A bolha que o incomodava
desde o começo da viagem finalmente se rompeu. –Merda.- limitou-se a dizer.
Sentiu o liquido escorrendo pelo tornozelo encharcando ainda mais o seu
confortável e moderno calçado de caminhada. Lembrou-se do vendedor simpático no
momento da compra. -É nosso ultimo modelo senhor –afirmava- Com ele o senhor
vai se sentir com os pés nas nuvens. -Eu poderia sentir meus pés em qualquer
lugar naquele momento, menos nas nuvens. A quantidade de adjetivos e nomes
difíceis que foram usados para descrever todas as funções de calçado levou mais
tempo do que a venda em si. Solado antiderrapante, kevlar, colunas de absorção de impactos. Senti-me
comprando uma nave espacial, a dizer pelo preço pago. -O clima a nossa
volta era agradável, mas quando você tem os pés acostumados a conviver dentro
de sapatos italianos e escritórios refrigerados, caminhadas ao ar livre não são
bem as melhores opções de lazer. A clareira em que nos encontrávamos era
repleta de arvores altas, flores coloridas e uma estrada enlameada. Os
cascalhos soltos faziam com que você se sentisse em um ringue de patinação
improvisado, fazendo com que cada passo fosse uma aventura. –Tudo bem, havia dito a mim mesmo. Uma
vez na vida não vai me matar. -Eu começava a me arrepender daquela afirmação.
Fazia algum tempo que aquele
passeio estava programado. Eu tentava fugir, me esquivando sempre, arrumando
uma reunião, uma viagem, um compromisso de ultima hora. Até que não teve jeito.
Era fim de tarde e eu me preparava pra deixar minha sala. Liguei o som e
coloquei uma velha canção do R.E.M “Losing
my Religion”. Os clássicos não morrem, e eu pretendo morrer ouvindo eles.
Fui até a janela, e observei a cidade crepuscular. Essa visão sempre me
impressionava, mesmo depois de tantos anos no 25° andar. Michael
Stipe parece estraçalhar as pequenas caixas acústicas do meu
Sony. Sua voz enche a sala e me leva pra muito longe dali –“I thought
that I heard you laughing. I thought that I
heard you sing. I think I thought I saw you try”. - Mary- Falei em voz baixa.
Foi há
muito tempo. Éramos jovens e pensávamos que nada importava mais do que o agora.
Foi tudo rápido e intenso. Da mesma forma que começou - com nossos lábios e
nossos corpos tão colados quanto era possível- terminou. Mary se mudou pra
outra cidade e não tornamos a nos encontrar. Foi há muito tempo, eu sei. Mas o
que eu posso fazer?
Escutei as
batidas na pesada porta de carvalho. A aljava pendurada na parede, presente de
um amigo, trazida do sul do Amazonas, dava um toque rústico ao interior
monocromático da sala.
John entrou
sem esperar minha autorização. Por vezes ele fazia assim, bater na porta só
para ser anunciado, mas dificilmente esperava alguma resposta antes de
adentrar. Os anos de amizades faz com que certos laços se criem entre as pessoas,
e sinceramente eu preferia assim. A placa presa a minha porta costuma intimidar
os visitantes, e ter uma presença intrusa e familiar como a de John faz com que
eu me sinta mais humano.
-Está demitido- disse com o semblante duro e fechado quando John fechou a porta. –Quem pensa que é para entrar sem permissão na sala do Diretor? –Qualquer pessoa se retiraria no exato momento. Mas John não era qualquer um. Limitou-se a me olhar com olhos zombateiros, e sentou-se atirando os pés sobre a mesa. O sacana ainda usava All Star. Eu adorava aquele garoto. –Eu sou o homem que conhece seus segredos. Os segredos secretos de Max! –Disse essas palavras como se esquadrinhasse um outdoor. –Daria um ótimo titulo para um romance você não acha? Seu sorriso era contagiante. Não consegui manter o rosto mais sério. O garoto tinha o dom de me fazer sorrir. E sabia usar isso a seu favor.
-Você não deveria estar em casa? –Tentei me manter sério. –Daqui a pouco seus pais vão começar a ligar para a policia novamente, achando que você fugiu de casa com aquela garota ruiva da loja de doces. Como era o nome dela mesmo? Anne, Janne?
-Não
esquenta tio. –Ele adora me chamar de tio. - Eu disse pra mamãe que ficaria até
mais tarde brincando na sala do tio Max. E a garota da loja de balas,
chamava-se Joanne. -Seu sorriso era contagiante. –Pensando na Mary? –A pergunta
foi como um soco no estomago. -Você sempre pensa nela ouvindo esses sons
antigos. R.E.M, Floyd, Stones. –John era uma das poucas pessoas que conheciam
Mary. Conseqüentemente era uma das poucas que me conheciam também. –Fiquei
olhando para ele sem responder. Não havia sido bem uma pergunta. Ele sabia.
O interfone
tocou quebrando o recente silencio provocado pelo final da musica. –O senhor
precisa de algo mais senhor Max? –Gina era nova e cobria as férias da minha
secretária. Ainda não havia se habituado aos meus horários. –Não Gina, pode ir
e aproveite o feriado. –Obrigado senhor. Para o senhor também. –A frase ficou
ecoando no silencio. Ela não me conhecia direito, não sabia que eu dificilmente
aproveitaria um feriado como todas as pessoas normais, indo pra praia, fazendo
churrascos, vendo os jogos do Bulls. No máximo iria até o café local para ler
um jornal. A muito eu havia perdido os prazeres da vida.
-Você ouviu
bem, senhor Diretor. Aproveitar bem o feriado. –John fazia as coisas parecerem simples. –Por que não pega o seu colchão inflável e vamos assar marshmallow no
quintal de casa?
-Por que eu
tenho medo de fogo. –respondi seco. Já sabia onde ele queria chegar. Há muito
tempo que John planejava me levar a um determinado passeio, por algumas
montanhas, que segundo ele “iriam me fazer um novo homem.” Comecei a juntar
minhas coisas de cara fechada me preparando para desligar o som.
-Qual é
Max? Uma vez na vida não vai te matar. –Ele estava em pé segurando minhas mãos.
Tinha olhos castanhos claro, e o rosto salpicado de sardas. Os cabelos negros
começavam a apresentar pequenas mechas brancas que John não fazia questão de
esconder. Tirou um pendrive do bolso e colocou no aparelho de som. –Ouve essa
pela gente. –Eu sabia a quem ele se referia. –Eu espero você amanhã as sete em
ponto. E não se esqueça de comprar um tênis decente pra caminhada. Ou você está
pensando em colocar seu belo Dolce
& Gabbana no barro?
John me deixou sozinho. Não era uma opção. Ele havia me dado uma ordem.
Que eu não me enganasse pelo seu sorriso, o sacana tinha me ganhado. Abri o
único arquivo no pendrive. Foi impossível não sorrir. Wendy Rene,
"After Laughter Comes
Tears" de 1964. O som parecia sair de um gramofone Victor Talking Machine. “When you're in love, you're happy. When your in a arm, you gaze. This
doesn't last always. After your laughter there will be tears” –Tudo bem –pensei –Pela
gente.
***
Fui
obrigado a parar e inspecionar o meu pé. Eu me sentia um escoteiro mirim saindo
direto das historias de Walt Disney, com sapatos para lama, mochila nas costas
e bastão para caminhadas. A diferença é que os escoteiros têm um propósito na
sua vida. Robert Stephenson Smyth
Baden-Powell fundador do escotismo mundial deixou como missão tornarem o mundo
um pouco melhor.
Eu ainda não havia encontrado o propósito daquele
final de semana. Praguejei em voz baixa no momento que vi o estado do meu pé. –Com
os pés nas nuvens. Maldito seja. –John estava parado ao meu lado. Como sempre
sorria. Não sei se o seu sorriso me confortava, ou se eu sentia vontade de
esganá-lo. Achei melhor deixar o estrangulamento para depois, afinal eu poderia
precisar dele pra me carregar de volta ao hotel.
Um pouco mais atrás vinha Call, com seus óculos
redondos e seu ipod nos ouvidos. Call era um intelectual dos anos 70, mas com
uma pontadinha de tecnologia. Dizia-se a seu respeito que a era do LSD não lhe
fizera muito bem. Call sempre ficava para trás nas caminhadas. Era obcecado por
plantas e flores, e a todo o momento sacava sua Nikon para registrar alguma
imagem interessante. Em determinado momento ficamos mais de uma hora parados
por que Call não conseguia captar um bom ângulo para registrar a foto de uma orquídea.
–As orquídeas são flores selvagens. –Dizia enquanto mudava de lugar tentando
captar a melhor imagem. –São mais resistentes que você Max. Não são parasitas, como muitos pensam. Elas só utilizam o material em decomposição que cai das árvores. –Sem parar de registrar as imagens
ele continuava, falando, mais sozinho do que com a gente. –Vocês deveriam ver
uma Cattleya labiata, ela é fabulosa.
–Mesmo não achando tanta graça na orquídea de Call, a pausa me fez bem. Mas
infelizmente, ainda havia muito caminho a ser percorrido.
Call parou ao nosso lado
assobiando uma melodia que provavelmente tocava em seu ipod. Demorei um pouco a
decifrar os acordes de John Lennon em “Jealous Guy”. Realmente Call era melhor
com fotografia do que com as musicas. Seu assobio era péssimo. –Max, Max. O que
diria Miró se te visse assim? –Call sempre gostava de fazer alguma
comparação absurda. Jaime Miró um terrorista basco, personagem de Sidney Sheldon no livro As Areias do Tempo. –Você certamente estaria morto. –Ao meu lado
John gargalhava. De todas as pessoas com quem eu me sentia bem, aqueles dois
eram praticamente os únicos. Limitei-me a tentar acertar o sapato em ambos ao
mesmo tempo, mas não tive muita sorte. John gargalhou ainda mais enquanto Call
retirava uma caixa de curativos da bolsa. –Vamos dar uma olhada nesse pé,
guerrilheiro. –Fui obrigado a gargalhar também.
Algumas horas mais tarde e chegamos a nossa pousada. Uma
confortável cabana de madeira, com tapetes grossos e um aconchegante sofá ao
centro. Pensei em me jogar ali mesmo, mas o som vindo do meu estomago foi
predominante. Eu estava faminto. –Suba, tome um banho e depois jantaremos. Uma
noite de sono fará de você um novo homem. -John se afastou antes que eu
tentasse acertá-lo com o sapato novamente.
Acordei no dia seguinte com John me cutucando as costelas. Eu
me sentia como se tivesse sido pisoteado pelos touros da corrida de Pamplona.
–Você acordará como um novo homem, ele havia me dito. Meu pé estava em um
estado deplorável. Foi um sofrimento calçar novamente meu sapato de caminhada.
Depois muito praguejar, finalmente consegui. John e Call me aguardavam do lado
de fora, atirando pedras em um riacho.
-Bom dia guerrilheiro. Como vai esse pé nessa linda manhã?
–Call usava uma roupa camuflada tão larga que serviria tranquilamente para duas
pessoas. –Vamos ao encontro de Mary? –Aquela pergunta roubou o calor do meu
corpo. Call também conhecia Mary. –O que você disse? –As palavras mal saiam da
minha boca. Um filme passava em minha cabeça. –Ao encontro de quem? –Balbuciei
as palavras.
John tocou-me no braço. –Max. Mary é o nome de uma montanha.
Nós vamos subir hoje. –Disse isso apontando pra cima. –Lá! Tudo que eu pude fazer foi anuir. Um novo homem. Vamos lá
então, eu repetia. Dentro da pousada o cheiro de café fresco e de pão quente
era quase um alivio. Stevie Nicks cantava “Edge
of Seventeen”. Era praticamente impossível não pensar em Mary. –Eu vou ser sua para sempre. Pra sempre!
–Ela me dizia quando estávamos juntos. Mary tinha os cabelos negros como à
noite que escorriam por seus ombros acompanhando a linha suave da cintura.
Sempre que podíamos íamos ao bosque acima da casa meus pais. Era ali que nossos
sonhos tomavam conta de nós. Uma casa na colina, grandes janelas azuis,
dálmatas pelo quintal. Nós não pensávamos em mais nada. Só precisávamos um do
outro.
Foi John que me trouxe de volta. Ele parecia se divertir com
o meu devaneio. –Tudo pronto tio Max? –Não, não estava nada pronto. Mas como eu
sabia que isso não adiantaria com aqueles dois, me forcei a balançar levemente
a cabeça. Meus pais sempre me diziam que o que aqui se faz, aqui se paga.
Talvez eu estivesse com muitas dividas acumuladas.
O inicio do trecho foi feito em um velho Jeep, que pelo seu
estado de conservação, podia muito bem ter sido usado na guerra. Ainda assim
foi um alivio. Era melhor sofrer sentado, do que caminhando. Fomos deixados a 6
km do topo da montanha. Uma caminhada agradável de no máximo 2 horas segundo o
guia. Mais uma vez aquelas palavras. Agradável, confortável. Eu não conseguia
entender onde eles viam aquilo tudo.
Descemos os três e começamos a caminhar. Call se colocou ao
meu lado. –Não importa pra onde você vai Max. O importante é saber o que você
busca, e o que ficou pra trás. Velhos fantasmas não vão te levar a lugar algum.
Tesouros enterrados e historias de piratas não vão trazê-la de volta. Mas você
pode. Sabe disso, sabe que pode. Pensa nisso velho. –E se afastou com sua Nikon
registrando todas as plantas ao redor.
Uma lagrima escorreu pelo canto do olho. Sequei-a tão
rapidamente quanto pude, mas John foi ainda mais rápido. Não é nem um pouco
comum eu chorar. John sabe bem disso.
-Eu prometo não contar a ninguém. –John fazia o sinal da
promessa escoteira, com os três dedos em riste e o polegar sobre o dedo mínimo
ao lado da cabeça. Não olhei para o lado.
–Qual é Max. Estamos sozinhos cara. Será que você não percebeu ainda o porquê
eu te trouxe aqui? Uma montanha chamada
Mary! Deixa sair. Não ouviu o Call? Você pode. Até quando vai fazer de
conta que ela não existe?
A voz suave de John era cortante. A cada palavra uma nova
lagrima brotava. Ao final da frase eu estava em prantos. Não consegui me
lembrar quando foi a ultima vez que chorei de verdade. Senti meu rosto molhado,
e a boca emplastada de saliva. As lagrimas escorriam como se não tivessem fim,
e a dor nos meus pés foi substituída por uma dor insuportável no peito. Call
nos observava de longe, com um sorriso enigmático. Eles haviam conseguido.
A caminhada foi esquecida. Retornamos a pé para a pousada e
partimos no mesmo dia. Era hora de pagar meus pecados. Tive febre durante a
viagem. Devaneios provocados pela alta temperatura me transportaram a anos
passados. Mary deitada no meu peito na nossa ultima noite juntos antes dela
partir. A luz da lua iluminava seus cabelos negros fazendo com que parecesse um
oceano ondulante. Ela tinha os olhos inquietos, e fazia movimentos circulares
com os dedos sobre minha camisa. Olhando-me nos olhos havia dito que estava
grávida. Uma infinidade de emoções me invadiu. As lagrimas escorriam dos nossos
olhos como se um dique houvesse se partido. Naquela noite não fizemos amor. Mas
em nenhuma outra noite houve tanto amor entre nós. Foi ultima vez que eu a vi.
Foi a ultima vez que eu chorei.
Acordei com os solavancos do carro adentrando a uma garagem
desconhecida. Não me lembrava de ter visto Call descer. John escutava “Black” do Pear Jam e cantava junto com Eddie Vedder –“I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be
a star. In somebody else's sky, but why, why,
why. Can't it be, can't it be mine” –John- eu chamei. Ele me olhou com a expressão que estava dando o máximo de si
na canção. –Por favor, cale a boca. Seu gosto é ótimo, mas sua voz é horrível!
–Ele sorrio. –Pronto. O bom, velho e mal humorado Max está de volta senhoras e
senhores. Uma salva de palmas, por favor. –Olhei com atenção ao redor para
tentar reconhecer o lugar. Arvores baixas e uma estrada de pedra levavam até um
quintal espaçoso. O lugar era familiar, como a lembrança de um sonho a muito
esquecido. –Lembra-se disso Max? John me olhava sério. Não precisei responder.
Claro que me lembrava.
Na porta de
entrada, uma jovem nos aguardava. Seu rosto era familiar. John nos apresentou
sem perder a oportunidade de fazer uma graça. -Max, esta é a garota da loja de
doces, mas se a chamar pelo nome ganha um desconto nas jujubas. -O sorriso
nunca o abandonava. Joanne exibia um sorriso tímido pela minha presença, mas o
olhar que ambos trocavam deixava escapar a felicidade contida na presença um do
outro.
Max
adentrou ao pequeno vestíbulo. Aquela sala, aquele lugar. As lembranças vinham
como uma torrente. John e Joanne entraram atrás, com passos mais lentos. Foi
John que a chamou. –Melissa. –Uma jovem veio correndo saindo de um dos quartos.
Seus cabelos eram negros e compridos. Os olhos de Max se encheram de água. A
jovem possuía um sorriso iluminador. Antes que John, ou qualquer outra pessoa
pudesse dizer alguma coisa, Melissa pegou Max pelas mãos. O toque o fez arrepiar
inteiro. –Vem tio. –Foram as palavras ditas por ela. –As lagrimas escorriam
pelo rosto de Max. –Vem! –Ela disse mais uma vez puxando Max pelas mãos. Tudo
que ele pode fazer foi segui-la. Ela o levou até um quarto. Na cabeceira de uma
das camas uma foto desbotada. –Mary. Max sentia o corpo todo estremecer. –Senta
tio. –Ela tinha os olhos e os cabelos da mãe, mas os gestos eram de Max. Os
traços inconfundíveis de síndrome de Down não conseguiam afastar a beleza e a
graça do sorriso de Mary. Melissa sorria o tempo todo.
Max se
lembrou do dia que recebera a noticia do nascimento de Melissa. Os pais de Mary
a obrigaram a abandonar a criança logo depois que souberam da gravidez. Mary
fugiu de casa e só mandou a noticia do nascimento da filha para John. Ela sabia
que ele era o único que Max ouviria. Mas o rancor não permitiu a Max aceitar a
filha com a doença. Os tempos eram difíceis, dizia ele, não podia cuidar de uma
criança defeituosa. Max nunca mais amou ninguém, nunca mais teve outra mulher.
Foi uma vida sozinha. John era o único que sabia onde Melissa estava. Ainda
assim Max a visitou poucas vezes. Sua vida emocional foi substituída pelo
trabalho, pela empresa, pelo seu cargo.
Agora ela
estava ali, sentada ao seu lado na cama, mostrando os desenhos das arvores de
natal, das fachadas enfeitadas. Na estante, os presentes e fotos com John e
Joanne. Na mesa de cabeceira um grande pote de balas. Melissa ofereceu uma e
explicou que só podia comer uma por dia. –Tio John diz que estraga os dentes.
–Ela fala em tom de advertência, ao mesmo tempo em que mostrava os dentes
impecavelmente cuidados.
Max
afagou-lhe os cabelos enquanto aceitava o doce. Ouviu Call dizendo, “Tesouros enterrados e historias de piratas não vão trazê-la de
volta. Mas você pode. Sabe disso, sabe que pode.” Ele havia encontrado o seu
tesouro. Sentiu como se Mary estivesse deitada novamente em seu peito no
momento em que Melissa o abraçou. As lagrimas escorriam sem controle. De algum
lugar da casa ouviam-se os ecos marcantes da voz de Freddie Mercury cantando “I
Want To Breake Free”. ‘’But life still goes on. I can't get used to, living without, living
without, Living without you by my side. I don't want to live alone, hey.’’
Da
cabeceira da cama, Mary os observava. Uma suave brisa entrava pela janela. Lá
fora os pássaros cantavam uma melodia alegre, fazendo Melissa correr até a
gaveta trazendo um caderno de desenhos surrado. Ela folhou rapidamente até
encontrar o desenho que depositou no colo de Max. Uma fresta de luz incidia no
papel fazendo o brilhar. No desenho feito por mãos inábeis, viam-se três
pessoas disformes. Melissa apontava o papel. –Eu, mamãe e papai. –Disse as
palavras apontando para o próprio peito, para o desenho e para o peito de Max. –Papai.
Max a
abraçou forte. Tão forte e apertado quanto era possível. Ficaram abraçados sem
dizer uma palavra. As lagrimas diziam mais que tudo. Ouviu a voz suave de
Melissa, como se fosse um mantra. –Melissa, Papai e Mamãe. –Max fechou os
olhos. Sabia que dali pra frente tudo seria novo. Ela havia encontrado o seu
propósito.
Melissa
repetia seu mantra, tocando primeiro em seu peito, depois no peito de Max e por
ultimo no caderno. Mas dessa vez o papel não fez barulho. Ela sempre tocava tão
forte no desenho de Mary, que o papel chegava quase a se rasgar. Max sentiu o
braço de Melissa passando sobre seus ombros, como se apontasse para a porta.
Abraçou a filha novamente.
–Eu vou ser sua para sempre. Pra sempre! –Foram as ultimas palavras
que Max ouviu antes de olhar para trás.