Está historia deve ser
lida como uma oração. Uma prece silenciosa no meio da noite. Como um apelo
solitário de alguém que não tem mais nada a perder.
Foi assim que eu a
conhecei.
Não sei dizer se era
dia ou noite, da mesma forma que não saberia dizer se era primavera ou verão. Não
importa. Rosas teriam o mesmo perfume se tivessem outro nome.
Eu a conheci assim. No
silêncio, no escuro, sozinha. As várias garrafas que lhe faziam companhia em
sua mesa, não eram precisamente as melhores testemunhas das nossas primeiras
palavras. Mas foram as únicas.
Dizem que seu coração
sabe a hora certa e a pessoa certa. Mas depois dos 40, dos 45; bem, às vezes
não faz mais tanta diferença ser a hora e nem o seu coração saber de algo.
Ela me deu um sorriso
triste. Eu poderia sair correndo, ou poderia ignorar. Mas eu insisti.
-Senhora?
Seu gesto foi quase
imperceptível. Um leve manear de cabeça e um sussurro, como se implorasse.
-Sente-se.
Não é normal eu me
sentar com meus clientes. O bar está sempre lotado, mesmo nos dias mais tranqüilos,
e dificilmente sobra tempo para um flerte qualquer.
Mas naquele dia,
naquele momento, tudo era silêncio. O velho relógio alemão Lenzkirch, herança
do meu avô marcava as batidas das horas. Uma fresta de luz escorria pela
soleira da porta, fazendo os flocos de poeira bailar aos pares, como uma boneca
em uma caixinha de musica suíça Reuge.
Não sei dizer quanto
tempo fiquei ali. Era como se estivesse hipnotizado; pela dança de luz, pelos
flocos de poeira, pela batida do velho Lenzkirch. Era como se nada mais
existisse. E talvez realmente nada mais que existisse valesse à pena.
Foi sua voz que me
trouxe de volta. Uma lufada de ar em um pulmão afogado.
-Por favor!
Virei-me rapidamente,
como saindo de um sonho. Deparei-me com olhos inquisidores, profundos. Olhos de um verde escuro, que
se não fosse o brilho apagado de uma lâmpada acima de nós, juraria que eram
negros. Uma vez mais
ela me pediu, ainda mais incisiva.
-Sente-se. Por favor!
O som da sua voz era
leve, como o bater de asas de uma borboleta.
O silêncio a nossa
volta era ensurdecedor, invariavelmente quebrado por uma propaganda sem muita
importância no rádio.
Como em câmera lenta,
puxei a cadeira e sentei-me ao seu lado. O som das nossas respirações pairava
sobre nós.
Perguntei novamente.
–Senhora? -A velha educação. A maldita velha educação que não me permitia usar
palavras menos formais. Velhos hábitos demoram a desaparecer.
A resposta veio
rápida, como um reflexo, saindo às pressas de seus pequenos lábios.
-Cat. Meus amigos me chamam de Cat.
Foi como se um copo
tivesse se quebrado. No rádio Bon Jovi começava a cantar “Living on a Prayer.”
-Ela deve ser boa,
você não acha? A pergunta me pegou desprevenido. Meu rosto deve ter traído
minha confusão. Ela sorrio e começou a cantarolar baixinho: “Gina the diner all day. Working for her man, she brings home
her pay. For Love...”
Eu provavelmente
pareci mais bobo do que deveria. Levei algum tempo para conseguir dizer algo
novamente. A musica ecoava em meus ouvidos; “Take my hand, we'll make it, I swear, Whoah, Livin' On a Prayer’’
-Desculpe. Acho que
não ouvi direito o seu nome.
-Catelyn. Meu nome é
Catelyn. Mas meus... amigos me chamam de Cat. – a pausa foi um pouco demorada.
Ela pareceu corar. –Mas não é de gato. – disse
abaixando os olhos – É por que Catelyn parece soar grande de mais.
Tive vontade de
perguntar: “grande de mais para que? Ou seria; para quem?” Mas certas coisas em
sua vida fazem você se tornar um pouco mais reservado.
-Cat. - Me limitei a
repetir. Ela pareceu achar graça. Foi minha vez de corar. Com um esforço quase
sobre humano, consegui ser mais enfático. –É um nome bonito.
Dessa vez o seu
sorriso foi contagiante. O velho Lenzkirch marcava os segundos, a fresta de luz bailava com a
poeira, enquanto Bruce Springsteen cantava “The
River” no rádio. Sem sobreaviso ela tocou meus dedos. Seu toque era quente,
macio, enquanto o meu era um toque áspero, gelado. Mãos a muito esquecidas,
desacostumadas pelos anos de ausência de carinho.
-Eu precisava falar. –
seu tom era quase infantil. – Precisava ver alguém. Me desculpe.
As garrafas fizeram um
leve tilintar com o movimento sobre a mesa. Uma mecha de seu cabelo loiro caiu
sobre os olhos. Seu movimento foi delicado e preciso. Recolocou a mecha atrás
da orelha e voltou a tocar em meus dedos. O perfume que invadiu o ambiente
saído de seus cabelos tinha cheiro de seda macia, de orvalho, cheiro de manhã.
Eu procurava entender,
procurava palavras, procurava o meu chão. Foi tudo tão rápido, tudo intenso. As
garrafas balançando, seus dedos macios, o perfume de seus cabelos. Quando
consegui me fixar novamente em seus olhos, ela havia recomeçado a falar.
-Não tinha pra onde
ir. Não podia voltar lá, eles não me entenderam antes, porque iriam me entender
agora? –Suas palavras eram rápidas, como se quisesse se livrar, quisesse se
explicar. Era um pedido de desculpas.
A gaita de Bruce parecia
lhe dar coragem. Cada movimento era curto, rápido, gracioso. A cada palavra,
uma parte de seu casulo se abria.
-Eles não me entendem.
Pensei em oferecer uma
bebida, algo que pudesse nos dar tempo. Qualquer coisa que me tirasse daquele
transe, e me fizesse respirar novamente. Ela pareceu pressentir meu movimento.
Seus olhos verdes pousaram sobre os meus, pelo tempo que pareceu uma
eternidade. Olhos tão escuros, que na foto seriam negros.
Foi uma suplica. –Não.
Fique. Eu só preciso que fique. Por
favor!
Lá fora o dia
transcorria. Um carro derramava fumaça pela rua, crianças voltavam da escola,
donas de casa faziam a feira.
Ali dentro, apenas o
rádio que agora despejava fofocas em seu programa matinal, e o tic tac pesado,
cada vez mais pesado do relógio marcava nossos movimentos.
Talvez seja
interessante deixar claro que não sou nenhum romântico inocente. Mas depois de
dois casamentos desfeitos e de um filho que você não vê a mais de 5 anos,
certas coisas te fazem pensar. Mas isso não importa. Não agora, não aqui.
Me assustei ouvindo
minha própria voz: -Eu fico. Eu juro que
fico.
Não sei onde estava
quando disse aquelas palavras. (eu juro
que fico!) Talvez o medo de mais alguns anos daquela escuridão poeirenta,
talvez o silencio demasiadamente longo. –Ela poderia me salvar- disse a mim
mesmo. Ela bem poderia me salvar. O seu toque tornou-se mais forte, terminando
a envolver minhas mãos por completo. Se não a estivesse vendo sentada a minha
frente, poderia jurar que estava de joelhos, como se me implorasse perdão.
O som que saiu de seus
lábios delicados foi quase inaudível, mas foi como se uma estrela brilhasse no
horizonte.
–Obrigado. -Seus olhos se agarravam aos meus
da mesma forma como um naufrago se agarra a sua tábua de salvação.
Uma fina chuva começava
a cair. Como se lavasse os primeiros momentos do nosso encontro, como se
espantasse os fantasmas que pairavam sobre nós. Como que
ensaiado, no rádio tocava “Have you ever seen the rain?” do Creedence. Comecei
a cantarolar baixinho: “Someone told me long ago, There's a calm before the
storm, I know, it's been comin' for some time…”
Uma vez mais ela
sorri.
-Seu rádio tem bom
gosto pra musicas. -Sua voz soava alegre.
-Ele tem dias
inspirados. –brinquei. Eu me sentia mais leve. Seus dedos começaram a acompanhar
o ritmo da musica, mas voltaram a segurar minhas mãos.
-Cat, o que
aconteceu? -Achei estranho a intimidade usada na frase. As palavras
escorregaram pela minha boca como intrusas. Para minha surpresa ela pareceu se
divertir. Nossos olhos se encontraram. (Ela
poderia me salvar)
Foi a minha vez de
segurar suas mãos com força. Eu queria abraça - lá, apertá-la em meus braços,
sentir o perfume de seus cabelos, a suavidade da sua pele. Queria beijá-la nos
lábios, sentir o calor do seu corpo, o peso dele sobre o meu, sua respiração,
seu gosto... As palavras ecoavam em minha mente, implorando: Por favor. Fique!
O som que veio da
porta foi como um baque seco. A fresta de luz se transformando em um riacho,
invadindo toda a sala. O suave bailar dos flocos de poeira se tornando uma
multidão disforme, sem nenhuma elegância. Era como se algo tivesse
desaparecido.
Levantei-me
rapidamente, como se tivesse sido pego em flagrante. A pressão em meus ouvidos
não me permitiu ouvir uma garrafa se quebrando ao tocar o chão. Nossas mãos
foram separadas violentamente, como se fossemos cúmplices de um crime recém
descoberto.
Ainda pude vislumbrar
um ultimo sorriso triste em seus lábios vermelhos. Toda a alegria havia
desaparecido. Dirigi-me ao balcão para atender o intruso que invadia nosso
silencio. -Por favor. Fique! Eu
repetia sem saber para quem.
Quando voltei para a
mesa, Cat havia desaparecido. Cat! eu
sussurrei. Lá fora caia uma chuva fina. Empurrei a porta com ambas as mãos, como alguém que empurra um bandido e sai correndo sem direção, sem destino,
sem saber o porquê, sem saber pra quem. A voz pesada de Johnny Cash cantando “Hurt” foi ficando cada vez mais distante.
“What have I become? My
sweetest friend, everyone I know goes away, in the end…”
Eu corri sem saber
pra quem. Sem saber pra onde. Quando me encontrei, estava novamente na porta do
bar. Dizem que nosso corpo tem um mecanismo que faz com que você ande em
círculos e sempre volte ao mesmo lugar. Mais uma vez tudo era silencio.
Limpei os pés no
tapete e abri a porta lentamente, começando a esquecer de tudo. As lembranças
podem fazer você enlouquecer, e depois de um tempo, aprender a esquecer certas
coisas, torna-se questão de sobrevivência.
No rádio começa a
tocar “Vera” do Pink Floyd. “Does anybody here remember Vera
Lynn? Remember how she said that, we would meet again, some sunny day. Vera!
Vera! What has become of you does anybody else in here, Feel the way I do?”
No chão a garrafa
quebrada havia desaparecido. Sentada no mesmo lugar, Cat me olhava com olhos
sorridentes. Seu cabelo tinha cheiro de orvalho. Ela levantou e caminhou até
mim. Seus pés não fizeram barulho enquanto andava. Sem saber o que fazer, eu só
consegui perguntar, e dessa vez as palavras não pareceram estranhas em minha
boca.
-Cat, o que
aconteceu?
Ela tocou em meu
rosto molhado de chuva e suor, retirando uma mecha de cabelo negro que escorria
sobre meus olhos.
-O que aconteceu não
importa. O que importa agora somos nós dois.
Lá fora uma chuva
fina caia. Dizem que nada se compara ao primeiro beijo. No nosso caso, nada se
compara a nada.
O que aconteceu
depois? Bom, isso também não importa. O velho rádio não tocava mais nada.
Talvez esse momento não precisasse de musica, o som dos nossos corações era
suficiente. Dessa vez nenhum intruso, a porta trancada, só o nosso silencio
fazendo companhia. –Ela poderia me
salvar.
Como eu disse, essa
historia deve ser lida como uma oração, uma prece silenciosa. Eu espero que ela
tenha feito a sua parte. Que tenha sido leve. Leve como o bater de asas de uma
borboleta.