente. A musica ecoava em meus ouvidos; “Take my hand, we'll make it, I swear, Whoah, Livin' On a Prayer’’
-Desculpe. Acho que não ouvi direito o seu nome.
-Catelyn. Meu nome é Catelyn. Mas meus... amigos me chamam de Cat. – a pausa foi um pouco demorada. Ela pareceu corar. –Mas não é de gato. – disse abaixando os olhos – É por que Catelyn parece soar grande de mais.
Tive vontade de perguntar: “grande de mais para que? Ou seria; para quem?” Mas certas coisas em sua vida fazem você se tornar um pouco mais reservado.
-Cat. - Me limitei a repetir. Ela pareceu achar graça. Foi minha vez de corar. Com um esforço quase sobre humano, consegui ser mais enfático. –É um nome bonito.
Dessa vez o seu sorriso foi contagiante. O velho Lenzkirch marcava os segundos, a fresta de luz bailava com a poeira, enquanto Bruce Springsteen cantava “The River” no rádio. Sem sobreaviso ela tocou meus dedos. Seu toque era quente, macio, enquanto o meu era um toque áspero, gelado. Mãos a muito esquecidas, desacostumadas pelos anos de ausência de carinho.
-Eu precisava falar. – seu tom era quase infantil. – Precisava ver alguém. Me desculpe.
As garrafas fizeram um leve tilintar com o movimento sobre a mesa. Uma mecha de seu cabelo loiro caiu sobre os olhos. Seu movimento foi delicado e preciso. Recolocou a mecha atrás da orelha e voltou a tocar em meus dedos. O perfume que invadiu o ambiente saído de seus cabelos tinha cheiro de seda macia, de orvalho, cheiro de manhã.
Eu procurava entender, procurava palavras, procurava o meu chão. Foi tudo tão rápido, tudo intenso. As garrafas balançando, seus dedos macios, o perfume de seus cabelos. Quando consegui me fixar novamente em seus olhos, ela havia recomeçado a falar.
-Não tinha pra onde ir. Não podia voltar lá, eles não me entenderam antes, porque iriam me entender agora? –Suas palavras eram rápidas, como se quisesse se livrar, quisesse se explicar. Era um pedido de desculpas.
A gaita de Bruce parecia lhe dar coragem. Cada movimento era curto, rápido, gracioso. A cada palavra, uma parte de seu casulo se abria.
-Eles não me entendem.
Pensei em oferecer uma bebida, algo que pudesse nos dar tempo. Qualquer coisa que me tirasse daquele transe, e me fizesse respirar novamente. Ela pareceu pressentir meu movimento. Seus olhos verdes pousaram sobre os meus, pelo tempo que pareceu uma eternidade. Olhos tão escuros, que na foto seriam negros.
Foi uma suplica. –Não. Fique. Eu só preciso que fique. Por favor!
Lá fora o dia transcorria. Um carro derramava fumaça pela rua, crianças voltavam da escola, donas de casa faziam a feira.
Ali dentro, apenas o rádio que agora despejava fofocas em seu programa matinal, e o tic tac pesado, cada vez mais pesado do relógio marcava nossos movimentos.
Talvez seja interessante deixar claro que não sou nenhum romântico inocente. Mas depois de dois casamentos desfeitos e de um filho que você não vê a mais de 5 anos, certas coisas te fazem pensar. Mas isso não importa. Não agora, não aqui.
Me assustei ouvindo minha própria voz: -Eu fico. Eu juro que fico.
Não sei onde estava quando disse aquelas palavras. (eu juro que fico!) Talvez o medo de mais alguns anos daquela escuridão poeirenta, talvez o silencio demasiadamente longo. –Ela poderia me salvar- disse a mim mesmo. Ela bem poderia me salvar. O seu toque tornou-se mais forte, terminando a envolver minhas mãos por completo. Se não a estivesse vendo sentada a minha frente, poderia jurar que estava de joelhos, como se me implorasse perdão.
O som que saiu de seus lábios delicados foi quase inaudível, mas foi como se uma estrela brilhasse no horizonte.
 –Obrigado. -Seus olhos se agarravam aos meus da mesma forma como um naufrago se agarra a sua tábua de salvação.
Uma fina chuva começava a cair. Como se lavasse os primeiros momentos do nosso encontro, como se espantasse os fantasmas que pairavam sobre nós. Como que ensaiado, no rádio tocava “Have you ever seen the rain?” do Creedence. Comecei a cantarolar baixinho: “Someone told me long ago, There's a calm before the storm, I know, it's been comin' for some time…”
Uma vez mais ela sorri.
-Seu rádio tem bom gosto pra musicas. -Sua voz soava alegre.
-Ele tem dias inspirados. –brinquei. Eu me sentia mais leve. Seus dedos começaram a acompanhar o ritmo da musica, mas voltaram a segurar minhas mãos.
-Cat, o que aconteceu? -Achei estranho a intimidade usada na frase. As palavras escorregaram pela minha boca como intrusas. Para minha surpresa ela pareceu se divertir. Nossos olhos se encontraram. (Ela poderia me salvar)
Foi a minha vez de segurar suas mãos com força. Eu queria abraça - lá, apertá-la em meus braços, sentir o perfume de seus cabelos, a suavidade da sua pele. Queria beijá-la nos lábios, sentir o calor do seu corpo, o peso dele sobre o meu, sua respiração, seu gosto... As palavras ecoavam em minha mente, implorando: Por favor. Fique! 
O som que veio da porta foi como um baque seco. A fresta de luz se transformando em um riacho, invadindo toda a sala. O suave bailar dos flocos de poeira se tornando uma multidão disforme, sem nenhuma elegância. Era como se algo tivesse desaparecido.
Levantei-me rapidamente, como se tivesse sido pego em flagrante. A pressão em meus ouvidos não me permitiu ouvir uma garrafa se quebrando ao tocar o chão. Nossas mãos foram separadas violentamente, como se fossemos cúmplices de um crime recém descoberto.
Ainda pude vislumbrar um ultimo sorriso triste em seus lábios vermelhos. Toda a alegria havia desaparecido. Dirigi-me ao balcão para atender o intruso que invadia nosso silencio. -Por favor. Fique! Eu repetia sem saber para quem.
Quando voltei para a mesa, Cat havia desaparecido. Cat! eu sussurrei. Lá fora caia uma chuva fina. Empurrei a porta com ambas as mãos, como alguém que empurra um bandido e sai correndo sem direção, sem destino, sem saber o porquê, sem saber pra quem. A voz pesada de Johnny Cash cantando “Hurt” foi ficando cada vez mais distante. “What have I become? My sweetest friend, everyone I know goes away, in the end…”
Eu corri sem saber pra quem. Sem saber pra onde. Quando me encontrei, estava novamente na porta do bar. Dizem que nosso corpo tem um mecanismo que faz com que você ande em círculos e sempre volte ao mesmo lugar. Mais uma vez tudo era silencio.
Limpei os pés no tapete e abri a porta lentamente, começando a esquecer de tudo. As lembranças podem fazer você enlouquecer, e depois de um tempo, aprender a esquecer certas coisas, torna-se questão de sobrevivência.
No rádio começa a tocar “Vera” do Pink Floyd. “Does anybody here remember Vera Lynn? Remember how she said that, we would meet again, some sunny day. Vera! Vera! What has become of you does anybody else in here, Feel the way I do?”
No chão a garrafa quebrada havia desaparecido. Sentada no mesmo lugar, Cat me olhava com olhos sorridentes. Seu cabelo tinha cheiro de orvalho. Ela levantou e caminhou até mim. Seus pés não fizeram barulho enquanto andava. Sem saber o que fazer, eu só consegui perguntar, e dessa vez as palavras não pareceram estranhas em minha boca.
-Cat, o que aconteceu?
Ela tocou em meu rosto molhado de chuva e suor, retirando uma mecha de cabelo negro que escorria sobre meus olhos.
-O que aconteceu não importa. O que importa agora somos nós dois.
Lá fora uma chuva fina caia. Dizem que nada se compara ao primeiro beijo. No nosso caso, nada se compara a nada.
O que aconteceu depois? Bom, isso também não importa. O velho rádio não tocava mais nada. Talvez esse momento não precisasse de musica, o som dos nossos corações era suficiente. Dessa vez nenhum intruso, a porta trancada, só o nosso silencio fazendo companhia. –Ela poderia me salvar.
Como eu disse, essa historia deve ser lida como uma oração, uma prece silenciosa. Eu espero que ela tenha feito a sua parte. Que tenha sido leve. Leve como o bater de asas de uma borboleta.