quarta-feira, 13 de junho de 2012

Max


A bolha que o incomodava desde o começo da viagem finalmente se rompeu. –Merda.- limitou-se a dizer. Sentiu o liquido escorrendo pelo tornozelo encharcando ainda mais o seu confortável e moderno calçado de caminhada. Lembrou-se do vendedor simpático no momento da compra. -É nosso ultimo modelo senhor –afirmava- Com ele o senhor vai se sentir com os pés nas nuvens. -Eu poderia sentir meus pés em qualquer lugar naquele momento, menos nas nuvens. A quantidade de adjetivos e nomes difíceis que foram usados para descrever todas as funções de calçado levou mais tempo do que a venda em si. Solado antiderrapante, kevlar, colunas de absorção de impactos. Senti-me comprando uma nave espacial, a dizer pelo preço pago. -O clima a nossa volta era agradável, mas quando você tem os pés acostumados a conviver dentro de sapatos italianos e escritórios refrigerados, caminhadas ao ar livre não são bem as melhores opções de lazer. A clareira em que nos encontrávamos era repleta de arvores altas, flores coloridas e uma estrada enlameada. Os cascalhos soltos faziam com que você se sentisse em um ringue de patinação improvisado, fazendo com que cada passo fosse uma aventura. –Tudo bem, havia dito a mim mesmo. Uma vez na vida não vai me matar. -Eu começava a me arrepender daquela afirmação.


Fazia algum tempo que aquele passeio estava programado. Eu tentava fugir, me esquivando sempre, arrumando uma reunião, uma viagem, um compromisso de ultima hora. Até que não teve jeito. Era fim de tarde e eu me preparava pra deixar minha sala. Liguei o som e coloquei uma velha canção do R.E.M “Losing my Religion”. Os clássicos não morrem, e eu pretendo morrer ouvindo eles. Fui até a janela, e observei a cidade crepuscular. Essa visão sempre me impressionava, mesmo depois de tantos anos no 25° andar. Michael Stipe parece estraçalhar as pequenas caixas acústicas do meu Sony. Sua voz enche a sala e me leva pra muito longe dali –“I thought that I heard you laughing. I thought that I heard you sing. I think I thought I saw you try”. - Mary- Falei em voz  baixa.

Foi há muito tempo. Éramos jovens e pensávamos que nada importava mais do que o agora. Foi tudo rápido e intenso. Da mesma forma que começou - com nossos lábios e nossos corpos tão colados quanto era possível- terminou. Mary se mudou pra outra cidade e não tornamos a nos encontrar. Foi há muito tempo, eu sei. Mas o que eu posso fazer?

Escutei as batidas na pesada porta de carvalho. A aljava pendurada na parede, presente de um amigo, trazida do sul do Amazonas, dava um toque rústico ao interior monocromático da sala.

John entrou sem esperar minha autorização. Por vezes ele fazia assim, bater na porta só para ser anunciado, mas dificilmente esperava alguma resposta antes de adentrar. Os anos de amizades faz com que certos laços se criem entre as pessoas, e sinceramente eu preferia assim. A placa presa a minha porta costuma intimidar os visitantes, e ter uma presença intrusa e familiar como a de John faz com que eu me sinta mais humano.

-Está demitido- disse com o semblante duro e fechado quando John fechou a porta. –Quem pensa que é para entrar sem permissão na sala do Diretor? –Qualquer pessoa se retiraria no exato momento. Mas John não era qualquer um. Limitou-se a me olhar com olhos zombateiros, e sentou-se atirando os pés sobre a mesa. O sacana ainda usava All Star. Eu adorava aquele garoto. –Eu sou o homem que conhece seus segredos. Os segredos secretos de Max! –Disse essas palavras como se esquadrinhasse um outdoor. –Daria um ótimo titulo para um romance você não acha? Seu sorriso era contagiante. Não consegui manter o rosto mais sério. O garoto tinha o dom de me fazer sorrir. E sabia usar isso a seu favor.
-Você não deveria estar em casa? –Tentei me manter sério. –Daqui a pouco seus pais vão começar a ligar para a policia novamente, achando que você fugiu de casa com aquela garota ruiva da loja de doces. Como era o nome dela mesmo? Anne, Janne?

Preciso deixar claro que John não é realmente um garoto, e nem mora mais com os pais. Na verdade John é apenas alguns anos mais novo do que eu, mas o fato como se veste, e as gírias que freqüentemente usa, faz com que se pareça muito mais novo. Ele é o tipo de homem que as moças mais novas chamam de “boa pinta”. Uma espécie de Richard Gere com butox.

-Não esquenta tio. –Ele adora me chamar de tio. - Eu disse pra mamãe que ficaria até mais tarde brincando na sala do tio Max. E a garota da loja de balas, chamava-se Joanne. -Seu sorriso era contagiante. –Pensando na Mary? –A pergunta foi como um soco no estomago. -Você sempre pensa nela ouvindo esses sons antigos. R.E.M, Floyd, Stones. –John era uma das poucas pessoas que conheciam Mary. Conseqüentemente era uma das poucas que me conheciam também. –Fiquei olhando para ele sem responder. Não havia sido bem uma pergunta. Ele sabia.

O interfone tocou quebrando o recente silencio provocado pelo final da musica. –O senhor precisa de algo mais senhor Max? –Gina era nova e cobria as férias da minha secretária. Ainda não havia se habituado aos meus horários. –Não Gina, pode ir e aproveite o feriado. –Obrigado senhor. Para o senhor também. –A frase ficou ecoando no silencio. Ela não me conhecia direito, não sabia que eu dificilmente aproveitaria um feriado como todas as pessoas normais, indo pra praia, fazendo churrascos, vendo os jogos do Bulls. No máximo iria até o café local para ler um jornal. A muito eu havia perdido os prazeres da vida.

-Você ouviu bem, senhor Diretor. Aproveitar bem o feriado. –John fazia as coisas parecerem simples. –Por que não pega o seu colchão inflável e vamos assar marshmallow no quintal de casa?

-Por que eu tenho medo de fogo. –respondi seco. Já sabia onde ele queria chegar. Há muito tempo que John planejava me levar a um determinado passeio, por algumas montanhas, que segundo ele “iriam me fazer um novo homem.” Comecei a juntar minhas coisas de cara fechada me preparando para desligar o som.

-Qual é Max? Uma vez na vida não vai te matar. –Ele estava em pé segurando minhas mãos. Tinha olhos castanhos claro, e o rosto salpicado de sardas. Os cabelos negros começavam a apresentar pequenas mechas brancas que John não fazia questão de esconder. Tirou um pendrive do bolso e colocou no aparelho de som. –Ouve essa pela gente. –Eu sabia a quem ele se referia. –Eu espero você amanhã as sete em ponto. E não se esqueça de comprar um tênis decente pra caminhada. Ou você está pensando em colocar seu belo Dolce & Gabbana no barro?

John me deixou sozinho. Não era uma opção. Ele havia me dado uma ordem. Que eu não me enganasse pelo seu sorriso, o sacana tinha me ganhado. Abri o único arquivo no pendrive. Foi impossível não sorrir. Wendy Rene, "After Laughter Comes Tears" de 1964. O som parecia sair de um gramofone Victor Talking Machine. “When you're in love, you're happy. When your in a arm, you gaze. This doesn't last always. After your laughter there will be tears” –Tudo bem –pensei –Pela gente.
***
Fui obrigado a parar e inspecionar o meu pé. Eu me sentia um escoteiro mirim saindo direto das historias de Walt Disney, com sapatos para lama, mochila nas costas e bastão para caminhadas. A diferença é que os escoteiros têm um propósito na sua vida. Robert Stephenson Smyth Baden-Powell fundador do escotismo mundial deixou como missão tornarem o mundo um pouco melhor.
Eu ainda não havia encontrado o propósito daquele final de semana. Praguejei em voz baixa no momento que vi o estado do meu pé. –Com os pés nas nuvens. Maldito seja. –John estava parado ao meu lado. Como sempre sorria. Não sei se o seu sorriso me confortava, ou se eu sentia vontade de esganá-lo. Achei melhor deixar o estrangulamento para depois, afinal eu poderia precisar dele pra me carregar de volta ao hotel.

Um pouco mais atrás vinha Call, com seus óculos redondos e seu ipod nos ouvidos. Call era um intelectual dos anos 70, mas com uma pontadinha de tecnologia. Dizia-se a seu respeito que a era do LSD não lhe fizera muito bem. Call sempre ficava para trás nas caminhadas. Era obcecado por plantas e flores, e a todo o momento sacava sua Nikon para registrar alguma imagem interessante. Em determinado momento ficamos mais de uma hora parados por que Call não conseguia captar um bom ângulo para registrar a foto de uma orquídea. –As orquídeas são flores selvagens. –Dizia enquanto mudava de lugar tentando captar a melhor imagem. –São mais resistentes que você Max. Não são parasitas, como muitos pensam. Elas só utilizam o material em decomposição que cai das árvores. –Sem parar de registrar as imagens ele continuava, falando, mais sozinho do que com a gente. –Vocês deveriam ver uma Cattleya labiata, ela é fabulosa. –Mesmo não achando tanta graça na orquídea de Call, a pausa me fez bem. Mas infelizmente, ainda havia muito caminho a ser percorrido.

Call parou ao nosso lado assobiando uma melodia que provavelmente tocava em seu ipod. Demorei um pouco a decifrar os acordes de John Lennon em “Jealous Guy”. Realmente Call era melhor com fotografia do que com as musicas. Seu assobio era péssimo. –Max, Max. O que diria Miró se te visse assim? –Call sempre gostava de fazer alguma comparação absurda. Jaime Miró um terrorista basco, personagem de Sidney Sheldon no livro As Areias do Tempo.  –Você certamente estaria morto. –Ao meu lado John gargalhava. De todas as pessoas com quem eu me sentia bem, aqueles dois eram praticamente os únicos. Limitei-me a tentar acertar o sapato em ambos ao mesmo tempo, mas não tive muita sorte. John gargalhou ainda mais enquanto Call retirava uma caixa de curativos da bolsa. –Vamos dar uma olhada nesse pé, guerrilheiro. –Fui obrigado a gargalhar também.

Algumas horas mais tarde e chegamos a nossa pousada. Uma confortável cabana de madeira, com tapetes grossos e um aconchegante sofá ao centro. Pensei em me jogar ali mesmo, mas o som vindo do meu estomago foi predominante. Eu estava faminto. –Suba, tome um banho e depois jantaremos. Uma noite de sono fará de você um novo homem. -John se afastou antes que eu tentasse acertá-lo com o sapato novamente.

Acordei no dia seguinte com John me cutucando as costelas. Eu me sentia como se tivesse sido pisoteado pelos touros da corrida de Pamplona. –Você acordará como um novo homem, ele havia me dito. Meu pé estava em um estado deplorável. Foi um sofrimento calçar novamente meu sapato de caminhada. Depois muito praguejar, finalmente consegui. John e Call me aguardavam do lado de fora, atirando pedras em um riacho.
-Bom dia guerrilheiro. Como vai esse pé nessa linda manhã? –Call usava uma roupa camuflada tão larga que serviria tranquilamente para duas pessoas. –Vamos ao encontro de Mary? –Aquela pergunta roubou o calor do meu corpo. Call também conhecia Mary. –O que você disse? –As palavras mal saiam da minha boca. Um filme passava em minha cabeça. –Ao encontro de quem? –Balbuciei as palavras.
John tocou-me no braço. –Max. Mary é o nome de uma montanha. Nós vamos subir hoje. –Disse isso apontando pra cima. –Lá! Tudo que eu pude fazer foi anuir. Um novo homem. Vamos lá então, eu repetia. Dentro da pousada o cheiro de café fresco e de pão quente era quase um alivio. Stevie Nicks cantava “Edge of Seventeen”. Era praticamente impossível não pensar em Mary. –Eu vou ser sua para sempre. Pra sempre! –Ela me dizia quando estávamos juntos. Mary tinha os cabelos negros como à noite que escorriam por seus ombros acompanhando a linha suave da cintura. Sempre que podíamos íamos ao bosque acima da casa meus pais. Era ali que nossos sonhos tomavam conta de nós. Uma casa na colina, grandes janelas azuis, dálmatas pelo quintal. Nós não pensávamos em mais nada. Só precisávamos um do outro.

Foi John que me trouxe de volta. Ele parecia se divertir com o meu devaneio. –Tudo pronto tio Max? –Não, não estava nada pronto. Mas como eu sabia que isso não adiantaria com aqueles dois, me forcei a balançar levemente a cabeça. Meus pais sempre me diziam que o que aqui se faz, aqui se paga. Talvez eu estivesse com muitas dividas acumuladas.
O inicio do trecho foi feito em um velho Jeep, que pelo seu estado de conservação, podia muito bem ter sido usado na guerra. Ainda assim foi um alivio. Era melhor sofrer sentado, do que caminhando. Fomos deixados a 6 km do topo da montanha. Uma caminhada agradável de no máximo 2 horas segundo o guia. Mais uma vez aquelas palavras. Agradável, confortável. Eu não conseguia entender onde eles viam aquilo tudo.

Descemos os três e começamos a caminhar. Call se colocou ao meu lado. –Não importa pra onde você vai Max. O importante é saber o que você busca, e o que ficou pra trás. Velhos fantasmas não vão te levar a lugar algum. Tesouros enterrados e historias de piratas não vão trazê-la de volta. Mas você pode. Sabe disso, sabe que pode. Pensa nisso velho. –E se afastou com sua Nikon registrando todas as plantas ao redor.
Uma lagrima escorreu pelo canto do olho. Sequei-a tão rapidamente quanto pude, mas John foi ainda mais rápido. Não é nem um pouco comum eu chorar. John sabe bem disso.
-Eu prometo não contar a ninguém. –John fazia o sinal da promessa escoteira, com os três dedos em riste e o polegar sobre o dedo mínimo ao lado da cabeça. Não olhei para o lado.      –Qual é Max. Estamos sozinhos cara. Será que você não percebeu ainda o porquê eu te trouxe aqui? Uma montanha chamada Mary! Deixa sair. Não ouviu o Call? Você pode. Até quando vai fazer de conta que ela não existe?
A voz suave de John era cortante. A cada palavra uma nova lagrima brotava. Ao final da frase eu estava em prantos. Não consegui me lembrar quando foi a ultima vez que chorei de verdade. Senti meu rosto molhado, e a boca emplastada de saliva. As lagrimas escorriam como se não tivessem fim, e a dor nos meus pés foi substituída por uma dor insuportável no peito. Call nos observava de longe, com um sorriso enigmático. Eles haviam conseguido.

A caminhada foi esquecida. Retornamos a pé para a pousada e partimos no mesmo dia. Era hora de pagar meus pecados. Tive febre durante a viagem. Devaneios provocados pela alta temperatura me transportaram a anos passados. Mary deitada no meu peito na nossa ultima noite juntos antes dela partir. A luz da lua iluminava seus cabelos negros fazendo com que parecesse um oceano ondulante. Ela tinha os olhos inquietos, e fazia movimentos circulares com os dedos sobre minha camisa. Olhando-me nos olhos havia dito que estava grávida. Uma infinidade de emoções me invadiu. As lagrimas escorriam dos nossos olhos como se um dique houvesse se partido. Naquela noite não fizemos amor. Mas em nenhuma outra noite houve tanto amor entre nós. Foi ultima vez que eu a vi. Foi a ultima vez que eu chorei.

Acordei com os solavancos do carro adentrando a uma garagem desconhecida. Não me lembrava de ter visto Call descer. John escutava “Black” do Pear Jam e cantava junto com Eddie Vedder –“I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be a star. In somebody else's sky, but why, why, why. Can't it be, can't it be mine” –John- eu chamei. Ele me olhou com a expressão que estava dando o máximo de si na canção. –Por favor, cale a boca. Seu gosto é ótimo, mas sua voz é horrível! –Ele sorrio. –Pronto. O bom, velho e mal humorado Max está de volta senhoras e senhores. Uma salva de palmas, por favor. –Olhei com atenção ao redor para tentar reconhecer o lugar. Arvores baixas e uma estrada de pedra levavam até um quintal espaçoso. O lugar era familiar, como a lembrança de um sonho a muito esquecido. –Lembra-se disso Max? John me olhava sério. Não precisei responder. Claro que me lembrava.

Na porta de entrada, uma jovem nos aguardava. Seu rosto era familiar. John nos apresentou sem perder a oportunidade de fazer uma graça. -Max, esta é a garota da loja de doces, mas se a chamar pelo nome ganha um desconto nas jujubas. -O sorriso nunca o abandonava. Joanne exibia um sorriso tímido pela minha presença, mas o olhar que ambos trocavam deixava escapar a felicidade contida na presença um do outro.
Max adentrou ao pequeno vestíbulo. Aquela sala, aquele lugar. As lembranças vinham como uma torrente. John e Joanne entraram atrás, com passos mais lentos. Foi John que a chamou. –Melissa. –Uma jovem veio correndo saindo de um dos quartos. Seus cabelos eram negros e compridos. Os olhos de Max se encheram de água. A jovem possuía um sorriso iluminador. Antes que John, ou qualquer outra pessoa pudesse dizer alguma coisa, Melissa pegou Max pelas mãos. O toque o fez arrepiar inteiro. –Vem tio. –Foram as palavras ditas por ela. –As lagrimas escorriam pelo rosto de Max. –Vem! –Ela disse mais uma vez puxando Max pelas mãos. Tudo que ele pode fazer foi segui-la. Ela o levou até um quarto. Na cabeceira de uma das camas uma foto desbotada. –Mary. Max sentia o corpo todo estremecer. –Senta tio. –Ela tinha os olhos e os cabelos da mãe, mas os gestos eram de Max. Os traços inconfundíveis de síndrome de Down não conseguiam afastar a beleza e a graça do sorriso de Mary. Melissa sorria o tempo todo.

Max se lembrou do dia que recebera a noticia do nascimento de Melissa. Os pais de Mary a obrigaram a abandonar a criança logo depois que souberam da gravidez. Mary fugiu de casa e só mandou a noticia do nascimento da filha para John. Ela sabia que ele era o único que Max ouviria. Mas o rancor não permitiu a Max aceitar a filha com a doença. Os tempos eram difíceis, dizia ele, não podia cuidar de uma criança defeituosa. Max nunca mais amou ninguém, nunca mais teve outra mulher. Foi uma vida sozinha. John era o único que sabia onde Melissa estava. Ainda assim Max a visitou poucas vezes. Sua vida emocional foi substituída pelo trabalho, pela empresa, pelo seu cargo.

Agora ela estava ali, sentada ao seu lado na cama, mostrando os desenhos das arvores de natal, das fachadas enfeitadas. Na estante, os presentes e fotos com John e Joanne. Na mesa de cabeceira um grande pote de balas. Melissa ofereceu uma e explicou que só podia comer uma por dia. –Tio John diz que estraga os dentes. –Ela fala em tom de advertência, ao mesmo tempo em que mostrava os dentes impecavelmente cuidados.
Max afagou-lhe os cabelos enquanto aceitava o doce. Ouviu Call dizendo, “Tesouros enterrados e historias de piratas não vão trazê-la de volta. Mas você pode. Sabe disso, sabe que pode.” Ele havia encontrado o seu tesouro. Sentiu como se Mary estivesse deitada novamente em seu peito no momento em que Melissa o abraçou. As lagrimas escorriam sem controle. De algum lugar da casa ouviam-se os ecos marcantes da voz de Freddie Mercury cantando “I Want To Breake Free”. ‘’But life still goes on. I can't get used to, living without, living without, Living without you by my side. I don't want to live alone, hey.’’

Da cabeceira da cama, Mary os observava. Uma suave brisa entrava pela janela. Lá fora os pássaros cantavam uma melodia alegre, fazendo Melissa correr até a gaveta trazendo um caderno de desenhos surrado. Ela folhou rapidamente até encontrar o desenho que depositou no colo de Max. Uma fresta de luz incidia no papel fazendo o brilhar. No desenho feito por mãos inábeis, viam-se três pessoas disformes. Melissa apontava o papel. –Eu, mamãe e papai. –Disse as palavras apontando para o próprio peito, para o desenho e para o peito de Max. –Papai.

Max a abraçou forte. Tão forte e apertado quanto era possível. Ficaram abraçados sem dizer uma palavra. As lagrimas diziam mais que tudo. Ouviu a voz suave de Melissa, como se fosse um mantra. –Melissa, Papai e Mamãe. –Max fechou os olhos. Sabia que dali pra frente tudo seria novo. Ela havia encontrado o seu propósito.

Melissa repetia seu mantra, tocando primeiro em seu peito, depois no peito de Max e por ultimo no caderno. Mas dessa vez o papel não fez barulho. Ela sempre tocava tão forte no desenho de Mary, que o papel chegava quase a se rasgar. Max sentiu o braço de Melissa passando sobre seus ombros, como se apontasse para a porta. Abraçou a filha novamente.

–Eu vou ser sua para sempre. Pra sempre! –Foram as ultimas palavras que Max ouviu antes de olhar para trás.