sexta-feira, 22 de junho de 2012

Hérica


Parou demoradamente em frente ao espelho. O vestido rodado espanhol, presente de aniversario de sua prima, fazia com que a curva suave da cintura se acentuasse ainda mais. Tinha os olhos pesados de maquiagem escura, fazendo suas sobrancelhas negras ficarem ainda mais evidentes. As maçãs do rosto estavam pintadas de vermelho e os lábios eram delicados como seda. Procurou um sapato de salto que combinasse com o vestido. Encontrou seu Louis Vuitton favorito junto à bolsa. Todos os presentes caros de amigos queridos. Lembrou de cada um deles com carinho.

Hérica não era uma mulher rica. Não quando se falava em dinheiro. Mas gostava de vestir-se bem não importando a marca das roupas. –A criatividade supera a falta de opções – costumava repetir quando se deparava com seu modesto closet. Os colares e os vestidos eram quase uma unanimidade em suas escolhas, mas ela era capaz de se portar elegantemente usando apenas um jeans surrado e uma t-shirt básica. Seus gestos elegantes e delicados porem faziam freqüentemente com que as roupas e os acessórios passassem despercebidos. Era por causa da sua educação e não pelos vestidos decotados que ela devia muito de suas conquistas. O calor do seu sorriso era capaz de aquecer o mais frio dos corações.

Mas hoje ela pretendia estar impecável. Sapatos Loius Vuitton, um lenço Chanel. Estava linda. Sentiu a pele se arrepiar quando as gotas de perfume a tocara. A fragrância doce invadiu o quarto espalhando-se rapidamente pela casa. Olhou-se novamente no espelho enquanto ensaiava um passo de dança. Permitiu-se um sorriso tímido enquanto se olhava. Sua beleza por vezes a surpreendia. Seu reflexo lhe retribuiu o sorriso através de lábios cuidadosamente pintados de vermelho. O vestido esvoaçante revelava a brancura das pernas. Uma fina corrente de prata ornamentava o tornozelo, provocando um leve som enquanto se movia.

Hérica contemplou demoradamente a curva do corpo sob o vestido. Era uma mulher bonita e estava pronta. Dirigiu-se à porta e antes de sair beijou o retrato da mãe. Uma torrente de emoções a invadiu. Foi preciso um esforço enorme para evitar que as lágrimas manchassem a maquiagem. Lembrou-se da mãe cantando junto ao radio enquanto preparava o café. Apertou o porta retrato junto ao peito e cantarolou baixinho –“Beautiful girl, stay whit me...”
***
O taxi a esperava na porta de casa. Um belo sedan preto reservado horas antes. A empresa contratada por Hérica era muito respeitada. Motoristas bem vestidos e educados que raramente se davam a liberdade de conversar com seus clientes, a menos que a iniciativa partisse dos mesmos. O preço pago -três vezes mais caro- compensava. O interior do veiculo era acolhedor. Bancos de couro, ar condicionado. Hérica sorrio gentilmente para o motorista.
-Boa noite senhora.
-Boa noite Tom. Uma linda noite hoje, você não acha?
-Agradabilíssima Hérica. E você, deslumbrante.
Hérica corou levemente. Tom era um grande amigo. Muito mais do que isso. Nos anos de juventude os dois viveram um amor intenso e distante. A religião e pressão dos pais impediram que ficassem juntos, mas nunca impediu que o amor dos dois crescesse. Ela ainda guardava a ultima carta dele. O papel já quebradiço pela quantidade de vezes que foi lido. Eles nunca deixaram de se amar. Ouviu Tom cantando baixinho - The Final Countdown, Europe. Fechou os olhos e começou a cantar junto. Primeiro em voz baixa, depois em voz alta. Tom era alto, usava a barba serrada e tinha uma voz marcante. Suas vozes juntas faziam um ótimo dueto. Quando a canção terminou, eles haviam chegado. Hérica ficou alguns segundos parada. As regras da companhia de taxi diziam que o motorista deveria parar o carro, descer imediatamente e abrir a porta do passageiro. Mas com eles tudo era diferente. Hérica o tocou no ombro. Tom segurou sua mão e a beijou. Ela usava o perfume que ele lhe dera. Seus olhos se encontraram no momento em que ele olhou para trás. –Eu amo você– Foram as palavras dele. Hérica soergue-se e o beijou suavemente nos lábios. –Eu amo você– Ela repetiu. Caminhou lentamente em direção ao átrio principal. A noite era agradável e uma grande lua iluminava o céu. Tom a acompanhou até a entrada. Beijou sua mão uma ultima vez antes de deixá-la seguir.

O interior do salão era ricamente decorado. As gravuras de grandes pintores cobriam as paredes, assim como jarros ornamentais e plantas exóticas. Grandes janelas permitiam que o ar noturno circulasse pelo grande salão, dando a sensação de um jardim aberto. Uma pequena e talentosa banda fazia um agradável som circular pelo ambiente. Hérica estava deslumbrada. Mesmo estando impecavelmente vestida, e ter uma educação excelente, era impossível não se sentir intimidada pelo ambiente. As pessoas ao seu redor sorriam o tempo todo e faziam gestos discretos de cumprimento, mas ela podia sentir a tensão dos olhares. A alta sociedade fareja quem é, e quem não é do seu circulo. Ela sabia que as roupas elegantes e os modos refinados não bastavam. Sentiu medo, mas seguiu em frente. Pensou em sua mãe, pensou em Tom. Sentiu o perfume que ele lhe dera no dia do seu aniversario. –Eu amo você. Repetiu baixinho.

Hérica continuou a caminhar elegantemente pelo salão. Seus passos eram leves e graciosos e ela fazia de tudo para não demonstrar seu nervosismo. Um garçom veio lhe oferecer uma taça de champagne, que ela aceitou com um sorriso. Ter as mãos ocupadas era um alivio. Por vezes se esquecia do que fazer com elas, e isso poderia lhe custar à produção da noite toda. Ouviu risos vindos de uma das mesas e virou-se nervosamente. O medo começava a tomar conta dela. A bebida serviu para acalma – lá. Olhou novamente ao redor. Estava preparada.
Avistou um pequeno púlpito ao final do salão. Embora seu tamanho não fosse tão expressivo, recebia grande destaque pela ornamentação e pela capacidade de ser visto de longe. Iluminação forte e uma potente aparelhagem de som completavam o conjunto, fazendo o contraste evidente da madeira trabalhada artesanalmente e a modernidade da eletrônica.

Ela sabia que era ali, naquele local que aconteceria o espetáculo da noite. Sentiu os joelhos tremendo. Lembrou-se da sua mãe naquelas manhãs frias, quando ainda era uma garotinha. O cheiro do café invadindo a cozinha, os ovos estralando na frigideira. A voz suave cantando baixinho. Herica sentava no degrau da escada e ficava observando aquela cena, todos os dias. Os cabelos de sua mãe possuíam um tom acinzentado, e ela os mantinha presos sob um cock. Eram as melhores lembranças da sua infância. Não havia conhecido o pai. Sua mãe tão pouco falava dele. –Temos tudo o que precisamos. Só precisamos uma da outra. –sua mãe sempre repetia. –Uma da outra. Uma lufada de ar fez seu corpo se arrepiar, trazendo-a de volta de seus pensamentos. A banda tocava “Wish you were here” do Pink Floyd. Uma lágrima escorreu por seu rosto. “How I wish, How I wish you were here, We're just two lost souls, Swimming in a fish bowl, Year after year…”

Hérica caminhou em direção ao pequeno púlpito. Era uma das poucas pessoas em pé. O jantar começava a ser servido, e os sons das risadas e dos talheres confundiam-se com a musica que tentava imperar sobre o ambiente. Era possível ver de longe as letras garrafais estampadas na faixa sobre o palanque. “Jantar de arrecadação de fundos para a campanha eleitoral”. Sentiu uma pontada de ira tomar conta de seus pensamentos, mas obrigou-se a controlar. Não era o momento de sentir raiva. Foi convidada a sentar-se junto a mesa de um casal. A educação da elite, ou o medo de ofender alguém mais poderoso do que eles? Hérica ignorou o questionamento e se sentou. Procurava manter a calma e esperar o momento certo. Respondia educadamente as perguntas do casal que lhe havia oferecido o lugar em sua mesa, mas as atenções estavam todas voltadas ao orador. Suas palavras eram atiradas a platéia de convidados como dardos envenenados, disfarçados de rosas. -Crescimento, renda, melhoria da qualidade de vida, emprego, saúde. Saúde. Hérica gargalhou. Talvez alto de mais. Talvez até inconsciente. Sentiu todos os olhares se voltarem em direção a sua mesa. Agora não havia mais volta. Sentiu as pernas tremendo, a respiração ofegante, mas ainda assim se levantou e caminhou calmamente até o local onde se encontrava o púlpito. As pessoas a olhavam sem compreenderem nada. Perguntas a respeito de quem ela era começavam a circular por todos os cantos. Hérica pediu gentilmente a palavra. Foi atendida. -A educação da elite, ou o medo de ofender alguém mais poderoso? Novamente ela ignorou. Era o momento dela.

-Eu gostaria de me desculpar. Talvez a bebida tenha sido um pouco forte de mais para mim. –disse essas palavras e dirigiu o olhar para sua taça vazia. Vários risos foram ouvidos. Ela sabia que toda aquela gente sorria pra alguém que apresentasse poder.  –Ou talvez, o fato de saber o quanto estou pagando por esse jantar tenha feito com que eu me divertisse tanto. Ou saber, para que nobre causa esse dinheiro está sendo usado. Para o crescimento. Para a melhora da qualidade de vida. Para a saúde! Hérica abriu um largo sorriso, e foi acompanhada por todos. Os olhares começavam a transmitir respeito por ela. Uma salva de palmas foi puxada, originada do antigo orador postado ao seu lado. Ela esperou as palmas acabarem. –Mas eu gostaria muito de saber. Crescimento de quem? Qualidade de vida de quem? Saúde de quem?

Os sorrisos foram colocados de lado. Os comentários otimistas também. O silêncio prevaleceu. Hérica se manteve firme. Lembrou-se da mãe na casa de repouso. Lembrou-se das incontáveis vezes em que precisou de ajuda. Dos momentos em que o dinheiro faltou. Lembrou-se de quando precisou carregar a mãe nos braços, pois faltava uma ambulância para socorrê-la. Sentiu novamente toda a dor da noticia das seqüelas do AVC. Ainda podia ler os lábios do médico dizendo que se tivesse sido socorrida a tempo, os traumas seriam menores. Passou dias ao lado da cama da mãe, sem dormir, sem comer. –Só precisamos uma da outra - ela repetia ao ouvido da mãe. Foi Tom que conseguiu trazê-la de volta. Foi Tom que conseguiu a casa de repouso. Foi ele que continuou ao seu lado quando seu mundo desabou com a noticia do falecimento da sua mãe. Hérica o avistou na porta de entrada. Seus olhos se encontraram e isso a encheu de energia.

Hérica sabia o porquê faltavam ambulâncias. Sabia o motivo de o atendimento ter sido tão tardio. Durante anos ela pesquisou sobre a política e fez amigos influentes. Descobriu relações, desvios, favorecimentos. Descobriu que no dia do AVC de sua mãe, as duas únicas ambulâncias disponíveis estavam presentes em uma única festa. Uma festa. A festa do filho de um político. A descoberta provocou náuseas em Hérica. Sua mãe poderia estar viva se não fosse por causa da festa de um filho de político riquinho. Hérica sabia os nomes, sabia as datas, mas não podia fazer nada. Sabia que seus argumentos eram sólidos, mas não provariam nada. Existiam pessoas mais influentes por trás de tudo. Pessoas influentes. Era disso que ela precisava. Mesmo que essas pessoas não soubessem que estavam a ajudando.
“O mal triunfa quando homens bons falham.” Ela na falharia. Sabia que para jogar o jogo deles, era preciso usar as mesmas armas. Dinheiro. Poder. –Nós precisamos de pessoas que trabalhem pelos necessitados. Nós precisamos de vocês. –Foram as ultimas palavras de Hérica. Deixou o púlpito sob uma salva de palmas. Os convidados ficaram em pé enquanto ela se dirigia elegantemente para a saída. A confusão era uma arma valiosa, e quanto menos perguntas fossem feitas, menor seria o risco. O antigo orador retomou a palavra, fazendo de tudo para aparentar controle. Usaria as palavras da estranha convidada a seu favor. Nada como uma socialite estranha para fazer aquelas pessoas abrirem as carteiras e contribuírem com a campanha de seu candidato. A arte do improviso. Sua qualidade de vida também estaria garantida, pensou enquanto discursava eloqüentemente. Na saída, Tom a aguardava com um sorriso no rosto. A metade do plano estava completa.


***
Hérica esta deitada no colo de Tom sob a sombra de uma arvore. O sol brilha forte sobre um céu azul com poucas nuvens. A brisa balança os seus cabelos, fazendo com que caiam sobre seu rosto. Tom se diverte com os pássaros brigando por um galho para o seu ninho. A sensação é de tranqüilidade.
A sua frente, a casa de repouso Nick ostenta uma grande fachada recentemente pintada. Hérica pode ver os olhos da mãe sorrindo para ela. Tom a abraçou forte quando o vento balançou seu vestido. –A única forma de vencê-los é usando suas próprias armas. E o dinheiro é sua principal fraqueza. –Tom havia dito uma vez. Processos não levariam a nada. Vamos brincar de Robbin Wood.

O dinheiro arrecadado naquela noite nunca foi encontrado. Durante a prestação de contas é que foi constatado o furo nos caixas. Seria simples explicar se fosse dinheiro de contribuintes. Mas não era. Aquele dinheiro vinha de pessoas poderosas, influentes. Pessoas que não permitiriam serem roubadas assim tão fáceis. Pessoas que esperavam um retorno satisfatório, e não simplesmente um pedido de desculpas. Dessa vez não houve segunda chance. Um político corrupto na prisão. Mesmo que dessa vez, ele fosse inocente. Algumas pessoas chamariam isso de “Ironia do destino”. Hérica chamava de justiça.

As pessoas certas, nos lugares certos. Eles haviam conseguido. Mesmo que parecesse mínimo. Aquele dinheiro não traria sua mãe de volta, nem serviria para transformar políticos corruptos em políticos honestos. Mas eles haviam conseguido. A casa de repouso Nick não sofria de falta de remédios, nem passava mais necessidades. E eles podiam finalmente ficar juntos. A brisa refrescante envolvia os dois. Hérica retirou um pequeno pedaço de papel da bolsa. O papel amarelo quase se desmanchava nas dobras. Entregou a Tom. As lagrimas fizeram com que sua vista se embaçasse. Hérica secou-lhe os olhos com vestido enquanto ele começava a ler.

“Eu preciso que entenda amor.
O fato de te deixar agora não significa que te ame menos, ou que em algum momento tenha deixado de te amar.
Pelo contrário. Deixo-te antes que seja tarde de mais pra conseguir ser forte novamente por nós dois.
Deixo-te com a certeza que preciso me preparar pra ser melhor que ontem, e que posso ser ainda melhor amanhã.
Preciso que entenda...
Temo não ser forte o suficiente nesse momento, e te deixo com a certeza que nossos corações nunca baterão isoladamente. Com a certeza que o meu amor repousa em segurança junto ao teu.
Deixo-te com a convicção de que o próximo encontro será tão doce como o primeiro. E o próximo beijo, e próximo dia, e os próximos sonhos, e os próximos anos, serão os primeiros (e os últimos) do restante de nossas vidas...”
Tom terminou de ler e ficou em silêncio. Lembrava-se do dia em que escreveu o bilhete. Da dor que sentiu em cada palavra. Existem motivos que jamais serão explicados - pensou. Hérica o abraçava pousando a cabeça em seu peito. Lentamente Tom rasgou o bilhete. Não era mais necessário esperar. Soltou os pedaços no ar. O vento se encarregou de espalhá-los pelo campo. De algum lugar da casa ouviu-se a voz de Kurt Cobain cantando “Oh Me”. Era hora do almoço. Esse era umas das regras da Nick. Na parede da entrada lia-se em letras grandes a frase de Friedrich Nietzsche: “Sem a música, a vida seria um erro.” Suas mãos se entrelaçaram e ficaram assim por muito tempo. Hérica se sentia segura ao seu lado e sabia que eles se amavam. Ela o beijou demoradamente enquanto ouviam a musica suave se espalhando pelo vento. –Eu amo você – ele disse. –Eu só preciso de você – ela repetiu e saiu correndo. O vestido e os cabelos esvoaçantes fizeram Tom sorrir. Apresou-se em levantar e a seguiu. Sabia que se chegasse por ultimo lavaria os pratos. E ele não queria terminar o dia com as mãos engorduradas.